Filme de 1971 está ligado, em todos os sentidos, à movimento que finalmente abordou tais comunidades

Falar sobre as alas afro-americanas em Hollywood foi, por muito tempo, um jogo negativo. Haviam basicamente duas formas de representação de personagens do tipo até meados do século XX: coadjuvantes ou como uma figuração fugaz no canto da tela. Hattie McDaniel em …E o Vento Levou e Dooley Wilson em Casablanca são alguns exemplos mais proeminentes de coadjuvantes.

A própria Hattie é absolutamente essencial como precursora da representação afro-americana em Hollywood, tendo vencido o Oscar de melhor atriz coadjuvante, na edição de 1940, com o papel de Nanny no já mencionado clássico. Ainda assim, o modo como a diferença racial entre atores do início do século XX era tratada sempre seguiu a cartilha de como, aos olhos da sociedade à época, cada etnia deveria ser tratada.

Poucos filmes conseguiram simbolizar mais essa regra do que Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith, lançado em 1915. Apesar de laureado pelas inovações técnicas, a obra carrega o estigma de uma mensagem racista em seu enredo e por ter sido a inspiração para o surgimento do grupo Klu Klux Klan. 



O Oscar de Hattie em 1940 ainda é muito lembrada

No artigo Cinethetic Racism: White Redemption and Black Steriotypes in “Magical Negro” Films, do sociólogo Matthew W. Hughey, é apontado que muitas obras do início do século eram bem cientes da mensagem negativa que eles transmitiam.

“Em 1944, Dr. Lawrence Reddick, o curador da Coleção Schomburg de Literatura Negra da Biblioteca Pública de Nova York pesquisou 100 filmes do início do cinema mudo até os da década de 40, constatando que 75% deles era ‘anti-negro’. Durante o final dos anos 40, o cinema ‘racialmente consciente’ começou a tocar no tema de racismo”.

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A partir da segunda metade do século a necessidade por representações mais positivas de personagens negros se tornou mais evidente, alinhando também ao cada vez maior movimento conhecido como Nova Hollywood. Esse foi um processo que teve início no final dos anos 60 e por todo os anos 70, quando uma nova leva de cineastas ganhou mais oportunidade.

A geração de cineastas dos anos 70

Sendo muitos deles originários de núcleos culturais diversos, se tornou inevitável que novas bagagens culturais fossem transferidas para novos filmes, muitas delas inéditas para o estilo de produção hollywoodiano. Outro elemento que veio em conjunto foi uma percepção de sociedade mais ativa, não apenas se tratando da dinâmica entre etnias mas também sobre o aumento da violência nas grandes cidades.



Esse foi um elemento essencial para compor a nova estética da indústria, agora se esforçando ao máximo para trazer filmes com visuais mais frios; abandonados; sujos e sem a vivacidade colorida das décadas anteriores. A maior disposição de utilizar cenas violentas como ferramenta narrativa, para tratar personagens ou temas, se tornou comum.

Dentre essa leva, nomes como Melvin Van Peebles, Gordon Parks e Fred Williamson puxaram seu próprio movimento conhecido como Blaxploitation. Alinhado com estética da Nova Hollywood, essa corrente priorizou o casting de atores negros; filmes ambientados em tradicionais bairros afro-americanos; enredos que denunciavam os abusos sofridos por essas comunidades principalmente por forças da lei.

Melvin Van Peebles foi um dos líderes da Blaxploitation

Foi em meio a empolgação da Blaxploitation que, em 1971, Gordon Parks lançou Shaft. Ambientado em Nova York,  o filme segue o detetive John Shaft que é contratado por um chefe do crime organizado para encontrar sua filha sequestrada. Com a ação se passando majoritariamente no bairro do Harlem, Parks abraça em seu projeto a plena consciência social que os moradores daquela localidade atravessam.

Dessa forma, ele eleva o herói Shaft à um posto de representante da comunidade; uma voz que, por meio da ficção, pode expor a precariedade diária do Harlem, mais especificamente por ser a principal locação. O filme também alcançou marcos importantes, dentre eles a primeira vitória de um compositor afro-americano, Isaac Hayes, no Oscar para a categoria de melhor música.

Economicamente seu rendimento auxiliou os estúdios da MGM a fugir da falência; culturalmente a obra solidificou a blaxploitation como uma corrente familiar ao grande público e consagrou maneirismos que, mais para frente, seriam usados em outras obras similares.

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