Taylor Sheridan é um dos realizadores mais prolíficos e prestigiados do cenário cultural contemporâneo e, após ter conquistado uma indicação ao Oscar pelo drama criminal neo-western ‘A Qualquer Custo’, encontrou popularidade e sucesso ainda maiores com o lançamento da série ‘Yellowstone’. Estendendo-se por cinco temporadas, a produção caiu no gosto do público e da crítica, dando origem a incursões derivadas como ‘1883’ e ‘1923’ e abrindo espaço para que Sheridan continuasse a explorar a condição humana em meio ao cenário idílico e quase épico do interior dos Estados Unidos – colocando os personagens infundidos em uma atmosfera de natureza que arranca solilóquios e reflexões sobre a própria existência.
Agora, ele nos convida a conhecer as densas florestas e as alterosas montanhas de Montana com ‘Madison’, que estreou hoje, 14 de março, no catálogo da Paramount+ – com os três primeiros episódios de seis agendados. Ambientada no Vale do Rio Madison, a trama logo nos apresenta aos dois eixos principais que serão esquadrinhados à medida que se desenrolam: o primeiro vem na forma de Preston Clyburn (Kurt Russell), um entusiasta da vida interiorana que, às vésperas do seu aniversário, desfruta de um momento de paz ao lado do irmão, Paul (Matthew Fox). O segundo insurge com Stacy (Michelle Pfeiffer), matriarca da família Clyburn que vibra em meio ao frenesi de cores e luzes de Nova York, singrando pela high society ao lado das filhas, Paige (Elle Chapman) e Abigail (Beau Garrett).

Porém, o cotidiano dos protagonistas vira de cabeça para baixo quando, durante uma estrondosa tempestade, Preston e Paul sofrem um acidente de avião, falecendo logo após a queda e levando Stacy a reavaliar tudo o que conhecia conforme deixa para trás o irruptivo escopo urbano para se reconectar consigo própria quando é engolfada pelas extensas pradarias e bosques de Montana – embarcando em um turbilhão de emoções ao lado da família que a coloca frente a frente com o luto, a melancolia, a saudade e o amor. E, à medida que se lança a um necessário e doloroso processo de cura e reerguimento, Stacy redescobre o apreço pela vida da maneira mais inesperada possível.
Ainda que não conte com a mesma pungência de suas conterrâneas, ‘Madison’ triunfa ao reduzir o escopo imagético e ao traçar um fabuloso estudo de personagens que é guiado pelo talento nato de um elenco estelar. Russell, mesmo encontrando um prematuro fim no episódio piloto, nos encanta com um magnetismo inescapável e uma habilidade de transformação invejável, principalmente quando nos recordamos de seu recente trabalho na série ‘Monarch: Legado de Monstros’; desfrutando de uma ótima química com Fox, cujas faíscas explodem nas breves sequências que protagonizam, o astro garante que Preston seja um ponto de convergência entre arquétipos que sagram a complexidade e a humanidade do personagem.

Pfeiffer, por sua vez, parte de uma ideia diferente, um oposto complementar de Russell que é refletido nas vestimentas de alta costura que ostenta em Nova York, ou até mesmo nos lugares que frequenta – procurando estabelecer qualquer tipo de conexão com o cotidiano digital e supérfluo em que as filhas e as netas estão. Não demora muito até que Stacy seja despida da armadura metropolitana, rendendo-se a um misto de frustração, ódio e luto quando recebe a ligação de que o marido faleceu. Aqui, devo mencionar a entrega impecável da atriz em uma mixórdia tocante de confusão e consternação, que logo é emplastrada com uma esmagadora letargia que navega por uma justificável instabilidade emocional.
A temporada de estreia é comandada por Christina Alexandra Voros, que já trabalhou com Sheridan em ‘Yellowstone’ e em ‘1883’. Veterana do universo televisivo do realizador, Voros sabe exatamente o que pretende com cada um dos frames – garantindo que o impactante conflito entre o expressivo frenesi urbano de uma das maiores metrópoles do mundo e a bucólica calmaria do Vale do Rio Madison sejam condizentes com a jornada que cada um dos personagens enfrentará. Não é surpresa, pois, que mesmo em investidas panorâmicas e expansivas, haja uma espécie de enclausuramento labiríntico que encontra universalidade na particularidade.

É claro que há uma certa unidade estilística nas produções de Sheridan – e o fato de o realizador ficar responsável pelo roteiro de cada um dos capítulos é um indicativo de que ele tem um apreço gigantesco pelas histórias que cria. Entretanto, essa coesão identitária às vezes sucumbe aos convencionalismos repetitivos de dramas intergeracionais e familiares, algo que constantemente vemos em seus múltiplos projetos e que, para alguns, pode soar como “o mais do mesmo”. Apesar desses equívocos, ‘Madison’ nos presenteia com um prático melodrama que acredita piamente no cerne de sua história e que deixa o elenco brilhar para nos encantar do começo ao fim.
Lembrando que os três próximos capítulos serão lançados em 21 de março na Paramount+.


