Você sabia que o indicado ao Oscar ‘Bugonia’, de Yorgos Lanthimos, é um remake? Sim, o filme é a reimaginação americana da produção sul-coreana ‘Save the Green Planet!’, de 2003. A grande maioria não sabe disso. Muitos torcem o nariz para refilmagens, mas a intenção pode ser nobre. A principal função de um remake é criar interesse por uma história, a tornando famosa e fazendo o espectador buscar suas referências, ou no caso de remakes o seu original, ampliando assim seu conhecimento cinematográfico e aumentando sua experiência com a sétima arte. Os melhores remakes são aqueles que pegam uma produção obscura ou muito antiga e a colocam na luz. Outro exemplo recente é ‘O Beco do Pesadelo’, produção de alto nível comandada por Guillermo del Toro, que se trata da refilmagem de uma produção de 1947, intitulada ‘O Beco das Almas Perdidas’.
Entrando no clima dos remakes, vamos falar agora de uma de nossas décadas preferidas: os anos 80. O período guarda muitos filmes queridos e ainda bastante populares. Mas também esconde produções B ou cults não muito conhecidos pelo grande público de hoje. Abaixo daremos exemplos de alguns filmes dos anos 80 que variam em fama, e que achamos que dariam boas refilmagens modernas nos dias de hoje. Confira.
A Lagoa Azul

Claro que todos conhecem este recordista de exibições na Sessão da Tarde. A história de duas crianças abandonadas em uma ilha paradisíaca, que crescem para descobrir os desejos da carne, nas formas da bela Brooke Shields e de Christopher Atkins. Existe um quê bíblico nesta narrativa, que remete a Adão e Eva no paraíso. Agora imagine uma cineasta do nível de Emerald Fennell à frente de um remake desses, que possa adicionar muitos elementos eróticos à narrativa, como a diretora fez em todos os seus filmes, em especial no recente ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, atualmente nos cinemas.
Mas não apenas isso, porque poderíamos ter algo de ‘Socorro!’, também lançado este ano nos cinemas, adicionado à narrativa – afinal ambos tratam de pessoas isoladas em uma ilha, precisando usar todo o seu conhecimento para sobreviver. E quem sabe ter elementos mais intensos, afinal um bom remake é aquele que não apenas homenageia o original, mas cria algo totalmente novo. Ah sim, não podemos esquecer dos momentos contemplativos, belos e mais dramáticos, e para isso a referência aqui poderia ser ‘Sonhos de Trem’, que fala entre outras coisas sobre a relação simbiótica entre o homem e a natureza.
A Marca da Pantera

Esse é um pouco menos conhecido do grande público da atualidade. Curiosamente, ele mesmo é um remake, bastante estilizado de um clássico da década de 1940, sobre uma maldição que acomete uma raça de pessoas que se parecem muito com humanos normais, porém, ao ficarem excitados se transformam em enormes felinos, espalhando o terror. O remake é de 1982, estrelado pela alemã Nastassja Kinski, e dirigido por Paul Schrader, o famoso roteirista de ‘Taxi Driver’. Para um segundo remake desta história, a aposta, é claro, seria em um visual mais arrojado e em efeitos práticos de primeira. Para isso, o longa adentraria ao popular subgênero do body horror, na crista da onda novamente devido ao sucesso de ‘A Substância’. Justamente por isso, a sensibilidade da cineasta francesa Coralie Fargeat seria o ideal, já que a realizadora soube como poucos equilibrar humor, crítica social e elementos bizarros de terror.
O Último Guerreiro das Estrelas

Lançado em 1984, ‘O Último Guerreiro das Estrelas’ fez parte do grupo de centenas de filmes que não foram sucesso nos cinemas, mas foram redescobertos nas locadoras de vídeo, se tornando uma produção cult. Aliás, há anos fala-se em um remake para esta clássica aventura espacial – que pegou clara carona no sucesso de ‘Star Wars’, mas mirou no público mais jovem, da era dos games e arcades. Na trama, um rapaz pobre, morando em um acampamento de trailers, é uma verdadeira fera em um fliperama de naves espaciais. O jogo na verdade é um recrutamento bastante real para pilotos em uma guerra interplanetária. Para o subgênero conhecido como “ópera espacial”, uma ótima pedida seria um realizador do tipo de Dan Trachtenberg, responsável pelo ótimo e subestimado ‘Predador: Terras Selvagens’, que misturou com perfeição um visual incrível, escopo de blockbuster, muita ação, ficção científica afiada, certo humor, criaturas e um drama familiar que foi a pitada final. Todos estes elementos casam com perfeição na narrativa do clássico dos anos 80.
Deu a Louca nos Monstros

