Crítica 2 | Último episódio de ‘The Boys’ se salva e deve envelhecer bem

CríticasCrítica 2 | Último episódio de 'The Boys' se salva e deve envelhecer bem

The Boys chegou ao fim. Depois de sete anos, a saga dos heróis mais canalhas da história chegou ao seu derradeiro capítulo final, com o Capitão Pátria conseguindo tudo aquilo que sempre sonhou, mesmo que por apenas alguns momentos, e com Billy Bruto conseguindo sua vingança. Depois de uma quinta temporada tão ruim, o episódio final acabou se destacando por ser “ok”. Seu grande mérito inicial talvez tenha sido conseguir fechar arcos sem estragar o legado do resto da série, como fizeram Game Of Thrones e, de alguma forma, Stranger Things. The Boys segue com a imagem das três primeiras temporadas praticamente imaculada, o que é excelente. Mas, com o passar dos dias, o capítulo final vem repercutindo, provando que ele talvez tenha sido mais do que apenas “ok”.

Logo de cara, é válido destacar que o trauma de Game Of Thrones era real. O final foi tão ruim, mas tão ruim, que uma das séries mais faladas da história virou quase que motivo de vergonha para alguns fãs, que só voltaram a sorrir de novo quando os derivados engataram com aquela qualidade inicial. E The Boys vinha num processo de desgaste muito grande. A quarta temporada foi de irregular para ruim, e os episódios vinham se alongando sem desenvolver a trama, dando aquela sensação de serem fillers. E dado o histórico do criador da série, Eric Kripke, de não saber “a hora de parar” em suas séries, muita coisa indicava que o final poderia ser uma bomba daquelas.

BB

De fato, a quinta temporada foi tão decepcionante quanto a quarta, quiçá pior. Mas na hora de encerrar o arco, aos 45 do segundo tempo, parece ter havido uma preocupação em fazer o final dar certo. Infelizmente, os seis capítulos do mais puro nada que antecederam os dois últimos criaram um certo cansaço, até uma má vontade, para a conclusão, e isso pode ter impactado na experiência de muitos. Vamos lá, a série está falando desde a segunda temporada que o mundo deveria temer o Capitão Pátria. Que a partir do momento em que ele perder a cabeça, ninguém vai pará-lo. E criou-se essa expectativa de ver esse cara completamente totó das ideias chacinando a Terra e fazendo as maiores barbaridades possíveis. E isso aconteceu, de fato, nesta última temporada. O problema é que a forma como suas ações foram mencionadas não acompanharam o padrão das primeiras temporadas, que foram as que realmente conquistaram o público.

Veja bem, no início da série, quando o assunto eram as maldades do Pátria, o público efetivamente via o cara fazendo essas coisas. Foi mostrado ele levando a Becca para o quarto antes do estupro, foi mostrado ele ameaçando pessoas desesperadas em um avião em queda livre, foi mostrado ele derrubando um avião com uma criança dentro usando seu laser, todos viram ele incentivando uma adolescente suicida a pular de um prédio, após ela se arrepender de tirar a própria vida… Quem estava assistindo temia o personagem porque eram mostradas as consequências de seus atos, e elas repercutiam na trama. A partir da quarta temporada, essas ações deixaram de ser mostradas e passaram a ser apenas mencionadas. Foi dito que o Capitão teria reunido um exército de Supers para caçar “infiéis” por aí. Nenhuma caçada foi mostrada. Foram montados campos de concentração de Luz-estrelistas. Eles até aparecem, mas os rapazes escapam de lá em um episódio… São muitas ações que poderiam ser realmente trabalhadas, mas que, sabe-se lá o motivo, foram reduzidas a comentários ou cenas rápidas que pouco impactaram na trama. Enquanto isso, deram espaço a momentos como o da Mulher-Gato influencer cheirando o rabo do Wolverine divorciado em meio a um potencial momento de tensão. Foram algumas decisões realmente inexplicáveis, porque destoaram tanto do próprio clima da série, e demonstraram uma total falta de urgência da trama que se direcionava para a conclusão definitiva do show. Essas coisas fizeram alguns desistirem antes mesmo do fim.

Mothers-Milk-kills-Oh-Father-in-The-Boys-finaleDito isso, os últimos três episódios conseguiram acertar um pouco mais na urgência – o penúltimo nem tanto – e construíram um final digno, ainda que merecedor de muitas críticas. A morte do Francês não ter sido mostrada, por exemplo, foi de uma covardia inenarrável, além de ter sido muito mal filmada. O público só foi entender como ele morreu por meio de uma imagem de bastidores que o Antony Starr postou nas redes sociais. Mas essa sequência de acontecimentos para que o Capitão tomasse o V1 e se vendesse como o novo messias foi bastante intensa.

