Um dos filmes brasileiros mais aguardados de 2026 finalmente desembarcou no Brasil, no Festival do Rio, trazendo uma busca por respostas em meio às sequelas de uma tragédia. Vicentina pede Desculpas, novo filme de Gabriel Martins (Marte Um) é uma jornada dilacerante, que caminha a passos lentos, sob a perspectiva de uma personagem interpretada de forma magistral por Rejane Faria, marcada pelo luto e pela dor, que encontra um respiro para seguir em frente em uma estrada inesperada, repleta de incertezas.
Vicentina (Rejane Faria) é uma professora aposentada que vive em Minas Gerais, cidade onde criou os dois filhos. Em um dia que parecia ser como tantos outros em sua pacata rotina, uma notícia avassaladora chega: o ônibus de Linha 2212, no qual seu filho, Wesley (Renato Novaes), dirigia pela Avenida do Contorno, sofre um trágico acidente, com muitas vítimas. Completamente dilacerada com o ocorrido, com a mídia sensacionalista não dando sossego e alimentando especulações, e sem saber como seguir em frente, ela resolve procurar as famílias das vítimas dessa tragédia para pedir desculpas.

Produzido pela Filmes de Plástico, essa turma mineira e cinéfila que conquista o público a cada nova obra, esse é um daqueles filmes sobre os quais demoramos a escrever, pois, a cada vez que voltamos a pensar sobre ele, surge algo novo. Por isso, é importante controlar a ansiedade e deixar a obra chegar conforme o tempo passa. Afinal, cada filme tem seu próprio tempo para despertar em nossas reflexões. Nesse exercício constante de decifrar e buscar entender cada escolha vista em cena, uma palavra voltou repetidamente aos meus pensamentos: compaixão.

A obra é extensa e mastigada, ao mesmo tempo, permite que o público complete suas próprias lacunas, pois há muitos caminhos que se abrem nesse roteiro e fazem dos conflitos seu pilar de sustentação. Planos longos, com a câmera próxima nos momentos de silêncio, potencializam a emoção, transmitindo, através do luto e de uma suposta culpa, as frustrações e a indignação.
A importância de dizer que se ama e as dores silenciosas ganham uma estrada de reflexões a partir de dois olhares. O primeiro do que escondia o filho morto de Vicentina, um homem marcado por dores não ditas, que só são descobertas após sua partida. O segundo é o da própria Vicentina, que encara as dúvidas sobre as causas do acidente: será que foi uma ação proposital? Como viver em meio a essa incerteza? Será que eu também tive culpa?

Mergulhando na melancolia, a espinha dorsal da situação em que Vicentina se coloca, exposta a uma variedade de possibilidades, encontramos, a cada nova porta que se abre, a raiva, a tristeza, o abalo indescritível, mas também a compaixão. Sempre atento aos mínimos detalhes, Gabito (como é chamado carinhosamente o diretor da obra) é o maestro de uma sinfonia melancólica de rasgar o coração, compondo as belezas de sua poesia dilacerante em torno da dor.

Exibido no Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF) deste ano, onde teve sua première mundial, Vicentina pede Desculpas passará rapidamente pelo circuito exibidor brasileiro a partir do dia 5 de novembro e à Netflix em 20 de novembro.


