Crítica | ‘Salve Geral: Irmandade’ é um ótimo suspense de ação que explora uma sociedade autodestrutiva

Em 2019, Pedro Morelli assinou contrato com a Netflix para a produção de uma série de drama criminal que ficou conhecida como ‘Irmandade’. Estendendo-se por breves duas temporadas e finalizada em 2022, o projeto caiu no gosto dos assinantes e dos fãs do gênero, eternizando personagens vividos por Naruna Costa e Seu Jorge em uma trama que explorou as engrenagens da sociedade brasileira ao nos levar de volta aos anos 1990 e nos apresentar a duas facetas de uma mesma moeda – denunciando a crise sistemática do Estado de maneira incisiva e contundente. Agora, esse universo é expandido com a chegada do longa-metragem ‘Salve Geral: Irmandade’ à plataforma de streaming.

Morelli retorna ao comando do filme e mostra que ainda tem muito a nos contar: utilizando novamente a capital paulista, dessa vez como palco de uma guerra civil, o cineasta se apoia em homenagens a clássicos nacionais como ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite’, apostando fichas em um sanguinário e explosivo massacre que tem início com um potente e dilacerante plano-sequência ambientado em um prédio da polícia, apresentando-nos aos personagens principais da trama antes de nos arremessar a uma cidade mergulhada no caos e no desespero. Arquitetado com uma exímia habilidade cinematográfica que não deve nada aos títulos hollywoodianos do gênero, Morelli dá o tom da narrativa antes de nos explicar o que culminou num embate bélico entre duas forças destrutivas.

Dois dias antes, somos reintroduzidos a Costa como Cristina que, como sabemos, é centro de um dilema moral ao descobrir na série original que o irmão, Edson (Seu Jorge), era líder de uma facção criminosa conhecida como Irmandade. Aqui, mantendo laços com o grupo através do impetuoso e vingativo líder Ivan (Lee Taylor), ela tenta ao máximo utilizar seus contatos para garantir que os membros da Irmandade sejam protegidos. Porém, as coisas mudam quando a jovem Elisa (Camilla Damião), filha de Edson, é sequestrada por policiais corruptos que exigem uma quantia absurda em troca da libertação da menina. É claro que as coisas não saem como o planejado e, dando um “salve geral” a todos da facção, ele resolve enfrentar os algozes ao mergulhar São Paulo em uma anarquia completa.

Morelli encontra sucesso não apenas em expandir o cosmos a que deu vida alguns anos atrás, mas encontra território vasto para explorar o drama, o suspense e a ação de forma inebriante e arrepiante, nos deixando vidrados nas telas por pouco mais de uma hora e meia. Seja nos irretocáveis planos-sequência, seja com uma fotografia restritiva e isolatória, o realizador se vê diante de uma obra de arte técnica que, por mais que escorregue aqui e ali no roteiro, tem todos os elementos de um bom filme do gênero – recusando-se a copiar as fórmulas de títulos internacionais e encontrando uma identidade própria que pincela cada um dos arcos e cada uma das cenas.

Ao fincar a ambientação em eventos históricos, incluindo uma menção aos ataques do PCC à capital paulista em 2006, Morelli, ao lado da corroteirista Julia Furrer, constrói um torpor social e antropológico que critica a hierarquia de poder e a decadência de uma das maiores metrópoles do planeta em meio a conflitos constantes e intermináveis. Não é surpresa, pois, que haja uma espécie de anacronismo à trama, forjando um encontro entre passado e presente em um ciclo autodestrutivo marcado pela vingança, pelo confronto e pela subsequente letargia niilista que culmina em um infindável abismo.

Algumas investidas são falhas, de fato: enquanto o trabalho imagético e sensorial é exímio em cada uma de suas partes, certos diálogos superexpositivos e redundantes aparecem aqui e ali para manchar a complexidade da trama que nos é apresentada – e, em dados momentos, nem mesmo o poderoso elenco consegue ofuscar os deslizes. De qualquer maneira, é notável como Morelli trabalha melhor quando o silêncio dialógico se torna protagonista, deixando espaço para que a composição sonora, marcada por uma tétrica trilha e pelo ensurdecedor som das viaturas e dos tiros, assombre os protagonistas e coadjuvantes. Aqui, faço menção à espetacular sequência ambientada na Estação da Luz, em que o diretor mostra a capacidade total de sua visão artística.

Contando com a espetacular presença de Costa e Damião como forças-motrizes desse enervante suspense, a ideia por trás do spin-off não é nos deixar confortáveis ou entregar um falso “final feliz”; pelo contrário, ao ser açoitada por incertezas e por uma constante situação de pânico – que se reafirma com a presença de Marcélia Cartaxo como a inocente Dona Ângela -, a trama é um espelho da problemática falência dos sistemas político-sociais e da instabilidade do Estado como órgão de segurança e de justiça, caminhando para uma chocante e inesperada conclusão que nos deixa atônitos.

‘Salve Geral: Irmandade’ é um ótimo thriller de ação político que, como já mencionado alguns parágrafos acima, não deve nada às produções de Hollywood, chegando até mesmo a ultrapassar a qualidade delas ao esquadrinhar uma inescapável e dolorosa atmosfera de medo sem abandonar a essência da série original.

Lembrando que o filme já está disponível na Netflix.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.