Muitos lembram das produções cinematográficas ou televisivas hollywoodianas como “a” forma de nostalgia dos anos 80. Mas aqui no Brasil também temos nossos próprios produtos que marcaram a época. Um dos mais queridos e saudosos atendia pelo nome Armação Ilimitada. Estreando em 1985 às sextas-feiras à noite na Rede Globo, o programa durou até 1988. Na trama, dois grandes amigos, Juba e Lula (vividos por Kadu Moliterno e André de Biase), eram sócios profissionais e também no amor. No trabalho, eram donos de uma pequena empresa de prestação de serviços – que levava o nome do programa. Em casa, a dupla dividia a namorada Zelda Scott (papel de Andrea Beltrão) num triângulo amoroso que deu o que falar na época, demonstrando um estilo de vida bem moderninho. A série focada na ação e aventura (além de certo humor) era propriamente centrada na zona sul carioca, cenário elitista da cidade.

Também na década de 1980, mais especificamente um ano após a estreia de Armação Ilimitada, no outro lado do mundo o prestigiado cineasta Oliver Stone realizava Platoon (1986), drama sobre a Guerra do Vietnã que fez grande sucesso no Oscar, chegando inclusive a levar para casa os prêmios de melhor filme e diretor (além de outros dois, num total de 8 indicações). Ou seja, durante toda a década de 80 e também a de 90, Oliver Stone esteve ocupado com produções mais sérias, como Wall Street (1987), Nascido em 4 de Julho (1989) e JFK (1991), filmes que discutiam abertamente questões doloridas dos EUA.

Armação Ilimitada gringa. Ben, Chon e O vivem um triângulo amoroso nos moldes de Juba, Lula e Zelda.

Corta para 2012, vinte e quatro anos depois do término de Armação Ilimitada, quando o cultuado diretor dono de intensa veia política entregou sua própria versão do programa brazuca. Ou quase. Selvagens é o décimo oitavo longa de ficção da carreira de Oliver Stone, e é também, até o momento, seu penúltimo filme lançado – com quatro anos de hiato até Snowden: Herói ou Traidor (2016), e este com mais cinco até hoje. Baseado no livro de Don Winslow e com roteiro do próprio em parceria com Stone, a obra debutou no dia 25 de junho de 2012 nos EUA, chegando ao Brasil no dia 5 de outubro do mesmo ano.

Na trama saem Juba e Lula, e entram Ben e Chon, melhores amigos surfistas donos do próprio negócio em Laguna Beach, a “zona sul carioca” da “zona sul do mundo” Califórnia. Ah sim, a dupla norte-americana também divide a namorada – mas ao invés da jornalista espirituosa de Beltrão, no filme de Stone temos a loiríssima patricinha “rata de praia” Ophelia, apelidada ‘O’. Se tratando de um filme de Oliver Stone tudo ganha proporções, digamos, mais violentas e em certas partes realistas. A “armação ilimitada” aqui é um próspero negócio de venda de maconha, a melhor da região, o que atrai atenções de toda a parte – desde cartéis mexicanos até agentes do FBI. ‘Juba’ e ‘Lula’ também sofrem suas repaginadas para o mundo real, com Chon sendo um ex-militar que serviu na Guerra do Afeganistão e é o braço forte da equação. Ben é o cérebro, um universitário especializado em administração e botânica, o que faz dele o responsável pela criação de uma nova espécie de erva capaz de virar a cabeça da Califórnia inteira, e também o homem por trás dos números da empresa.



A Zelda Scott da vez não é uma jornalista, mas sim a rata de praia O (papel de Blake Lively.

De fato, Selvagens é teoricamente o que Oliver Stone entregaria se o pedissem para adaptar Armação Ilimitada no cinema – ou seja, um filme violento, explícito, sexual e drogado. Que nada foge à regra de seus trabalhos anteriores. Esse, no entanto, é seu filme mais “leve”, despretensioso, colorido (dá para ver pelo cartaz) e pop – focado em belas paisagens, praias e no estilo de vida de jovens ricos e famosos. Isto é, quando uma decapitação provida pela máfia mexicana não surge para chocar, como logo na abertura do filme. Muitos dos momentos mais tensos são trazidos pelo peso do vencedor do Oscar Benicio Del Toro na pele do matador Lado, uma das melhores coisas do longa.

