Crítica | ‘After School’ é o álbum mais coeso e irreverente de Melanie Martinez

Melanie Martinez é uma das figuras mais controversas da indústria musical contemporânea por justamente não se encaixar em nenhum rótulo. Ascendendo à fama depois de participar do programa ‘The Voice’ e depois de lançar o incrível Cry Baby, Martinez ganhou reconhecimento por sua estética propositalmente infantilizada e por seu cabelo bicolor, contrastando com o teor crítico e bastante pesado de suas canções. Falando sobre temas como bulimia, aceitação, vingança e impiedosas análises acerca da mulher inserida numa sociedade tradicionalista, retrógrada e patriarcal, seu estilo foge dos convencionalismos do pop ao uni-lo com inflexões bastante interessantes e sinestésicas.

Pouco mais de um ano de ter feito sua estreia diretorial com o álbum visual K-12, Martinez anunciou que retornaria com um EP intitulado After School – uma possível continuação da produção supracitada, mas que seria ambientada dentro de seu próprio universo. A obra, lançada nas primeiras horas do dia 25 de setembro, mostrou-se como um grande e surpreendente amadurecimento para sua carreira, ainda mais considerando que fazia pouco tempo desde seu último compilado de originais. Ao longo de sete faixas, a cantora e compositora dá vida a músicas extremamente coesas entre si e que são entrelaçadas em um fio condutor que passeia pelas batidas do trip-hop e termina na exuberância contraditória do art pop, entregando tudo que seus fãs e os apreciadores da não ortodoxia fonográfica queriam.

É interessante analisar de que forma Melanie dá vida ao álbum – e como ela mantém-se fiel ao seu estilo único. De modo sagaz e estonteante, a performer rasga os invólucros que vinham-na acompanhando nos últimos anos e emerge através de uma fluida sensualidade que mascara, pelo instrumental comedido e minimalista, suas verdadeiras intenções. “Notebook”, a faixa de abertura, rende-se à proposital demarcação excessiva das notas em uma cíclica narrativa que discorre sobre um relacionamento sem comprometimento e sem amor; essa repetição, servindo como complemento para a história a que nos apresenta, passa longe de ser algo simplório ou mal pensado, visto que permite que a artista tome as rédeas de sua própria música ao prolongar ou encurtas os versos e fazer questão de dar ênfase nos momentos certeiros.

Tal pungência, recorrente no já mencionado K-12, adquire uma roupagem diferente aqui: Martinez brinca com a leviandade da guitarra e com a surdez da bateria em “Test Me”, enquanto fala sobre os obstáculos que enfrentou na vida e que, no final das contas, percebe que é apenas humana e que sua vivência é muito mais plausível e preparatório do que os outros querem que você acredite. Mais uma vez, nota-se a recorrência de versos e da arquitetura sonora, que não vai para muito além de duas progressões diferentes antes de recomeçar seu ciclo. Entretanto, em “Brain & Heart”, percebemos uma dissonância interessante que busca referências do dream pop e do industrial pop para emergir – sem divagar para muito longe da premissa principal da obra.

Talvez a track mais oscilante seja “Numbers”, a qual, à medida que entrega um desabafo íntimo sobre como a esfera do entretenimento trata seus artistas (como números e como peças descartáveis), mostra-se fragmentada demais quando comparada às que a antecedem – e até mesmo às que vêm depois. De um lado, a sutileza ressonante dos drills e, mais uma vez, da surdez percussional; de outro, o frenesi estilístico de um longo refrão que se perde em meio a tantas mensagens – é notável como as duas partes funcionam muito bem separadas, mas entram em um choque transbordante quando colocadas lado a lado (nutrindo dos mesmos deslizes que os álbuns anteriores). Felizmente, a iteração antecipa a melhor parte dessa nova jornada, que é formada pelas três faixas finais.

Entre uma profunda lírica e divertidas performances, o prospecto que sempre nos deixa animados para ouvir as músicas de Melanie Martinez é sua total e apaixonante irreverência. Gostando ou não de sua chocante veia artística, seu respaldo e sua carga cultural se assemelham a nada que conhecemos e que consumimos – o que a afasta de tantos outros conterrâneos. Em After School, ela deixa isso mais claro do que nunca: “Glued” abre espaço para explorações vocais que saem do mezzosoprano e atingem a teatralidade do soubrette, guiados por metáforas jocosas e inesperadas; em “Field Trip”, a cantora adota um tom confessional, mas longe das baladas a que esse tipo de trama está atado – optando por um dinâmico e extenuante discurso que fala sobre sua independência e sobre como ela se vê num meio-termo entre o mundano e o místico; e, terminando com chave de ouro, ela se rende ao acústico pop-noir de “The Bakery”, uma das melhores canções de sua carreira.

Funcionando como uma melhora considerável desde sua última incursão musical, Melanie e seu novo EP podem até fugir do escapismo dançante que vem tomando conta de 2020 – mas não importa: pois é isso que nos faz justamente querer ouvi-lo várias e várias vezes.

Nota por faixa:

  • Notebook – 4/5
  • Test Me – 4,5/5
  • Brain & Heart – 4,5/5
  • Numbers – 2/5
  • Glued – 4,5/5
  • Field Trip – 4,5/5
  • The Bakery – 5/5

Notícias

Confira o teaser inédito de ‘Estilhaços’, nova série de SUSPENSE de Ryan Murphy

Foi divulgado um teaser inédito de 'Estilhaços' (The Shards),...

Prime Video escala DOIS novos atores ao elenco da adaptação ‘Sex Criminals’

Segundo o Deadline, o Prime Video escalou dois novos atores ao elenco de...

‘Pluribus’: Assista aos HILÁRIOS erros de gravação da 1ª temporada!

'Pluribus', a nova série do aclamado realizador Vince Gilligan ('Breaking...
Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.