Uma das personalidades mais comentadas e adoradas da sétima arte, Alfred Hitchcock ficou imortalizado como o mestre do suspense. Mas o diretor é muito mais do que isso, e o seu valor para a indústria cinematográfica transcende gêneros. Sua contribuição artística (com narrativas originais e exigência da entrega de seus atores) e tecnológica (criação de novos efeitos, ângulos de filmagens e desenvolvimento de técnicas que desafiavam os equipamentos mais modernos da época) é continuamente estudada em aulas de cinema pelo mundo ainda hoje.

Definitivamente, Alfred Hitchcock fez por merecer a alcunha de mestre, mas tal palavra seguida apenas do ponto final. Um mestre no que fazia. Um mestre em sua arte. Mesmo com toda sua grandiosidade, Hitchcock não se viu livre, já naquela época (com uma carreira como realizador que se estendeu da década de 1920 até a década de 1970), das hoje “infames” refilmagens. Termo que muitos cinéfilos não podem sequer ouvir falar. No entanto, para percebermos que os remakes não são coisa de agora, a filmografia do icônico diretor esteve intimamente ligada a algumas reimaginações – e algumas inclusive surpreendentes.

A mais recente repaginada é Rebecca – A Mulher Inesquecível, que a Netflix lançou em seu acervo. Pensando nisso, resolvemos apontar nesta nova matéria as principais revisões que as obras de Alfred Hitchcock tiveram ao longo dos tempos. Veja abaixo.

Rebecca – A Mulher Inesquecível



Depois do descarado remake de Psicose, nenhuma obra do diretor estava livre de ganhar uma nova roupagem. De fato, a filmografia de Hitchcock é muito rica, e seria interessante ver modernizadas algumas de suas produções mais obscuras. Não é o caso com este longa, que acaba de estrear na Netflix. Rebecca (1940) marcou a transição do cineasta de Londres para Hollywood e o início de sua fase como celebridade nos EUA. Fora isso, é sua produção mais prestigiada, com 11 indicações ao Oscar, incluindo melhor diretor e as vitórias para fotografia e melhor filme.

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A obra é originalmente um livro de Daphne Du Maurier, e em casos assim os realizadores dos remakes sempre afirmam ter se baseado na obra literária e não no filme clássico. É exatamente o que diz Armie Hammer, novo intérprete do protagonista Max de Winter, que revelou nunca ter visto o longa de Hitchcock. Seja como for, Hammer (no lugar de Laurence Olivier), a musa Lily James (ocupando a vaga de Joan Fontaine), Kristin Scott Thomas (substituindo Judith Anderson) e o diretor Ben Wheatley criam uma dinâmica modernização do conto sobre o romance de um bilionário com uma garota humilde, tendo como terceiro elemento deste triângulo o fantasma da esposa morta do sujeito, uma mulher inesquecível. Wheatley nem de longe é Hitchcock, mas o novo longa promete agradar aos não familiarizados com suas inúmeras reviravoltas – neste que não é exatamente um suspense nos moldes usuais do diretor.

Psicose

Sim, os produtores de Hollywood se atreveram a “refazer” não apenas o mais icônico filme de Alfred Hitchcock (e seu maior sucesso), como também uma das produções mais memoráveis da história do cinema. Psicose (1960) é marcante por inúmeras razões, desde sua trilha sonora até a forma como o diretor trata seus personagens dentro da narrativa (com a protagonista saindo de cena antes da metade), sua construção de clima gélido até algumas das surpresas e plot twists mais lembradas da sétima arte. Definitivamente, Hitchcock chegou com os dois pés no peito quando fixou a ideia de transformar em sua nova obra um livro tido como “trash” pelos intelectuais da época.

O livro de Robert Bloch, que serviu de base para o filme, usa como matéria prima o psicopata da vida real Ed Gein – por isso, até mesmo os que cercavam o diretor achavam o material abaixo do talento do mestre. Mas o cineasta mostrou que realmente podia fazer de tudo, e transformou o que poderia ser um filme B, num dos filmes mais queridos da história – o número 40 de todos os tempos na opinião do grande público no IMDB. O remake surgiu 38 anos depois, com o aval da Universal e direção do cultuado Gus Van Sant, um diretor único em seus próprios méritos. Muita coisa não deu certo – como o Norman Bates de Vince Vaughn – mas Psicose (1998) é mais uma fonte de estudo e curiosidade do que um filme em si – já que Van Sant recriou muitos dos mesmos ângulos e cenas idênticas ao original, acrescentando cores. Não que Psicose já não tivesse sido “profanado” antes com três continuações, protagonizadas pelo próprio Anthony Perkins, em 1983, 1986 e 1990.



Um Crime Perfeito

Os puristas podem afirmar que nenhum remake jamais chegará aos pés do original. Será mesmo? Bem, muitos diriam ser essa uma verdade absoluta em se tratando de um diretor do porte de Alfred Hitchcock. Sem a pretensão de causar qualquer polêmica, mas já causando, venho defender esta reinterpretação da peça de Frederick Knott, que o próprio adaptou ao cinema num roteiro dois anos depois intitulado Disque M Para Matar (1954). Ah sim, este filme foi dirigido pelo mestre do cinema em pessoa, contou com sua musa Grace Kelly protagonizando e fez uso do mimo da época, a tecnologia 3D – relançado desta forma em cópias de Bluray.

