Os traumas de infância e os dilemas das relações interpessoais ganham um ar divertidamente pitoresco em Made for Love. Sob uma ótica ultra tecnológica, os criadores Alissa Nutting, Dean Bakopoulos, Patrick Somerville e Christina Lee entregam uma distopia inusitada, que usa a evolução digital para criar um debate intenso e estranhamente cômico sobre como lidamos uns com os outros e com sentimentos que não conseguimos controlar, como o próprio amor. E Billy Magnussen e Cristin Milioti retornam ainda mais ásperos na segunda temporada desta que talvez seja uma das séries mais originais da atualidade.

O que torna Made for Love tão fascinante é seu afinco em transformar a tecnologia em uma metáfora da nossa necessidade doentia de querer curar (ou pelo menos maquiar) os nossos traumas e dilemas mais íntimos a partir dela. Aqui, o Byron Gogol (Magnussen) está em busca da fórmula do amor: um chip que una dois parceiros para eternidade, sincronizando seus pensamentos, anseios e desejos – evitando qualquer “emboscada” que os segredos íntimos de cada indivíduo possam gerar dentro de um relacionamento amoroso.



E enquanto divaga sobre a obsessiva necessidade de controle das relações afetivas, Made for Love nos leva a uma jornada incrivelmente cativante pelos dissabores de ser humano em plena era digital. Em uma cultura onde o parecer atrai mais likes e publicidade do que o ser, a trama expande suas discussões psicológicas para o âmbito pessoal, nos levando a refletir sobre como – em escala infinitamente menor – somos um pouquinho como o próprio sociopata e revolucionário geek. A fim de controlar nossa própria narrativa, criamos uma especial de miragem nas redes sociais, para mostrarmos como gostaríamos de ser percebidos pelas pessoas que nos acompanham. De forma simples e objetiva, muitas vezes somos pegos na mentira de vender uma vida impecável e sem defeitos, em busca da aprovação de gente que a gente talvez nem goste tanto assim.

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E logo em seus dois primeiros episódios, a segunda temporada de Made for Love já se mostra ainda mais afiada. Expandindo nosso conhecimento sobre o “Eixo” – a realidade virtual criada por Gogol (pegou a referência ao Google?!) onde ele se afasta do mundo real e é capaz de viver uma vida inteira apenas a partir de hologramas e realidades aumentadas -, a série mostra novas camadas em seus dois protagonistas. Aqui, aquela linha de moralidade e controle obsessivo – que sempre os separou tão bem na temporada um – se torna cada vez mais tênue.

Essa nova temporada nos lembra logo de cara que embora a síndrome do abandono tenha tornando o magnata da tecnologia um perigoso lunático por controle, o carisma inebriante de Magnussen divide nossos pensamentos e nos torna ainda mais curiosos para compreender sua bizarra e subversiva visão de mundo. E como os primeiros capítulos sutilmente sugerem, talvez não sejamos os únicos a querer ir ainda mais além dentro desse estranho e apaixonante universo.



E à medida em que reforça a peculiaridade do seu humor ácido, trazendo novos personagens, Made for Love se consolida como aquela série que pouco se preocupa em passar uma mensagem, mas que está muito mais interessada em divagar sobre a estranha sociedade que nasceu da tecnologia avançada. E mesmo não sendo “tão Black Mirror”, a original HBO Max tem o suficiente pra nos impressionar em meio a momentos cômicos subversivos demais para não serem desfrutados.

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