Crítica | DAO: Diretor franco-senegalês transforma festa de casamento em reflexão sobre raízes culturais dos imigrantes (Berlinale 2026)

Filme da mostra Competitiva do Festival de Berlim 2026

Na mostra competitiva do 76° Festival de Berlim, DAO, do diretor franco-senegalês Alain Gomis, propõe uma imersão ambiciosa — e exaustiva — na experiência da migração africana para a França. Com quase três horas de duração, o filme reflete sobre pertencimento, tradição e as fissuras deixadas pelo passado colonial francês, especialmente entre aqueles que nasceram na França, mas carregam a herança cultural de seus ancestrais.

Alain Gomis inicia a narrativa apresentando a definição do título DAO: “é um movimento perpétuo e circular que flui em tudo e une o mundo”. A frase funciona como chave de leitura: o ciclo da migração, o ciclo das tradições, o ciclo das relações familiares que se rompem e se reencontram. Um movimento que nunca é exatamente o mesmo, mas que se repete — como a própria diáspora.

Em um gesto metalinguístico, o filme assume tom quase confessional ao começar encenando um processo de direção de elenco. É nesse movimento que conhecemos Glória (Katy Corrêa), uma mulher de 50 anos, mãe solo, cuja filha (D’Johé Kouadio), de 22, decide se casar. As duas passam a condensar milhares de histórias de famílias oriundas de países colonizados pela França — especialmente Guiné-Bissau — que vivem hoje em território francês. Gomis, entretanto, evita transformar seus personagens em símbolo coletivo. Eles representam uma comunidade, mas permanecem indivíduos, cada qual com sua própria trajetória e cicatrizes.

A decisão da filha mobiliza não apenas um evento familiar, mas um retorno às origens. A viagem à Guiné-Bissau para realizar a cerimônia — custosa, extensa, repleta de rituais — torna-se gesto de honra ao avô falecido e de reafirmação cultural. Casamento e luto coexistem; celebração e memória caminham juntas. O passado, que parecia resolvido, ressurge nas conversas entre mãe e filha e, sobretudo, nos encontros com o pai ausente que retorna à cena, vivido pelo ator franco-algeriano Samir Guesmi. É nesses diálogos — delicados, às vezes duros — que o filme encontra sua força mais humana.

Há cenas emblemáticas que sintetizam essa ideia de circularidade cultural. Durante a festa, todos cantam juntos “Killing Me Softly with His Song”, imortalizada por Roberta Flack e regravada pelos Fugees. A canção ecoa como elo entre continentes, reafirmando que identidade também é trânsito e reinvenção.

A câmera acompanha exaustivamente cada etapa dos rituais: danças, cantos, cerimônias, preparo dos alimentos e sacrifícios de animais. Estes últimos são momentos visualmente incômodos, mas coerentes com a proposta de retratar a cultura sem filtragens ou concessões ao olhar ocidental. O filme não julga nem suaviza — apenas mostra. Talvez falte uma problematização mais incisiva para tensionar essas tradições, porque nem toda herança cultural é intocável.

Ainda assim, é significativo que Gomis ocupe esse espaço narrativo a partir de dentro da comunidade africana na França, retratando-a não como bloco homogêneo, mas como um conjunto de indivíduos complexos. O filme oscila entre momentos de grande força — como a despedida entre mãe e filha — e trechos dispersos que diluem seu impacto. Se DAO é o movimento circular que estrutura o mundo, o longa deixa uma pergunta central: o que escolhemos repetir e o que estamos prontos para transformar? A trajetória de Glória e sua filha aponta para uma das respostas possíveis.

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Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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