E o filme de Hitchcock se comporta exatamente como um peça – como já havia feito com Festim Diabólico (1948) –, centrado basicamente num único ambiente (o apartamento do casal protagonista) e contando com pouquíssimas externas e outros cenários. Fora isso, o remake desenvolvido pelo cineasta Andrew Davis (do ótimo O Fugitivo) acerta em algumas interpretações, dando mais credibilidade para uma narrativa arrojada e atual, além de reservar reviravoltas mais interessantes. O primeiro grande ponto a favor é mesclar os personagens do amante e do assassino num só, retirando qualquer elemento de heroísmo entre os personagens. Aqui todos são falhos, e não existe príncipe encantado num cavalo branco. Também qualquer comicidade foi eliminada, ao contrário do original que conta com o detetive interpretado por John Williams, uma versão do Poirot, de Agatha Christie.  Sabiamente, os envolvidos resolveram deixar de fora toda a subtrama da protagonista ser condenada à pena de morte – um grande desvio para chegar no mesmo lugar, algo completamente desnecessário no original.

Janela Indiscreta



Fechando a trinca dos remakes clássicos, 1998 se mostrou o ano para novas versões de alguns dos filmes mais icônicos da carreira do cineasta britânico. E se a Universal e a Warner optaram por “novas” roupagens para Psicose e Disque M Para Matar (Um Crime Perfeito) – com a Warner acertando mais em seu produto -, o ano terminaria com o lançamento de um novo Janela Indiscreta, do qual muitos sequer ouviram falar. E o motivo para isso é o seguinte: o remake é um filme feito para a TV, produzido pela açucarada Hallmark Entertainment. Igualmente baseado no conto de Cornell Woolrich, a ideia aqui era utilizar a condição trágica do astro Christopher Reeve, entravado numa cadeira de rodas, paralisado do pescoço para baixo após uma queda de cavalo na vida real.

A história do filme clássico de Hitchcock, lançado em 1954, tem muito a ver com nossa reclusão social e apresenta o protagonista interpretado por James Stewart, um fotógrafo aventureiro obrigado a ficar em casa por um longo período para se recuperar de uma perna quebrada após sofrer um acidente em mais um de seus trabalhos desafiadores. A reclusão imposta o deixa impossibilitado de sair, precisando recorrer às bisbilhotadas nas casas dos vizinhos como forma de distração. Durante a atividade, começa a suspeitar que seu vizinho de frente tenha matado a esposa. Após o acidente Reeve, poucos papeis encaixavam em sua condição, por isso mesmo esta foi a escolha perfeita para ele: um homem paralisado, vivendo numa mansão altamente tecnológica. Completando o elenco, Daryl Hannah, a eterna sereia Madison do cult Splash – Uma Sereia em Minha Vida (1984).

Jogue a Mamãe do Trem

Essa não é especificamente uma refilmagem declarada, mas uma comédia que pega o plot principal de um clássico do mestre, citando e o utilizando como referência inclusive. E se me perguntar, não existe forma melhor de homenagear uma obra querida. É claro que estamos falando de Pacto Sinistro (1951), baseado no livro da especialista (pouco apreciada ou conhecida) em suspense dramático Patricia Highsmith. Na trama, um tenista se vê as voltas com a esposa, que não lhe dá o divórcio de jeito nenhum. Num trem, o famoso é abordado por um homem desequilibrado com uma proposta pra lá de macabra: que elimine seu pai em troca dele matar a esposa inconveniente.



Na comédia dirigida e estrelada pelo baixinho Danny DeVito, o ator vive um estudante de roteiros de cinema, que tem uma relação no mínimo problemática com sua mãe, papel da saudosa Anne Ramsey (Os Goonies e A Maldição de Samantha). Seu professor, vivido por Billy Crystal, tem problemas com a ex-mulher, e num dos conselhos para o aluno sugere que ele assista ao clássico Pacto Sinistro, de Hitchcock, para melhorar seus roteiros. O amalucado sujeito interpreta a dica como um novo “pacto macabro” a ser realizado entre ele e o professor, com um eliminando o problema do outro. Impagável.

O Homem que Sabia Demais

Para todos aqueles que acham uma atrocidade as refilmagens que são produzidas dos filmes do lendário Alfred Hitchcock, o que dizer quando o próprio mestre resolve refilmar um de seus longas? Sim, meus caros, isso ocorreu em 1956 quando o diretor lançou nos cinemas uma nova versão da história criada por Charles Bennett e D.B. Wyndham-Lewis envolvendo alguns dos temas preferidos de Hitchcock: espionagem, intriga, sequestro, um homem comum no lugar e hora errados, viagens ao estrangeiro e medo do desconhecido.



Acontece que o cineasta havia feito O Homem que Sabia Demais em 1934, ainda em sua fase na Inglaterra, cuja trama apresentava um casal americano em viagem na Suíça, tendo a filha sequestrada por espiões numa “intriga internacional”, que planejam um assassinato político. Vinte e dois anos depois, já na sua fase superstar em Hollywood, e podendo fazer uso de nomes como James Stewart e Doris Day – grandes astros da época -, Hitchcock refaz seu próprio longa, acrescentando algumas diferenças. Por exemplo, agora o casal está de féria no Marrocos e não mais na Suíça, e têm o filho, e não a filha, sequestrado. A ideia do homem comum e inocente falsamente acusado, perseguido por Deus e o mundo numa trama muito maior do que pode sequer imaginar, continua como bússola.

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