Wagner Moura, Alice Braga e mais artistas assinam CARTA ABERTA demonstrando preocupação com as eleições brasileiras

Vários membros brasileiros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas — incluindo os indicados ao Oscar Kleber Mendonça Filho, Wagner Moura, Emilie Lesclaux, Fernando Meirelles, Alê Abreu e Petra Costa, e o produtor vencedor do Oscar Rodrigo Teixeira (‘Ainda Estou Aqui’) — divulgaram uma carta aberta chamando a atenção internacional para o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil (via Variety).

A votação ocorrerá em 25 de outubro, com o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentando o candidato de extrema-direita Flávio Bolsonaro. Flávio é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que atualmente cumpre pena de 27 anos e três meses em prisão domiciliar por conspirar para um golpe de Estado após perder as eleições presidenciais de 2022 – e enquanto Jair desmantelou o setor audiovisual brasileiro durante seu mandato, Flávio deve seguir o mesmo caminho caso seja eleito.

Outros signatários de destaque incluem Alice Braga (‘Cidade de Deus’), Karim Aïnouz (‘A Vida Invisível de Eurídice Gusmão’), Sônia Braga (‘Aquarius’), Gabriel Mascaro (‘Ventos de Agosto’), Carolina Markowicz (‘Carvão’), Anita Rocha da Silveira (‘Medusa’), Anna Muylaert (‘Que Horas Ela Volta?’), Laís Bodanzky (‘Bicho de Sete Cabeças’) e a diretora do Festival do Rio, Ilda Santiago.

A carta pede “atenção internacional rigorosa” às eleições, detalhando como Flávio Bolsonaro prometeu recentemente “reescrever a Constituição brasileira de 1988” e apontando uma suposta interferência dos EUA no primeiro turno do pleito — que foi noticiado pelo The Guardian em uma investigação sobre como o governo dos Estados Unidos destinou cerca de US$1 milhão de um fundo de direitos humanos do Departamento de Estado para um programa chamado “Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil”.

“Encaramos os acontecimentos no Brasil como parte de um padrão mais amplo de suposta interferência eleitoral em toda a América Latina”, diz a carta, que pode ser lida na íntegra abaixo:

“Nós, profissionais brasileiros do cinema e membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, desejamos expressar nossa preocupação com o atual clima político no Brasil e pedir atenção internacional rigorosa para o segundo turno da eleição presidencial, em 25 de outubro.

A diferença entre os dois candidatos no primeiro turno foi de apenas 1,87 ponto percentual. O Brasil é, portanto, um país profundamente dividido. No entanto, testemunhamos sinais preocupantes de desrespeito às normas democráticas, incluindo alegações de possível interferência estrangeira no Brasil que exigem investigação transparente e escrutínio internacional.

O jornal The Guardian noticiou que o governo dos Estados Unidos destinou cerca de US$1 milhão, provenientes de um fundo de direitos humanos do Departamento de Estado, a um programa chamado “Combate ao ‘Lawfare’ e à Censura no Brasil”.

Paralelamente, observadores da mídia levantaram preocupações sobre possíveis distorções no alcance de conteúdo político nas plataformas da Meta e pediram uma investigação. Entre os casos citados estão as contas no Instagram do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que teriam sofrido quedas de alcance, dificuldades de acesso e visibilidade nos resultados de busca, além da impossibilidade de promover postagens por meio de publicidade paga. Outro caso envolve um site sediado nos EUA que promovia a compra de anúncios em apoio ao candidato Flávio Bolsonaro em troca de *tokens* de criptomoedas, sob a promessa de ajudar crianças carentes em Uganda. A Polícia Federal brasileira também investiga suspeitas de pagamentos em dinheiro a eleitores em áreas rurais.

