Crítica | Clímax – Gaspar Noé constrói um Visceral e Aterrorizante Pesadelo

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As paredes comprimem e escondem os horrores dos seres humanos dos olhos alheios, no entanto, Gaspar Noé faz um movimento inverso e coloca o espectador aprisionado no mesmo ambiente do outro e não o deixa sair apesar dos gritos e das sensações angustiantes. O pensamento dominante em Clímax é o de acordar daquele pesadelo e livrar-se do incessante piscar de luzes vermelhas, deformando o ambiente e intensificando o terror.

Com apenas seis longas-metragens no currículo, Gaspar Noé criou a sua assinatura, marcada por Irreversível (2002), Viagem Alucinante (2009) e Love (2015). Suas obras costumam tirar o público do cinema, por vezes literalmente, mas principalmente por levá-lo a ter experiências além da sua própria existência e degustar sensações através da atmosfera apresentada na tela e causar uma perturbação retumbante na mente.

Os primeiros minutos de Clímax é um sinalizador das vivências de cada um dos personagens por meio de depoimentos aos modos dos documentários, em que os participantes de um projeto contam as suas expectativas e trajetórias. A tela da televisão apresenta os dançarinos, tal como um Big Brother, enquanto ao entorno do aparelho estão filmes de um lado e livros de outros, todos como um aperitivo das influências do diretor e roteirista para esta obra, como Suspiria (1977) e Possessão (1981).

A dança é um espetáculo inebriante e de indiscutível admiração, ainda mais com as figuras ecléticas e exóticas pinceladas neste baile. As coreografias enchem e transbordam a tela de forma inquietante, como se o corpo fosse uma massa em constante transformação, mas comandada por mentes desassossegadas. Assim, Gaspar Noé ensaia a sua tragédia de possessão em três atos e um gran finale.

Entre os movimentos e passos, os dançarinos declaram seus desejos e vontades velados em diálogos entrecortados e observações, ressaltando preconceitos, taras, medos e sentimentos conflituosos. Todas essas ideias são jogadas entre goles de sangria e endossam quando o efeito da bebida batizada com alucinógeno começa a tomar conta e manipular todos os corpos presentes.

Grande parte do percurso do desespero é guiado pelos movimentos de Selva, interpretada por Sofia Boutella, pela casa e a sua dança de expurgação entre aquelas paredes, ao mesmo tempo em que todos lutam contra os seus próprios demônios. São longos minutos de desespero, chegando a causar uma ânsia por uma claridade entre as paredes escuras, mas a droga que entorpece a mente reflete para nós de forma caótica, violenta e chocante.

Embora o mal-estar seja perpetuado, Clímax é o filme mais comedido do diretor franco-argentino. A percepção da mensagem de Noé é fragmentada e sinestésica, sendo menos brutal visualmente e mais introspectiva, na qual cada um pode se apropriar da sua própria zona de perturbação. Os acontecimentos são naturalmente desgovernados e a única arma é uma droga sintética agindo livremente entre seres humanos.

O clímax titular não é o fim, porque ele não é encontrado como uma analogia às pessoas dependentes químicas em busca sempre de uma nova dose que as conectem às sensações jamais identificadas. Gaspar Noé é certeiro em provocar emoções e representá-las graficamente; e, por fim, ele faz a luz entrar à casa e revelar os restos de pessoas em frangalhos e entorpecidas. Como em obras anteriores, o fim da história está invertido, vale prestar atenção aos depoimentos iniciais.

Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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