Crítica | Theater Camp: Comédia estrelada e roteirizada por Ben Platt é uma hilária homenagem às raízes do teatro

Filme assistido durante o Festival de Sundance 2023

Em uma idílica área ao norte de Nova York, um universo particular bem peculiar ganha vida. AdironACTS é o anual acampamento de teatro onde crianças e pré-adolescentes afloram seus dons artísticos, em uma temporada de verão regada por música, coreografias, figurinos performáticos e apresentações teatrais. Nesse submundo distante da civilização geral, uma turma de professores atípicos se vê diante da árdua tarefa de garantir que esse reduto de liberdade criativa não venha a ruir sob a gestão do caricato filho da dona, que herda o espaço após sua mãe entrar em coma. E entre crises financeiras e pressões artísticas que deixam os ânimos à flor da pele, Theater Camp é aquela comédia dramática com o DNA do Festival de Sundance, que consegue encontrar um lugar no nosso coração com seu humor quase pastelão.

Flertando com o cinema indie e com a comédia screwball, o longa que marca a estreia de Molly Gordon e Nick Lieberman na direção se diverte dentro do formato mockumentary, entregando um pseudo documentário regado por muita ironia e sarcasmo. E como se esse próprio filme documental narrado dentro da trama fosse de baixo orçamento, os diretores brincam em sua execução técnica com um estilo amador, entregando uma experiência metalinguística que – ainda que não se esforce nem um pouco para se levar a sério -, é dona de uma delicadeza que impressiona e nos faz apaixonar. A dupla ainda co-assina o roteiro ao lado de Noah Galvin e Ben Platt, tornando Theater Camp uma catarse pessoal para todos – que relembram os seus tempos de teatro à medida em que homenageiam aqueles mágicos instrutores que ajudaram a formar os seus respectivos talentos.

Com piadas que são uma referência direta ao universo da Broadway e até mesmo dos cinemas, a dramédia pode não agradar a todos por ser segmentada demais, a ponto de suas sacadas não serem absorvidas pela audiência de forma geral. Mas mesmo que o humor de Theater Camp talvez seja mais dedicado a um tipo muito específico de público, é inegável que ele possui um charme todo seu. Trazendo protagonistas que são estereótipos propositais da cena artística e do submundo de acampamentos de teatro – uma tradição americana que não existe no Brasil -, o longa consegue romper suas próprias barreiras, com um humor que também se dilui nas relações entre os protagonistas. Então, ainda que você não seja da panelinha do teatro, Gordon e Lieberman não te excluem da experiência, ao narrar situações comuns do dia-a-dia por uma ótica leve, despretensiosa e profundamente engraçada – identificável com qualquer um.

E com Platt e Gordon contracenando lado a lado, a dramédia musical é capaz de nos conquistar de forma ainda maior. Com uma dinâmica exemplar em tela, os atores – que também são melhores amigos na vida real -, nos convidam para dentro de seu pequeno mundo, traduzindo a longeva amizade para seus personagens, os tornando complementares um ao outro. Intercalando entre protagonismo e alívio cômico, os dois se entregam ao roteiro com carisma e afinidade. Mas a verdade é que Jimmy Tatro é quem realmente rouba a cena, como um influencer que nada mais é do que uma sátira exagerada de tantas pseudo celebridades que infelizmente as redes sociais ajudaram a revelar. Encarando um personagem raso que cava sua própria profundidade psicoemocional ao longo da trama, ele é o genuíno sidekick de Theater Camp – que surpreende a própria audiência com seu desenvolvimento.

E com figuras peculiares, muitas referências à indústria do entretenimento e uma sensibilidade inesperada que emerge em meio ao caos das inúmeras caricaturas apresentadas em tela, a comédia dramática tem potencial para se tornar um sucesso inegável entre muitos millennials e Gen Z. Com frases de efeito que se inspiram no mesmo impacto cultural que as mais icônicas falas de Meninas Malvadas conquistaram ao longo dos anos, Theater Camp é um feel good movie que nos serve em tudo aquilo que precisamos e homenageia aqueles que fazem das escolas de teatro juvenil um espaço seguro para dons e habilidades aflorarem sem barreiras. Despretensioso, definitivamente engraçado e autêntico, a produção recém adquirida pela Disney (por meio do selo Searchlight Pictures) é uma criativa mistura entre o indie e o POP, que resulta em uma hilária comédia que te abraça com tanto carinho, que é impossível não se entregar ao seu contagiante charme musical.

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