A Tropa de Elite do Futuro

A onda de refilmagem que assola Hollywood de maneira desenfreada desde a década passada finalmente chegou ao que havia de mais sagrado dentro do cinema mainstream: os clássicos da era de ouro dos blockbusters – os filmes dos anos 1980. O conceito dos blockbusters foi criado em 1975 com Tubarão e dizem respeito a filmes que todos precisavam assistir. Tais filmes arrastavam verdadeiras multidões aos cinemas como nunca anteriormente. Apesar do início em meados dos anos 1970, o conceito só se estabeleceu realmente na década seguinte, os anos 1980.

Nesta época estão contidos alguns dos mais importantes sucessos que ajudaram a definir o que conhecemos de Hollywood. Filmes como De Volta para o Futuro (1985), Os Caça Fantasmas (1984), Rambo (1985), Os Gremlins (1984), E.T. (1982) e tantos outros. Mais pra o final dela, mais precisamente em 1987, chegava um filme como nenhum outro do pacote. Robocop – O Policial do Futuro, escrito por Edward Neumeier e Michael Miner e dirigido pelo holandês Paul Verhoeven, misturava ficção científica com muita ação na hora de contar a história do policial dado como morto, cujo corpo volta a funcionar mesclado com uma máquina.

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O que chamava a atenção, no entanto, era o subtexto político e seu teor de grande sátira social. Tudo somado a uma ultraviolência jamais vista anteriormente e uma narrativa igualmente incomum (que dividia o andamento do filme com comerciais de produtos incríveis). Extremamente irônico, Robocop (1987) atropelou o mundo, que ficou sem saber o que o atingiu e mostrou que o cinema entretenimento casava muito bem com um conteúdo inteligente. Muitos anos mais tarde e o anúncio de que este clássico moderno receberia uma roupagem atual deixou os entusiastas em polvorosa.

As refilmagens já se tornaram um fato comum. As desnecessárias mais ainda. As mal sucedidas então são a maioria. Recentemente, outro filme de Verhoeven, O Vingador do Futuro (1990), ganhou nova versão e morreu na praia. As chances estavam todas contra. O anúncio de que o comandante da obra seria o brasileiro José Padilha (Tropa de Elite 1 e 2) sem dúvidas deixou nosso povo esperançoso e feliz. No entanto, outros cineastas conterrâneos não emplacaram como deveriam na maior indústria do cinema (Heitor Dhalia com 12 Horas e Walter Salles com Água Negra).

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Padilha sem dúvidas é talentoso, mas até aonde iriam suas vontades perante estúdios grandes e poderosos como a Sony e a MGM? Após ter assistido ao produto final é seguro dizer que RoboCop é um produto quase 100% de José Padilha. O diretor insere inclusive um estilo muito próximo de ação do que é visto em Tropa de Elite, em especial na cena aonde Alex Murphy e seu parceiro saem a tiros de um encontro que “azedou” em um restaurante. Enquanto o Robocop original servia como sátira e previsão de para onde estávamos caminhando como sociedade, o novo filme de Padilha funciona mais fincado na realidade e explora a discussão de alguns fatores que em breve serão colocados em pauta.

O principal deles, que serve de mote para a obra é a substituição de soldados humanos em conflitos internacionais pelos chamados drones – robôs altamente tecnológicos. Ao vermos a abertura de RoboCop, somos levados a alguns anos no futuro, aonde a política americana permite o uso das criaturas mecânicas em ações fora do país. Num país do oriente médio, os robôs americanos pacificam conflitos. Tudo é televisionado. Esta é uma das melhores cenas de abertura para um blockbuster recente, que serve para nos imergir instantaneamente na trama e ao mesmo tempo preparar o que está por vir.

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O veterano Michael Keaton (o primeiro Batman do cinema) vive Raymod Sellars, uma espécie de Steve Jobs dos robôs (como define o próprio diretor) e presidente da nova e inescrupulosa OminiCorp, antiga OCP – a empresa maligna que privatiza setores do governo, como a polícia de Detroit no filme original. Sellars é bem delineado como um megaempresário apoiado pelo governo e pela mídia. Os comerciais de muito humor negro do original são substituídos pelo programa de extrema direita, apresentado pelo personagem de Samuel L. Jackson. A sátira existe aqui também e ela recai na Fox News, motivo de chacota nos Estados Unidos.

Outro personagem que ganha destaque é o médico cirurgião e especialista em robótica como substituição de membros e órgãos, Dr. Dennett Norton, papel de Gary Oldman (Conexão Perigosa). O núcleo do personagem de Oldman serve para inserir outro texto ao filme, igualmente embasado na evolução de algo já presente e em andamento em nossa sociedade. Ah sim, temos também a história de um tal de Alex Murphy, o único personagem mantido da versão original, que é também o protagonista. O sueco Joel Kinnaman é o escolhido como a nova face (e mão) do herói. A beldade talentosa Abbie Cornish (Sete Psicopatas e um Shih Tzu) também tem destaque como a esposa do protagonista.

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Apesar de aparentemente possuir tudo contra, RoboCop surpreende e é um filmaço. Talvez não seja tão significativo quanto sua contraparte foi para sua época respectiva, mas é seguro dizer que a nova versão está bem longe de ser um produto hollywoodiano medíocre e voltado apenas para o entretenimento sem uma ideia sequer para salvá-lo. A obra de Padilha possui muitas ideias e diversos elementos dignos de discussão. Todo conteúdo planejado pelo diretor funciona bem e o cineasta tem espaço o suficiente para explorar os assuntos que pontuam a produção.

Além de tudo isso, o novo RoboCop é incrivelmente bem sucedido na forma como apresenta e destaca cada um dos seus inúmeros personagens. Todos tem uma razão. E obviamente, capricha nas cenas de ação e nos efeitos visuais, tudo é claro ajudando a contar a história e não ao contrário. Se para mais nada, o novo RoboCop entrará para a história como o filme mais caro que deu voz e autonomia para um cineasta brasileiro em Hollywood. Violento, político, recheado de ideias e bons personagens. Sim, esse é um filme de José Padilha.

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