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Primeiras Impressões | Vingança e guerra regem a profunda atmosfera da 2ª temporada de ‘A Casa do Dragão’


O texto a seguir está livre de spoilers e cobre os dois primeiros episódios da nova temporada.

Dizer que Game of Thrones se tornou um fenômeno é, grosso modo, subestimar o impacto que a série causou no cenário televisivo contemporâneo. Além de se consagrar como a produção mais premiada do Emmy Awards, a adaptação da saga de romances de George R.R. Martin ditou as obras do gênero que seriam lançadas nos anos seguintes e ganhou um elogiado spin-off intitulado A Casa do Dragão – focado na Casa Targaryen, duzentos anos antes dos eventos da trama original e 172 anos antes do nascimento de Daenerys Targaryen (eternizada pela incrível performance de Emilia Clarke).

Agora, somos convidados a regressar para esse icônico panteão fantástico com a segunda temporada, que tem estreia agendada para o próximo dia 16 de junho no catálogo da Max e na HBO. E, seguindo os passos da iteração predecessora, Martin e Ryan Condal mantiveram o alto nível ao aproveitar as tramas apresentadas nos capítulos anteriores para aprofundá-las e construir uma espécie de thriller político guiado por atuações impecáveis e por um comprometimento artístico de tirar o fôlego. É claro que, nos dois primeiros episódios do novo ciclo, lidamos com alguns vícios de linguagem que insistem em dar as caras – mas nada que não possa ser ofuscado por elementos eximiamente arquitetados.



Personagem de cabelo branco com dragão ao fundo.

Para aqueles que não se recordam, a iteração predecessora foi concluída com a inesperada morte de Lucerys Velaryon (Elliot Grihault), um dos filhos de Rhaenyra Targaryen (Emma D’Arcy), pelas mãos de Aemond (Ewan Mitchell), filho de Alicent Hightower (Olivia Cooke). Logo, não é surpresa que o capítulo de reestreia abra com uma trama focada no luto sentindo por Rhaenyra, que arranca uma atuação digna de aplausos de D’Arcy e que preza por uma dramatização emocionante que foca em expressões de frustração, apatia, tristeza e ódio – tudo concentrado em uma única sequência. E, enquanto sofremos com a perda da personagem e sua autojornada de reencontro para se reerguer, sabemos que as cartas do jogo foram dadas e que o restante do ciclo será banhado em sangue, fogo e assuntos inacabados.

De outro lado, Alicent navega pelas atribulações de sua própria casa, tentando manejar um acordo com Rhaenyra e Daemon Targaryen (Matt Smith), que deseja que o assassinato seja pago na mesma moeda com a morte de um dos descendentes da Rainha, bem como com a impetuosa personalidade de seus filhos, incluindo o Rei Aegon II Targaryen (Tom Glynn-Carney em um trabalho esplendoroso), cuja implacabilidade é refletida nas escolhas que faz e em seu desejo de varrer seus inimigos da face de Westeros de uma vez por todas. É notável como Condal, assinando o roteiro, não procura meias-palavras e faz questão de mostrar uma conhecida crueza desse universo fantástico para explorar as múltiplas camadas dos personagens e de que forma as peças se movem num intrincado tabuleiro de xadrez.

Duas pessoas conversam perto de lareira em castelo medieval.

Como já mencionado, há alguns deslizes que aparecem nos episódios – incluindo subtramas a priori desnecessárias e que poderiam ter sido deixadas para iterações futuras, por exemplo, ou problemas de ritmo que mancham a estrutura técnica. Porém, a solidez da direção de Alan Taylor e de Clare Kilner permite que esqueçamos disso e sejamos engolfados nos corolários do início da Dança dos Dragões, premeditando a ruína da Casa Targaryen e os constantes embates entre “os verdes e os pretos” – e é essa antecipação que nos mantém presos do começo ao fim, angustiados para saber o que irá acontecer. Taylor e Kilner também parecem trabalhar em conjunto, destilando um comando cênico que promove um movimento mútuo de expansão e introspecção, apostando fichas em um reflexo micro e macrocósmico.

Se a temporada de estreia foi esquadrinhada em uma arquitetura de apresentação, desenvolvimento e clímax, o segundo ciclo é pautado em um vórtice de reviravoltas que fornece um irresistível dinamismo que pode se tornar cansativo – e que, em virtude dos múltiplos acontecimentos, pode não agradar parte dos espectadores. Entre artimanhas, mentiras e vendetas pessoais, nota-se que nada e ninguém serão poupados para que a série supere a si mesma. Entretanto, é preciso comentar que o time criativo por trás dessa iteração tome cuidado para não elevar demais as expectativas e não conseguir cumprir com aquilo que promete.

Personagem loiro sentado em um trono medieval.

A segunda temporada de A Casa do Dragão começa de maneira bastante positiva, mantendo-se fiel à identidade mostrada dois anos atrás e buscando maneiras de inovar uma estrutura que poderia ceder aos cansativos convencionalismos do gênero. Agora, não temos nada a fazer a não ser esperar o que o futuro nos reserva – e se essa profunda e instigante atmosfera não será apenas uma fachada superficial ou decepcionante (algo que, pessoalmente, acho muito difícil de acontecer).

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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