Polêmica no primeiro dia do Festival de Berlim 2026: escritora indiana abandona evento após declaração do presidente do júri Wim Wenders

O primeiro dia do Festival de Berlim 2026 já começou cercado de controvérsia. A premiada escritora indiana Arundhati Roy anunciou que está se retirando do festival após declarações do presidente do júri, Wim Wenders, sobre a guerra em Gaza.

Roy, vencedora do Booker Prize em 1997 pelo romance O Deus das Pequenas Coisas (no original The God of Small Things), participaria do evento para apresentar uma cópia restaurada do filme In Which Annie Gives It Those Ones (1989), obra da qual foi roteirista e atriz. Após a coletiva de imprensa realizada na quinta-feira, dia 13, no entanto, a autora afirmou estar “chocada e enojada” com as respostas dadas por membros do júri quando questionados sobre o conflito em Gaza e o apoio da Alemanha a Israel.

Wim Wenders presidente do jûri do Festival de Berlim 2026

Ao ser perguntado sobre o tema, Wim Wenders declarou que o cinema não deveria “entrar no campo da política”, descrevendo os cineastas como “o contraponto à política”. A também jurada Ewa Puszczynska afirmou que seria “um pouco injusto” esperar que o júri adotasse uma posição direta sobre a questão.



Em nota enviada à AFP, Arundhati Roy classificou como “inconcebível” ouvir que a arte não deve ser política. A escritora descreveu as ações de Israel em Gaza como “um genocídio do povo palestino pelo Estado de Israel” e declarou que artistas que se recusam a se posicionar “serão julgados pela história”.

A organização da Berlinale afirmou que “respeita as decisões” e lamentou a ausência da autora, dizendo que sua presença teria enriquecido o debate do festival.

Um festival historicamente político

A polêmica chama atenção porque o Festival de Berlim sempre foi considerado um dos festivais mais politizados entre os grandes eventos do circuito internacional, ao lado de Cannes e Veneza. Nos últimos anos, o festival consolidou uma programação de forte tom ativista.

Em 2024, sob a presidência do júri de Lupita Nyong’o, o Urso de Ouro foi para o documentário Dahomey, obra de caráter político sobre restituição histórica e memória colonial. Já em 2025, com Kristen Stewart à frente do júri, o principal prêmio ficou com Sobre L’Adamant, outro documentário de viés social e crítico.

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Kristen Stwart presidente do Festival de Berlim em 2023.

No ano anterior, o documentário Sem Chão (No Other Land), sobre o deslocamento de comunidades palestinas na Cisjordânia ocupada, venceu um dos principais prêmios da mostra, provocando críticas de autoridades alemãs por declarações consideradas “unilaterais” durante a cerimônia.

Ao conquistar o Urso de Ouro de Melhor Direção em 2024, na mostra Encounters com Cidade; campo, a cineasta brasileira Júlia Rojas também marcou posição política em seu discurso, pedindo publicamente um cessar-fogo em Gaza. Ela não foi a única: outros premiados daquela edição aproveitaram o palco da Berlinale para se manifestar sobre o conflito, reforçando o histórico engajado e combativo dos participantes do festival.

Estrelas evitam posicionamento

A edição de 2026 também tem sido marcada por respostas cautelosas de artistas convidados. O ator Neil Patrick Harris afirmou estar interessado em realizar obras “apolíticas” que promovam conexão em um mundo “algorítmico e dividido”. Já a homenageada com o Urso de Ouro honorário, Michelle Yeoh, evitou comentar a política dos Estados Unidos, dizendo não se sentir em posição de analisar o cenário.

Michelle Yeoh e Neil Patrick Harris evitam comentários polîticos no Festival de Berlim
Michelle Yeoh e Neil Patrick Harris evitam comentários polîticos no Festival de Berlim

O conflito em Gaza teve início após o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, que resultou na morte de 1.221 pessoas, segundo dados oficiais israelenses compilados pela AFP. Desde então, a ofensiva israelense deixou ao menos 71 mil mortos em Gaza, de acordo com o Ministério da Saúde do território, números considerados confiáveis pela ONU.

Com a saída de Arundhati Roy já no primeiro dia, a Berlinale 2026 começa sob o peso de uma discussão que acompanha o festival há décadas: afinal, existe arte sem política ou toda escolha artística já é, por si só, um posicionamento? De um lado, estrelas como Sydney Sweeney evitam se posicionar publicamente sobre temas sensíveis; do outro, artistas como Wagner Moura frequentemente aproveitam entrevistas e tapetes vermelhos para comentar a situação política do Brasil e do mundo. Entre o silêncio estratégico e o engajamento explícito, a Berlinale volta a ser palco de um debate que parece inseparável de sua própria identidade.

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Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.