Várias das propostas de Flávio Bolsonaro também exigem escrutínio rigoroso, incluindo sua promessa de reescrever a Constituição brasileira de 1988, que marcou o fim da ditadura militar e a restauração da democracia no país. Segundo o candidato, uma nova constituição seria redigida por um Congresso dominado por uma maioria de extrema-direita. Essa declaração é particularmente preocupante à luz da tentativa de golpe atribuída ao ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do candidato. A trama incluía planos para assassinar o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu vice-presidente, Geraldo Alckmin. Jair Bolsonaro está preso em conexão com esse caso, enquanto seu filho prometeu conceder-lhe anistia como seu primeiro ato no cargo.

Nossa preocupação é agravada pela forma como grande parte da mídia tradicional brasileira normalizou esses acontecimentos, deixando de tratar com a seriedade devida as acusações contra Flávio Bolsonaro e os crimes atribuídos a seu pai. Além da tentativa de golpe, Jair Bolsonaro foi alvo de uma denúncia apresentada ao Tribunal Penal Internacional, em Haia, em razão das mais de 600 mil mortes por COVID-19 registradas no Brasil durante a pandemia, decorrentes de ações e omissões de sua gestão. A denúncia sustenta que mais da metade dessas mortes poderia ter sido evitada.

Seu governo também esteve associado ao retorno do Brasil ao Mapa da Fome das Nações Unidas. Agora, seu filho promete cortes nos gastos com seguridade social, inspirados nas políticas de austeridade do governo de Javier Milei, na Argentina. A omissão ou a minimização desses fatos contribui para a desinformação pública e enfraquece a defesa da democracia.

Como profissionais da cultura, compreendemos o custo que essas políticas de austeridade podem impor ao nosso setor. Durante a gestão anterior, a indústria audiovisual brasileira sofreu com o fechamento do Ministério da Cultura, a suspensão do Fundo Setorial do Audiovisual, o enfraquecimento de instituições culturais e denúncias de censura. Tememos um retorno a esse cenário. Proteger a liberdade de expressão e garantir a sustentabilidade a longo prazo da indústria audiovisual brasileira são ações indissociáveis ​​da defesa da democracia.

Encaramos os acontecimentos no Brasil como parte de um padrão mais amplo de suposta interferência eleitoral em toda a América Latina. Portanto, a defesa da democracia brasileira deve contar não apenas com o povo brasileiro — por meio de eleições livres, justas e transparentes —, mas também com a vigilância e o engajamento da comunidade internacional.

Convocamos a imprensa internacional a cobrir esse processo eleitoral com rigor, a comunidade audiovisual internacional a ampliar o debate e as instituições competentes a investigar essas denúncias de forma independente”.

Confira os nomes que assinaram a carta aberta:

Adrian Teijido
Alê Abreu
Alice Braga
Andrea Barata Ribeiro
Anita Rocha da Silveira
Anna Muylaert
Anna Van Steen
Bernardo Uzeda
Carlos Segundo
Carolina Markowicz
Claudia Kopke
Daniel Filho
Daniel Rezende
Daniela Thomas
Eduardo Serrano
Eliza Capai
Emilie Lesclaux
Emilio Domingos
Felipe Lacerda
Fernando Meirelles
Flávia Amon
Flávia de Souza
Gabriel Domingues
Gabriel Mascaro
Heitor Lorega
Helena Solberg
Heloisa Passos
Ilda Santiago
Jefferson De
Jordana Berg
Jorge Bodanzky
José Joffily
Julia Bacha
Juliana Rojas
Karen Akerman
Karen Harley
Karim Ainouz
Kleber Mendonça Filho
Lais Bodanzky
Lucy Barreto
Maeve Jinkings
Marcelo Caetano
Maria Augusta Ramos
Mariana Oliva
Matheus Farias
Maurício Zacharias
Miriam Biderman
Murilo Hauser
Otto Guerra
Paula Barreto
Pedro Kos
Petra Costa
Plínio Profeta
Renata Almeida Magalhães
Rita Azevedo
Rodrigo Teixeira
Sara Silveira
Sônia Braga
Tatiana Leite
Thales Junqueira
Vânia Catani
Vera Hamburger
Wagner Moura
Waldir Xavier
Wilssa Esser

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.