Metalinguística em toda sua construção, Irma Vep chega como um vislumbre de como a própria indústria cinematográfica funciona em seu âmago, entre diretores temperamentais, equipes de apoio constantemente subjugadas a pedidos escabrosos do elenco e desavenças em um set fechado, repleto de opiniões, costumes e visões distintas sobre tudo. Para um cinéfilo raiz, apaixonado por esse submundo criativo, a produção de Olivier Assayas é uma das auto-análises mais precisas. Dos tapetes vermelhos regados por egos inflados, às inúmeras entrevistas com jornalistas do mundo todo, o universo de uma estrela de cinema funciona exatamente como esse contraste de cores: A escuridão da solidão e da insatisfação constante e os tons quentes de uma vida badalada em eventos suntuosos, assédio público e vícios repetitivos.


E no meio de toda essa confusão está Alicia Vikander, que quase dá vida a um alter ego de si mesma no papel de Mira. Estrela de filmes blockbusters e com propostas de adaptações dos quadrinhos batendo à porta, ela almeja o que a maioria dos atores hollywoodianos anseiam: O prestígio e o respeito que só uma produção independente pode genuinamente lhes dar. E enquanto tenta se encontrar em um remake francês de um clássico filme mudo de 1915, a jovem e rica atriz tenta descobrir quem de fato é nos intervalos das cenas. Em um set conduzido por um ator dominado pela síndrome do estrelismo e por um diretor explosivo dependente de inibidores de humor, ela tenta navegar em um cenário que – no melhor de seus dias – já naturalmente seria uma bomba relógio, como toda produção de cinema de fato é.

E o carisma de Vikander toma conta das cenas. Como uma mulher que se esforça para parecer que não está tentando demais, ela vive entre a apatia de uma fala um pouco mais arrastada e um olhar baixo e a pressão de tentar se superar em um papel desafiador. Ao redor dela, uma série de personagens peculiares e pouco cativantes orbitam em suas minúsculas subtramas, acrescentando algum nível maior de profundidade para a estrela da produção. E Assays, que aqui recria seus próprio filme Irma Vep – lançado em 1996, tenta expandir seu longa original em um formato mais acessível, americanizando seu original francês para um formato que flerte melhor com o público atual, que se alimenta essencialmente das plataformas de streaming.


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Com a ajuda da HBO, o cineasta e a produtora A24 transformam o filme cult em uma série mais comerciável, mas ainda assim bem restrita. De ritmo lento e com uma proposta muito mais subjetiva – cuja trama maior se encontra nas entrelinhas da construção da personagem Mira -, a série não foi feita para todo mundo. Misturando o drama e o suspense de forma bem misteriosa, Irma Vep ainda é um pouco indecifrável em seus dois primeiros episódios. Seria ela uma análise clínica dos bastidores de uma produção ou seria uma epopeia metalinguística com um promissor e caótico plot twist? Esse é ainda um segredo bem guardado, que muitas pessoas talvez não tenham a mesma paciência para tentar descobrir nos próximos capítulos.

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