A crítica abaixo aborda o primeiro episódio da minissérie.
Em 2021, Brad Ingelsby deu vida à ótima minissérie de suspense ‘Mare of Easttown’ – um poderoso thriller policial liderado pela icônica Kate Winslet, que inclusive faturou o Emmy e o Globo de Ouro por seu impecável trabalho como a detetive Marianne “Mare” Sheehan. Levando-nos para um pequeno subúrbio fictício, Ingelsby arquitetou uma narrativa profunda e que funcionou como uma profunda exploração da psique humana e um sólido estudo de personagens focado mais na complexidade de seus personagens do que em uma narrativa abrangente e época. E, agora, o realizador está de volta para mais uma ambiciosa e instigante produção limitada que chegou recentemente ao catálogo do Prime Video.
Intitulada ‘Task’, a trama traz o indicado ao Oscar Mark Ruffalo como Tom Brandis, um ex-padre que agora trabalha como agente do FBI, vivendo entre traumas que insistem em assombrá-lo e tentando manter o mínimo de uma convivência com a filha adotiva, Emily (Silvia Dionicio), enquanto enfrenta o fardo de ter o outro filho (irmão biológico de Emily) encarcerado na prisão da cidade onde moram. Afastado dos trabalhos de campo, Tom passa os dias cultivando seu jardim e lidando com problemas passados e presentes, além de participar de feiras de profissão que nunca dão em nada.

Porém, as coisas mudam quando sua chefe, a impetuosa Kathleen McGinty (Martha Plimpton), o escala como líder de uma força-tarefa formada pela inexperiente policial estadual Lizzie Stover (Alison Oliver), pelo detetive local Anthony Grasso (Fabien Frankel) e pela calculista e metódica detetive Aleah Clinton (Thuso Mbedu). Munidos com poucos recursos do FBI e escondendo-se em uma casa caindo aos pedaços, o grupo tem a missão de encontrar criminosos mascarados que invadem pontos de drogas para roubar dinheiro, incitando tensões entre as gangues da cidade e acendendo um barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento. Esse trio de ladrões é liderado por Robbie Prendergast (Tom Pelphrey), estrela do segundo núcleo da narrativa – um homem que faz o que pode para cuidar de seus filhos e de sua sobrinha Maeve (Emilia Jones), mas que lida com a perda do irmão de maneira nada saudável.
À medida que ambos os universos convergem para um ponto máximo de tensão, percebemos como Ingelsby parece construir uma espécie de “sequência espiritual” de ‘Mare of Easttown’ e até mesmo uma entrada inédita em um inesperado universo de “thrillers suburbanos” que se relaciona com outro título encabeçado pelo realizador, ‘Echo Valley’. Porém, a ideia aqui não é apenas se manter fiel a uma identidade conhecida dentro desse expansivo gênero, e sim apostar fichas em temas antropológicos e sociológicos que esquadrinham a complexidade fervorosa do indivíduo como parte de uma engrenagem muito maior – e, dessa maneira, escolher temas diferenciados que se materializam em cada um dos personagens.

O criador não apenas acerta no tom melancólico e complacente da narrativa, engolfando os protagonistas e coadjuvantes em uma labiríntica prisão da qual não conseguem escapar, como estende esse espectro derradeiro para os elementos estéticos: assim como seus projetos anteriores, Ingelsby une-se a Alex Disenhof para uma fotografia que, de certa forma, existe fora da cronologia como a conhecemos e reitera o cárcere sem grades em que todos estão envolvidos, seja em planos fechados e claustrofóbicos, seja em constantes cenas de câmera na mão que nos engolfam em sequências frenéticas e mais sensoriais do que palpáveis. Ademais, há uma predileção inefável por tons esverdeados e amarronzados que denotam a cíclica batalha entre “bem e mal” que se estende pelo episódio.
Entretanto, o aspecto maniqueísta não existe, mas destila-se entre as batalhas internas e externas enfrentadas pelos personagens. Ruffalo e Pelphrey encarnam dois lados de uma mesma moeda ao insurgirem como emblemas das discussões paternais e da configuração multigeracional que os coloca em posições muito difíceis – e que torna nossa tarefa de julgá-los muito difícil, visto que a máxima “dois pesos, duas medidas” não se aplica a eles. Expandindo-se para incursões sobre o luto, a frustração e a afazia, os dois atores dominam os holofotes de maneira aplaudível e invejável, acompanhados de performances fabulosas de destaques como Jones e Plimpton (que não me surpreenderiam ao faturarem indicações na temporada de premiações do próximo ano).

Ainda que não esteja livre de alguns deslizes, o empenho criativo e técnico dos membros envolvidos nesse projeto – à frente ou atrás das câmeras – é o suficiente para ofuscá-los, caminhando para um chocante cliffhanger que nos deixa ansiosos para o próximo capítulo e que já colocam ‘Task’ como uma das candidatas às listas de melhores séries de 2025.
Lembrando que o próximo episódio vai ao ar no dia 14 de setembro.
