Crítica | Desejo de Matar – Bruce Willis e Eli Roth no remake do clássico de Charles Bronson

Crítica | Desejo de Matar – Bruce Willis e Eli Roth no remake do clássico de Charles Bronson

Nota:

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Desejo do Duro de Matar

Em 1988, o ator Bruce Willis, então com 33 anos (e cabelo), se tornava um astro de reconhecimento mundial. Tudo por causa de um filme de ação diferente de todos os outros. Estamos falando de Duro de Matar (Die Hard), que chegava no fim de tal década disposto a humanizar o biótipo do herói de ação. Ele suava, sangrava e quase não sobrevivia ao desfecho, diferente dos atores-personagens (Schwarzenegger, Stallone, Chuck Norris) que permeavam a época. Antes disso, no entanto, outro estilo de filme de ação fazia muito sucesso, igualmente apresentando o homem comum levado a extremos.

O ano era 1974. Charles Bronson, um ator que já havia feito carreira em faroestes, adentrava nova fase e ajudava a introduzir (ou ao menos cimentar) no mainstream o subgênero dos filmes de vigilantes. Sim, trata-se de Desejo de Matar (Death Wish), baseado no livro de Brian Garfield, com direção de Michael Winner. Aqui, também tínhamos o homem comum forçado a extremos, porém, a ideologia é ainda mais dúbia, caminhando na tênue linha do aceitável. Devemos contextualizar também que esta era outra época, uma Nova York pré-Rudolph Giuliani, e pré-tolerância zero, que varreu uma então dominante criminalidade.

Neste cenário, muito próximo ao que temos hoje no Rio de Janeiro, e no Brasil em geral, os cidadãos temem por suas vidas ao saírem na rua, podendo facilmente se tornar estatística da violência. Desejo de Matar traz o arquiteto Paul Kersey (Bronson) decidindo agir por conta própria, após um ataque mortal à sua esposa e filha. O longa, como dito, gerou tanto fervor que acabou derivando um subgênero próprio, de onde saíram inúmeras outras produções cinematográficas, séries de TV e inclusive personagens de quadrinhos, como o Justiceiro da Marvel.




Agora, 44 anos depois, com o mundo vivendo o extremo inverso do experimentado nas décadas de 1970 e 1980, onde o excesso de zelo é a palavra de ordem, chega a refilmagem deste clássico, prometendo enfiar o dedo na ferida. Será que ainda existe lugar para este discurso?

Na trama, Paul Kersey está de volta, desta vez nas formas de Bruce Willis e com o diploma de medicina ao invés de arquitetura. A história é respeitada e se mantém dona dos mesmos questionamentos levantados, o interessante aqui é analisar através de nossa época como tais ações ecoam hoje. É notável também a modernização do contexto, no qual o contato direto com o mundo auto-publicável mistifica instantaneamente a figura do vigilante de capuz, flagrado por câmeras amadoras. O personagem vira lenda antes mesmo de saber, o que amplia as dimensões de seu culto e calvário.

Bruce Willis está comedido no papel. Menos canastrão, sem risinhos de canto de boca, e menos ligado no automático, como vem sendo muito acusado ultimamente, nas produções que lança direto em vídeo. Ainda não é o Willis de Pulp Fiction, O Sexto Sentido ou sequer de Duro de Matar, mas o personagem é ambíguo o suficiente para exigir um pouco mais de esforço da parte do intérprete. Reparem no contraste de seu comportamento quando confrontado pela atitude do sogro em relação a caçadores ilegais após o velório da esposa.

Mas o legal mesmo é ver em cena atores como Dean Norris, Kimberly Elise e Vincent D´Onofrio dando mais intensidade e credibilidade ao projeto do que de fato a obra exigiria. Seus personagens em especial são o que nos puxa para a tela e mantém o interesse. Os dois primeiros, detetives da polícia investigando as mortes de criminosos proporcionados pelo vigilante, e o terceiro, o irmão do protagonista. Em contrapartida, Camila Morrone, que interpreta a filha de Willis, soa ainda muito verde, mesmo para este tipo de material.

Surpreende também a adaptação assinada por um profissional do calibre de Joe Carnahan (Narc e A Perseguição) e a direção do sanguinolento Eli Roth. O roteirista transporta bem a linguagem e dá novos contornos de tal desvio de comportamento em plena era Trump. O texto é esperto o suficiente e lida com muita sagacidade o equilíbrio entre a condenação fácil e o entendimento da defesa. Os dois argumentos podem ser encontrados e lidos. Apesar disso, certas facilidades em situações – como a risível cena da bola de boliche na cabeça – afastam um pouco o realismo almejado. Já Roth, está mais contido e preocupado do que de costume, atingindo a sobriedade necessária para não transformar o novo Desejo de Matar apenas num banho de sangue estilizado.

Diretor e roteirista, apesar de alguns deslizes, acertam o tom da coisa, tratando com bastante honestidade o material que possuem em mãos. De fato, o novo Desejo de Matar talvez seja tão eficiente quanto seu predecessor. O problema é justamente a perda de timing. Primeiro, porque muito já foi feito desde 1974, inclusive em produções mais intrigantes, que serviram melhor como herdeiros do longa original, vide Valente (2007), de Neil Jordan, com Jodie Foster. E segundo, pela perda do discurso, no qual esta urgência, ao menos por lá, não se faz mais tão imprescindível. Apesar da opção em revisitar o original e seu cenário ainda ter mais peso, o novo Desejo de Matar, mesmo que unicamente na forma de entretenimento, é um bom trabalho. Quem diria.





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