Talvez o melhor momento 100% The Boys dessa reta final tenha sido a sequência que envolveu o Capitão Pátria e A Lenda (Paul Reiser), a paródia do Stan Lee. O momento de “sabedoria” do antigo VP da Vought sobre ciclos e sua relação com o poder foi o mais próximo que o Pátria teve de um conselho paterno em toda a série. Sua relação de incredulidade e a decisão de poupar a vida do velho safado foi tensa e surpreendente, digna dos momentos de ouro da série. Mas o grande momento foi mesmo a batalha entre Billy Bruto e o Capitão Pátria na Casa Branca. A vingança de Bruto foi concluída em frente às câmeras, em uma transmissão para rede nacional, terminando com uma referência aos quadrinhos, com a icônica destruição cerebral do antagonista com o pé de cabra.

bb2O momento ficou marcado pela perda de poderes do Capitão Pátria, revelando ao mundo sua verdadeira natureza: um bebê chorão tomado pelo medo. Ao longo da série, apesar de momentos de aparente conhecimento estratégico, o personagem sempre foi isso. Uma grande metáfora aos superpoderosos do mundo real, que se escondem atrás de seus cargos ou influência para fazerem o que bem entenderem, sem enfrentarem consequências. E se tem algo que a história humana provou é que esses caras, quando perdem seus cargos ou influência, são os mais covardes possíveis, vide Adolf Hitler, que se matou quando viu que seria capturado, evitando sofrer as consequências. Entendo quem queria que ele perdesse os poderes e fosse condenado a viver como uma pessoa normal – seu maior pesadelo-, mas nesse mundo de The Boys, com o Composto V rodando a torto e a direito por aí, seria apenas questão de tempo até ele conseguir seus poderes novamente. Colocar esse lunático para perder tudo antes de morrer foi uma escolha muito interessante. Ele perdeu seus poderes, viveu um verdadeiro pesadelo em seus últimos momentos e destruiu completamente sua imagem diante de todo o mundo, que era a única coisa que ele conseguia manter independentemente de suas ações. Ele se foi como um verdadeiro nada, e com todos assistindo sua queda. E então, talvez no gesto mais poético e cruel da saga, o público descobre que Stan Edgar voltou ao controle da Vought, mostrando que o verdadeiro vilão disso tudo venceu e continua tão forte quanto antes. Os rapazes derrubaram uma peça importante da corporação, mas será apenas questão de tempo para que eles criem um novo Capitão Pátria. Foi uma cena de poucos segundos, mas muito poderosa, justamente pelo realismo assustador desse gesto.

Por outro lado, o fim de Billy Bruto foi um tanto decepcionante, ainda mais quando se lembra da quantidade de episódios desperdiçados com o mais puro nada nesta temporada. Nos quadrinhos, ele enlouquece e começa a matar os rapazes. Na série, eles tentam dar essa virada à insanidade de uma hora para outra. Ela já vem sendo mencionada há algumas temporadas, mas a forma como foi mostrada na série foi muito rápida. De qualquer forma, não comprometeu, só poderia ter sido melhor trabalhada.

CCNo fim das contas, o final foi muito certeiro no que diz respeito a conclusão de arcos. Profundo, Bruto e Pátria morreram, Kimiko foi ter uma vida e o Leitinho conseguiu sua vida de volta. Sério, ninguém teve um final tão bonito quanto ele. Desde que foi introduzido, o rapaz encara sua existência como passageira. Ele deixou a família de lado pela segurança dela e tentou se sacrificar em praticamente todas as temporadas. Ele terminar recuperando sua família, entendendo que sua vida não acaba ali, e acolhendo o Ryan, assim como ele fez com todos que passaram por seu caminho, foi um desfecho sensacional. Já Hughie fechou o ciclo com perfeição. Ele começou a série frustrado, trabalhando em uma loja de eletrônicos, momentos antes de perder a namorada. Agora, ele é dono da própria loja, recusa cargos do governo e vai formar sua família com Annie. Uma prova de que vale a pena se manter fiel aos seus valores, mesmo quando tudo vai pelos ares.

Confesso que quando terminei de ver o episódio final pela primeira vez, achei um grande “ok”, mas ele tem crescido na memória conforme passa o tempo. Essa conclusão de ciclos ter sido tão amarradinha foi um trabalho muito competente, e que poderia ter dado ridiculamente errado. Honrar esses personagens com fidelidade a suas personalidades estabelecidas e trabalhadas ao longo da série foi um grande acerto. Por mais que todo o resto da temporada tenha jogado contra, o último capítulo conseguiu se salvar ao criar algo difícil de conseguir: despertar a vontade de rever a série inteira. Acho que a grande prova desse mérito do episódio final é realmente te fazer querer ver as jornadas desses personagens novamente, o que é uma grande vitória por si só.

H
The Boys está disponível no Amazon Prime Video.

Pedro Sobreiro
Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.

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