Adaptação americana do livro de Stieg Larsson mantém a denúncia implícita na história

* Texto pode conter gatilhos emocionais relacionados a violência contra mulher

A trilogia Millennium foi escrita pelo autor sueco Stieg Larsson e publicada por volta do ano de 2005. Os livros têm um forte tom neo-noir e policial, tendo como foco as desventuras da hacker Lisbeth Salander que, ao mesmo tempo em que é uma pessoa quebrada por traumas do passado, precisa lidar com inimigos violentos. Cada livro possui um enredo não necessariamente ligado aos outros, mas o elo entre o segundo e terceiro livro (protagonizados por Lisbeth) é maior do que o do primeiro livro (protagonizado pelo jornalista Mikael Blomkvist) com o resto da trilogia. 



A trama do primeiro livro, intitulado Os Homens que não Amavam as Mulheres, é bem direta: após ser arruinado por um processo de calúnia, o jornalista Mikael Blomkvist recebe uma proposta inusitada de um dos mais antigos e respeitados industrialistas da Suécia: descobrir quem assassinou sua sobrinha décadas antes. Essa premissa de mistério, não muito diferente do usual na literatura policial, funciona apenas como um pano de fundo para muito mais que se esconde abaixo da superfície.

O livro teve duas adaptações para o cinema. A primeira veio em 2009 e foi um produção sueca dirigida por Niels Arden Oplev; também foi o filme que lançou a carreira da atriz Noomi Rapace à patamares mais conhecidos. Já em 2011 veio a segunda adaptação, dessa vez uma produção norte-americana, dirigida pelo cineasta David Fincher e estrelando Daniel Craig e Rooney Mara. Este segundo se encontra atualmente no acervo da Netflix, e caso você seja um dos poucos no mundo que ainda não assistiu, faça este favor a si mesmo.

Os Homens que não Amavam as Mulheres” apresenta dramas reais muito fortes

Toda a trilogia Millennium tem como ambientação a Suécia atual, mas sem descartar as cicatrizes deixadas pelo passado do país, principalmente no período da ascensão nazi-facista na Europa. Por consequência, as obras (e mais precisamente a primeira) apresentam temas como violência contra a mulher como uma mancha que cada geração leva para a seguinte, uma herança pustulenta.

A questão é que isso está longe de ser apenas ficção; o autor Stieg Larsson não é famoso apenas pelos seus livros mas também por ter sido um grande jornalista sueco. Dessa forma, ele carregou para seus romances a necessidade de se denunciar esses tipos de crimes utilizando o verniz da ficção.

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A Suécia é um integrante constante nas melhores avaliações dos rankings de igualdade de gênero. Na versão de 2020, o país figurou em quarto lugar dentre os melhores colocados e ainda assim, no mesmo ano, ele apresentou dados alarmantes. A violência doméstica é a mais comum de acontecer e com o desencadeamento da pandemia e a necessidade de se executar lockdowns a quantidade de ocorrências inevitavelmente cresceu.

As boas avaliações de países europeus como a Suécia escondem verdades trágicas

A pesquisadora do Instituto de Economias de Transição em Estocolmo, Maria Perrotta Berlin, apresentou dados que mostram o aumento de casos no país em 2020. “Durante a primeira metade de 2020 o número total de crimes aumentou em 1% comparado ao mesmo período de 2019. Crimes reportados contra pessoas aumentaram todos em quantidades similares. Ataques violentos contra mulheres +4%…”

O fato de que, como mencionado, o país se encontra entre os melhores colocados em termos de igualdade de gênero e ainda assim mostrar números contínuos de violência de parceiros íntimos às mulheres (em inglês identificado pela sigla IPVAW) levou a elaboração da teoria do “paradoxo nórdico” pelos pesquisadores Enrique Garcia e Juan Melo. Na pesquisa, Prevalence of intimate partner violence against woman in Sweden and Spain: A psychometric study of the “nordic paradox” é indicado o quão contrária é a realidade dos países bem colocados.



“A alta prevalência de IPVAW em países com alto grau de igualdade de gênero foi definida por Garcia e Melo como ‘Paradoxo Nórdico’. Países nórdicos são, de acordo com diferentes indicadores internacionais, os mais igualitários em gêneros do mundo. Porém, apesar desses altos níveis de igualdade de gênero, países nórdicos têm altos índices de prevalência de IPVAW”.

