Logo na abertura da mostra competitiva de longas-metragens sul-mato-grossense do Bonito CineSur 2026, foi exibido um filme que chamou bastante a atenção. Percorrendo os retalhos de fotos marcantes de um experiente fotojornalista e os recortes de uma vida rica em histórias, o documentário Higa Ke – Olho por Olho encontra, em um composto artístico de sensações, informações e movimentos, o elo para firmar uma corrente poética que tem como norte o objeto de um ofício.
Roberto Higa, ao longo de sua extensa carreira, iniciada muito cedo, há décadas, foi elemento importante para os registros de Campo Grande, em uma época onde a quebra de divisas e o desenvolvimento viriam a acelerar mudanças em toda uma região. Da beleza de uma bailarina, passando por manchetes chamativas de ocorrências policiais, até coberturas fotojornalistas que caminham a cada passo do desenvolvimento social e econômico desse lugar, o fotógrafo, atualmente diagnosticado com uma doença terminal, tem, dessa vez, o registro definitivo de sua própria história através de um olhar delicado e profundo conduzido por Conrado Roel e Debora Bah.
Um dos grandes desafios da equipe deste filme deve ter sido como apresentar uma narrativa sobre uma história tão rica em detalhes. E de maneira inteligente, muito eficiente e recheada de afeto, encontra-se uma bela ponte no experimental sensorial, consolidando um elo para firmar uma corrente poética que desbrava a linguagem e situa cada instante em possibilidades, sem perder as pontas de uma cronologia de fatos com o tempo seguindo seu curso.
Figura de uma simpatia contagiante, Higa ajuda a contar essa história ao lado de sua família. Com muitos detalhes que vão além dos registros que marcaram o jornalismo sul-matogrossense, que não camuflam, mas complementando a construção e identidade de uma história pessoal que também conversa com os avanços de cidades importantes do centro-oeste brasileiro, chegamos até os dramas pessoais. Nesse momento é que se revela a variável tempo, que nos leva até a sua perda de memória, mas algo que não apaga alguns registros precisos desse genial trabalhador da fotografia.
Esse é o alicerce mais importante de uma jornada que é muito mais do que uma biografia documental. Higa Ke – Olho por Olho é uma obra cirúrgica que explora o tempo como ressignificado de um legado e caminha de forma muito bonita sobre o que permanece vivo e desafia a todo instante o esquecimento. Belíssimo filme.


