Crítica | Três Verões – Jeitinho brasileiro na era da corrupção em filme divertido… mas triste!

Filme assistido durante o Festival de Toronto 2019

Todos os dias ela está lá, estampada diante dos nossos olhos. Entre capas de jornais, revistas semanais e os inesgotáveis e intermináveis telejornais da TV a cabo, a corrupção é a temática que – infelizmente – permanece sine qua non no Brasil. E, naturalmente, o assunto se transformou em livros, análises, artigos e produções artísticas que visam explorar o cerne dessa antiga prática brasileira. Mas o que acontece no cenário pós-guerra, ao findar das prisões e delações premiadas? Como ficam os espólios e todos aqueles que orbitam ao redor dos crimes, sempre alheios ao que acontecia? Sandra Kogut tenta responder a essas e tantas outras perguntas por meio da divertida comédia dramática Três Verões.

Aqui, o aftermath da corrupção é abordado em três contextos temporais distintos, todos ligados por dois eixos: o verão e uma família corrupta de classe alta. Após um de seus patrões ter sido preso, com sua esposa se exilando na Europa como se nada tivesse acontecido, a governanta Madá (Regina Casé) fica responsável por tentar administrar sua casa de veraneio. Entre trocas de decoração e festas luxuosas regadas a comida e bebida da mais alta qualidade, o belo lar com vista para o oceano perde o seu vigor, à medida que novos nomes ligados a um caso suspeito começam a surgir – principalmente quando o deu seu chefe emerge no jornal das 21h. Mas nesta trama, pouco importa quais os crimes cometidos. De maneira rara no cinema brasileiro, Kogut opta por deixar de lado a narrativa dos tubarões que se alimentam de tudo e de todos e direciona o seus e os nossos olhos para aquela extremidade pouco ou nada explorada: a da classe trabalhadora.

Que há um preço alto na corrupção, em termos sócio econômicos, isso é óbvio. Mas pouco se aborda no cinema o impacto existencial e emocional que tais crimes têm gerado na vida da população. Mesmo com tantos Postos de Saúde da Família sendo fechados por falta de mão de obra e insumos e hospitais abarrotados de macas com doentes nos corredores dos pronto socorros, a indústria cinematográfica brasileira muitas vezes carece de histórias que contem a vida desse seu Zé e daquela dona Maria, vítimas de um sistema que não se importa com eles. Mas com delicadeza, ironia e um ar esperançoso, Três Verões assim o faz, trazendo Madá para o olho do furacão como uma das poucas sobreviventes de um país que emana injustiça a plenos pulmões. E mesmo tendo sido vinculada às práticas ilegais de seu chefe – por sua própria inocência e senso de honestidade, ela é o relato cru daquele brasileiro que não desiste nunca e que faz de um limão quase o álbum Lemonade da Beyoncé. Se reinventando com o que tem, Madá é como o país inteiro e representa o jeitinho brasileiro da forma mais autêntica e realista possível.

Instintiva e otimista, a protagonista é a face ideal para contar essa história. E pelos traços cativantes e excelente atuação de Regina Casé, ela é uma mostra genuína de que é possível encontrar calmaria em meio à tormenta, quando se olha para a tragédia como uma oportunidade de algo novo. Quase como uma fênix, a personagem transforma uma linda casa de verão deixada a Deus dará em um brechó de roupas de alta costura, venda de garagem, churrascos da classe C e até mesmo um estúdio para comerciais. Com bom humor e dinamismo, ela encara a peleja com graciosidade, põe a casa para alugar no Airbnb e encontra amor em tempos de cólera, no vô da família que sempre cuidou com tanto carinho. E ali mesmo, em meio a tantos perrengues bem conhecidos por aqueles brasileiros que mais sofrem com o nosso sistema, ela também se entrega às lágrimas. Contempla suas perdas pela primeira vez de maneira inadvertida e leva a audiência ao mesmo, em um sublime monólogo que – de maneira singela e única – relata toda a sua vida em um piscar de olhos, respondendo as perguntas que nutríamos quanto ao mistério da sua vida pessoal, que ficara de fora durante quase todo o longa.

Fazendo um equilíbrio saudável entre o drama e o humor, a produção nacional possui uma direção simples, com um roteiro bem trabalhado e não é do tipo que se pode definir com apenas um gênero. Tão agridoce como a própria vida do brasileiro médio, ela é cercada pelas alegrias e mazelas de uma existência que transita entre boas memórias e sofrimentos dilacerados. Como uma história que é fruto de tantas outras histórias que a corrupção construiu em nosso país, Três verões é o reflexo prático do que o crime do colarinho branco pode fazer, essencialmente, na trajetória de seu povo. Divertido, mas também triste, o longa de Sandra Kogut é mais uma prazerosa surpresa que o nosso cinema tem para oferecer ao restante do mundo, ainda que o governo brasileiro insista em calá-lo.

 

Notícias

Confira o teaser inédito de ‘Estilhaços’, nova série de SUSPENSE de Ryan Murphy

Foi divulgado um teaser inédito de 'Estilhaços' (The Shards),...

Prime Video escala DOIS novos atores ao elenco da adaptação ‘Sex Criminals’

Segundo o Deadline, o Prime Video escalou dois novos atores ao elenco de...

‘Pluribus’: Assista aos HILÁRIOS erros de gravação da 1ª temporada!

'Pluribus', a nova série do aclamado realizador Vince Gilligan ('Breaking...

Charli XCX lança “Camera”, novo single de seu próximo álbum de estúdio

A cantora, compositora e produtora Charli XCX lançou o quarto...