Mapa de 2016, do portal U.S.News, ilustrando locais com maior denúncia de crimes sexuais contra mulheres. Países nórdicos estão com destaque

Ele continua abordando que as incidências de episódios violentos estão presentes também em relatórios oficiais e estatísticas. “O período de tempo em que se perpetua violência física e/ou sexual por parceiros íntimos nos 28 estados da União Europeia foi de 23%, com uma variação entre 13% e 32%. Porém, países nórdicos da União Europeia estavam entre os países com maior prevalência de IPVAW, com taxas de 32% (Dinamarca), 30% (Finlândia) e 28% (Suécia)”.

Apesar da discrepância entre o alto nível de desenvolvimento de países nórdicos e alta na porcentagem de casos de violência ocorridos neles, ainda não há uma explicação formal, especulando-se unicamente que quanto mais desenvolvido é o país, maior será a estatística de agressões. O artigo assume então que não há no momento base para chegar a uma conclusão definitiva e que o tema necessita de maiores estudos. O ato de violência também não está concentrado em uma única faixa etária, mas sim em uma variante.

Em 2014, a Agência da União Europeia pelos Direitos Fundamentais encomendou um relatório analítico sobre a disseminação de índices de ataques pelo continente. Um dos trechos analisa a incidência de episódios de violência física ou sexual sofridos por mulheres a partir dos 15 anos; novamente, países nórdicos ganham destaque com a Dinamarca indicando o maior índice de agressão nessa categoria perpetrado por um parceiro e\ou não parceiro: 52%, em seguida vem a Finlândia (47%) e Suécia (46%).

União Europeia tem monitorado os casos de violência em países membros

As mulheres também foram entrevistadas para fins de delimitar melhor o perfil dos ataques. O relatório então estima que 13 milhões de mulheres na União Europeia foram vitimas de violência física no curso de 12 meses, enquanto que outra estimativa aponta para 3,7 milhões sofreram violência sexual no curso de também 12 meses.



Um fato curioso, porém, é que bem mais recentemente, por volta de dezembro de 2019 mais precisamente, a empresa alemã Statista, que é especializada em elaborar dados estatísticos, realizou um levantamento com base em um certo número de cidadãos de países selecionados do continente sobre se eles acreditavam que abuso doméstico era um dos três problemas principais enfrentados pelas mulheres em seus respectivos países.

A Sérvia ficou em primeiro, com 41%. O que mais chama a atenção, porém, é que a Suécia, única representante dos países nórdicos, ficou dentre os que achavam que abuso doméstico não era um dos principais problemas enfrentados pelas mulheres; marcando um total de 17%. Outro relatório de 2019 vem do grupo Women Against Violence Europe que especificou internamente a estrutura disponível para auxílio a mulheres em países europeus.

No caso da Suécia, em específico, ele indica a existência de linhas de emergência disponíveis, centros de acolhimento e serviços de assistência a vítimas de ataques sexuais. O mesmo relatório, porém, infere que não existem dados acurados de quantos abrigos para acolhimento de mulheres existem no país, nem muito menos o número de camas disponíveis.

Apesar de que até 2019, segundo o briefing Violence Against Women in the EU publicado pelo Parlamento Europeu, mesmo a escala do problema não sendo completamente compreendida ainda é indicado também que o bloco está focado em expandir o acervo de dados sobre ocorrências de violência contra mulheres a serem consultados por diversas forças policiais no continente. A notificação de diversos crimes do tipo em diversos países europeus também incentivou os governos da Espanha e Reino Unido a criarem tribunais especializados nesse tipo de delito.

Por fim, Os Homens que não Amavam as Mulheres é uma ficção mas do tipo que carrega contornos reais. O drama das mulheres na Europa contradiz o nível de desenvolvimento alcançado pelo continente nas últimas décadas. A raiz disso tudo ainda é motivo de debate; interpretações de leitores sobre a bibliografia do Stieg Larsson indicam que o autor considerava que a razão desse tipo de violência estava ligada à cultura misógina, ainda presente em muitos locais da Europa. 


Já um posicionamento oficial presente no briefing de 2019 do Parlamento Europeu é que o problema pode ser vinculado a desigualdades sociais entre homens e mulheres, além de “valores religiosos tradicionais que algumas vezes são usados como justificativa. Fatores incluem que a falta de independência econômica das mulheres aumenta a vulnerabilidade”. 

 

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