Existem certos filmes que parecem ter nascido para se tornar uma franquia. Porém, isso nem sempre se concretiza. O item acima é um claro exemplo disso. Outro exemplo é este ‘Monster Squad’ (no original), que é uma mistura de Goonies com os clássicos monstros da Universal (Drácula, Frankenstein, Lobisomem, Múmia e o Monstro da Lagoa Negra). O longa marcou todos que cresceram na época, e esta geração jamais esquecerá o longa de 1987. Muitos anos se passaram e nada de concreto sobre uma continuação ou remake, apesar de ser um dos mais celebrados cults dos anos 80, com exibições comemorativas de tempos em tempos nos cinemas.
Para um eventual remake, a pegada poderia ser a mesma de ‘Abigail’, um dos filmes de vampiros mais divertidos dos últimos tempos. E para o comando seria legal alguém com a sensibilidade da dupla conhecida como Radio Silence (Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett), que mistura humor e terror como poucos, donos de filmes como ‘Casamento Sangrento’, ‘Pânico 5’ e ‘Pânico 6’. Os diretores já comandaram inclusive um elenco juvenil nos citados filmes do assassino Ghostface. Resta saber se o estúdio iria optar por uma censura mais baixa, já que o longa apesar de possuir elementos de terror, possui também um clima relativamente família.
O Feitiço de Áquila

Os anos 80 também ficariam conhecidos como a casa do gênero de aventura e fantasia, gênero que viria a morrer na década seguinte, e ser revivido nos anos 2000 com ‘O Senhor dos Anéis’ e ‘Harry Potter’. Na década de 80 tivemos diversos exemplares dos mais variados níveis de sucesso, vide ‘A Lenda’, ‘Willow’, ‘Labirinto’, ‘A Princesa Prometida’, entre outros. Um dos mais “realistas” foi ‘O Feitiço de Áquila’, que é levado de uma forma sóbria, como um épico medieval, não fosse pelo fato de uma maldição que separa o casal vivido por Rutger Hauer e Michelle Pfeiffer. De dia, ela se transforma em um gavião (daí o título original Ladyhawke) e de noite, ele é transformado em um lobo. As transformações nunca são mostradas e o longa mantém a seriedade ao não apelar para efeitos visuais. O remake do filme poderia continuar com essa sobriedade, apesar dos elementos fantásticos, algo que Ryan Coogler realizou muito bem em ‘Pecadores’. Mas poderia também seguir um caminho mais absurdo, surreal e bizarro, como as obras recentes do grego Yorgos Lanthimos, vide ‘Pobres Criaturas’ e ‘Bugonia’.
A Aparição

Outra obra cult, desconhecida por grande parte do público, ‘A Aparição’ (ou The Wraith no original) é uma espécie de ‘O Corvo’ (1994) misturado com ‘Velozes e Furiosos’ – já comece a pensar na insanidade disso. Produção B do cinema, que mesmo para os fãs da década de 80 se trata de um filme obscuro, o longa é estrelado por Charlie Sheen, que diz não lembrar de ter trabalhado no projeto – para sentir o drama. Acontece que com o passar do tempo, esse longa que completa 40 anos em 2026 foi ganhando enorme fama de cult, com cada vez mais adeptos de sua trama nonsense. Como dito, assim como a história de ‘O Corvo’, também um cult com mais estilo do que substância, aqui também temos uma trama essencialmente sobre vingança do além-túmulo, envolvendo elementos sobrenaturais. A diferença é que aqui tudo é feito no melhor estilo de ‘A Supermáquina’. Uma gangue toca o terror nas ruas de uma cidade americana, cometendo os piores crimes, até finalmente matarem um rapaz.
Um tempo depois, um novato chega ao local, papel de Charlie Sheen, coincidindo com a aparição de uma entidade motorizada, que começa a fazer justiça eliminando um por um os membros da gangue. O principal mote aqui é o estilo e a qualidade cult, elementos que poucos cineastas possuem hoje em dia mais do que Zach Cregger. O diretor parece ter nascido para “causar” em obras cult, mas que se tornam extremamente populares, apesar de toda a sua insanidade. Os exemplos são ‘Noites Brutais’ e especialmente ‘A Hora do Mal’ – indicado ao Oscar. Cregger seria o diretor perfeito para um remake de ‘A Aparição’, que certamente tomaria outros rumos, manteria somente o tema central e eliminaria o aspecto ‘Velozes e Furiosos’. Ou será que não?


