Primeiras Impressões | ‘The Handmaid’s Tale’ ganha um novo capítulo com as PERVERSAS sutilezas de ‘Os Testamentos’


Crítica livre de spoilers.

Em 2017, o clássico e aclamado romance O Conto da Aia, de Margaret Atwood, ganhava uma adaptação seriada sob o título The Handmaid’s Tale, nos apresentando a um mundo distópico onde a sociedade se transformou em uma autoritária e totalitária teonomia movida por uma radical e extrema reinterpretação da Bíblia. Estrelada por Elisabeth Moss, que inclusive conquistou uma estatueta do Emmy por seu trabalho como June/Offred, a narrativa mostrou como as mulheres, em tempos de crise, são as primeiras a terem seus direitos e sua autonomia minada – discorrendo sobre uma realidade cruel e assustadoramente próxima em que a fertilidade é vista como mercadoria de luxo (e que é defendida através de brutais preceitos religiosos).

Depois de seis temporadas que caíram no gosto do público, o Hulu resolveu dar continuidade a esse angustiante cosmos arquitetado por uma das damas da literatura distópica com a série sequência Os Testamentos. Ambientado quinze anos depois dos eventos originais, o spin-off nos promove um retorno à burocrática e impiedosa teocracia de Gilead e nos apresentou a uma nova geração de personagens que singram por um futuro inescapável e obscuro. Dessa vez, somos convidados a acompanhar a jornada de Agnes MacKenzie (Chase Infiniti), que se prepara para se tornar uma esposa de um dos membros do alto-escalão do governo. Instruída a seguir os firmes mandamentos segregativos que subjugam as mulheres à obediência cega, ela começa a entender quem realmente é e percebe que está em perigo em virtude de seus ímpetos rebeldes.

Agnes é aluna em uma escola de alunas comandada a mãos de ferro pela perversa Tia Lydia, que marca o retorno da sempre incrível Ann Dowd ao universo de The Handmaid’s Tale. Vivendo todos os dias a serviço das bênçãos que lhe foram concedidas com a promessa da recuperação de uma sociedade em frangalhos, ela vê seu mundo virar de cabeça para baixo com a chegada de Daisy (Lucy Halliday), que morava em Toronto, no Canadá, antes de migrar para os Estados Unidos a fim de ser salvo dos pecados do mundo – mas escondendo um segredo perigoso que prenuncia um novo levante contra o regime ditatorial materializado por Gilead e seus idealizadores.

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Bruce Miller retorna como criador e, diferente da série original, não pretende explorar a brutalidade logo de cara – ou, ao menos, não da forma que imaginamos. Enquanto a saga de June já teve início de forma visualmente impactante, aqui o derradeiro desespero é transformado em uma falsa sensação de estabilidade e controle, reiterado pelo escopo um pouco mais “jovial” e que é movido por uma escolha certeira de elementos imagéticos e narrativos. Temos, como emblema, a utilização de uma paleta de cores violeta que não apenas dialoga com as “castas” que existem na escola da Tia Lydia, mas a uma ideia de complacência e aceitação mandatórias que encarcera as personagens em arcos quase predestinados; dessa maneira, a ideia de brutalidade existe na densa manipulação ideológica que as jovens enfrentam.

Agnes existe no centro de um irrefreável, porém sutil barril de pólvora que acabou de ser aceso, conformando-se com o status a que foi renegada e jazendo entre a personalidade ambígua de Daisy – que logo revela ser uma apoiadora da revolução contra Gilead – e o violento poder que embriagada Shunnamite (Rowan Blanchard), que se beneficia do nome da família para despontar como uma das alunas mais respeitadas. E, através de uma performance recheada de nuances que pouco a pouco ganham espaço nas telinhas, Infiniti reafirma seu potencial como atriz ao se afastar completamente de seu aclamado e premiado trabalho em ‘Uma Batalha Após a Outra’.

Os três primeiros episódios do spin-off procuram não só nos reintroduzir ao universo criado por Atwood, mas esquadrinhar elementos que, em uma narrativa comandada por personagens adultas e que, de fato, singraram entre a transição da democracia para o autoritarismo, não teriam lugar. Aqui, ao promover uma brusca mudança geracional, os temas se tornam mais complexos e intrincados e se beneficiam de tantas outras histórias distópicas para servir como reflexo e alerta do que está acontecendo nas principais sociedade do planeta – e como as engrenagens que a princípio protegem as pessoas são frágeis demais para serem dadas como garantidas.

Os Testamentos é uma ótima adição ao universo de The Handmaid’s Tale e, dentro do espectro que ousa delinear, funciona do começo ao fim e já nos deixa instigados para as próximas semanas. Contando com ótimas atuações e uma preciosidade técnica que expande Gilead em suas inúmeras camadas de crueldade, violência e segregação, o spin-off encontra sucesso por se manter fiel à história original sem se deixar levar pela mera emulação.

Lembrando que o próximo episódio vai ao ar no dia 15 de abril.

Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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