Benicio Del Toro é o ameaçador Lado – sempre o melhor “lado” de qualquer filme.

Apesar de ser provavelmente o filme mais comercial da carreira de Oliver Stone, o cineasta não desvia de cenas quentes de sexo, sangue, sequestro, chicotadas que arrancam a pele da carne, estupro e tudo de mais sombrio que o ser humano pode produzir. No entanto, embalado numa bela roupagem de seriado adolescente com cenário de Los Angeles, do tipo Barrados no Baile ou The OC. Bem, mais uma vez, nos moldes do que Stone entregaria.

Para o trio de protagonistas foram escalados Taylor Kitsch (Chon), Aaron Taylor-Johnson (Ben) e Blake Lively (O). Mas nem sempre seria assim. Kitsch foi o privilegiado do elenco, contratado por Stone após o diretor assisti-lo em cena em alguns trechos de Battleship – A Batalha dos Mares, então em fase de pós-produção, lançado no mesmo ano de Selvagens. Já Ben poderia ter tido as formas de Leonardo DiCaprio, James Franco ou Tom Hardy, todos considerados para o papel antes de Taylor-Johnson assumir. Por fim, para o papel de O, a estrela em ascensão Jennifer Lawrence havia sido contratada, mas terminou pulando fora em prol do papel protagonista em Jogos Vorazes, igualmente lançado em 2012. Decisão acertada, já que a franquia foi o que tornou J-Law uma estrela internacional. Já imaginaram Lawrence num papel tão cru e “sujo” quanto este?



No elenco, o veterano John Travolta (talvez o maior nome do filme) vive o agente federal corrupto Dennis Cain, num papel coadjuvante. Selvagens marcaria o terceiro encontro nas telas entre o astro e sua colega de Pulp Fiction (1994) Uma Thurman. A dupla voltou a dançar juntos em Be Cool – O Outro Nome do Jogo (2005), e a brincadeira poderia ter continuado aqui. Thurman havia sido escalada para interpretar Paqu, a mãe da personagem de Lively, porém, suas cenas foram cortadas e a personagem nunca chega a aparecer no filme.

Nos embalos da corrupção. John Travolta é Dennis, o agente do FBI comprometido em Selvagens.

Fechando o elenco, a mexicana Salma Hayek vive a Rainha do crime, a líder do cartel Elena Sanchéz. Sua personagem é levemente baseada em Mireya Moreno Carreon, a primeira mulher chefona de um cartel mexicano. Fora isso, um fato curioso sobre sua personagem é que o toque de seu celular pode ter passado em branco para audiências dos EUA, mas sem dúvida foi reconhecido pelos mexicanos e brasileiros. Trata-se da música tema de abertura do programa de TV mais famoso e popular do México: Chaves – que ficou no ar de 1972 a 1983, e no Brasil marcou com as reprises do SBT por décadas.

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Poderosa! A mexicana Salma Hayek é a “rainha do sul” Elena.

Bancado pela Universal Pictures, Selvagens custou US$45 milhões. Sendo um filme restrito ao grande público por possuir censura alta, o longa apenas se pagou nos EUA, arrecadando em bilheteria algo em torno de US$47 milhões. Pelo mundo o resultado passou longe do sucesso esperado somando menos do dobro de seu orçamento, com US$82 milhões em caixa. Com os críticos o filme igualmente dividiu opiniões. Marcando a metade exata com 50% de aprovação no Rotten Tomatoes, mas garantindo o “tomate podre”, a consideração final sobre Selvagens foi que era definitivamente uma bagunça, porém marcava o retorno de Oliver Stone à uma forma sombria, corajosa e sinistra. O que é muito mais do que podemos dizer sobre a maioria dos filmes atuais voltados ao entretenimento.

Afirmando ainda mais sua veia “alegre”, “ensolarada” e “amorosa” em Selvagens, Oliver Stone optou por mudar o desfecho do livro, que era um final pra lá de pessimista. Na verdade, o diretor ainda mantém tal final em seu filme. Mas o trata como o “fim fantasia”, o que poderia ter acontecido, somente para voltar a fita e entregar uma conclusão mais otimista, na qual os mocinhos se dão bem e os vilões terminam presos. Selvagens demonstra que o sol brilha não apenas nas praias da Califórnia ou do Rio de Janeiro, mas também na mente de cineastas cínicos e controversos.



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