Quando alguma coisa inacreditável acontece na vida real, a primeira coisa que os profissionais que trabalham com roteiro ou os escritores pensam é “se eu colocasse isso num filme ou num livro, ninguém ia acreditar”. Porque no final das contas, por mais criativos que uma pessoa possa ser, nada supera a realidade – tanto em seus momentos bons, quanto nos ruins. E, especificamente sobre os ruins, o ser humano tem se superado, e muito, nas últimas décadas, restando aos criativos apenas pegar esses elementos cruéis da realidade que vivemos e colocá-los na ficção, na intenção de trazer a reflexão para o espectador/leitor. Assim pode ser entendido o filme espanhol ‘A Desconhecida’, lançamento recente atualmente no Top 10 da Netflix.

Anna Ripoll (Candela Peña, de ‘Tudo Sobre Minha Mãe’) é uma detetive na região da Catalunha/Bálcãs na Espanha, que está afastada há três meses por conta de um trauma pessoal. Mas agora ela acaba de ser convocada de volta para cuidar de um caso misterioso: uma mulher de identidade desconhecida (Ana Rujas, de ‘8 Décadas de Amor’, atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros) que fora encontrada dentro de um container com sinais de tortura. Como essa desconhecida não lembra nada sobre si nem sobre como fora parar nessa situação, a detetive Ripoll precisa puxar o fio desse rolo embolado para entender o que aconteceu com a misteriosa mulher, porém, quando a vida de ambas passa a ser ameaçada, Ripoll entende que o que quer que esteja por trás de tudo, é muito maior do que parece.
Partindo do artifício da ficção, ‘A Desconhecida’ busca retratar no filme alguns dramas bastante comuns (e bastante reais) na rotina dos países europeus: o tráfico humano, a imigração ilegal e, consequentemente, a entrada desenfreada de pessoas de diversos países sem que haja nenhum controle oficial desse trânsito. Para falar disso – e das condições em que essas pessoas são submetidas não só no trajeto, mas também uma vez que chegam à Espanha – o filme faz uso de toda uma rede de conspiração um tanto quanto complexa de se entender para transformar a protagonista desconhecida em algo maior, de modo a justificar a situação em que ela se encontra. Mas, no fim, o espectador consegue entender que o filme aborda temas muito mais profundos do que parece.
Baseado no livro de Rosa Montero e Olivier Truc, o roteiro de Lara Sendim consegue transpor bem o clima de suspense entre os eventos da sequência de abertura e os fatores que vão ser dispostos a partir da entrada da desconhecida na trama. Se por um lado tanta subjetividade funciona em um livro, por outro, em um filme, é necessário fazer escolhas para não desviar tanto o espectador, e, no caso de ‘A Desconhecida’, todo o drama pessoal da detetive Rispoll fica deslocado (e, até mesmo, concorrendo) do enredo principal, e, ao fim, temos a sensação de que nada daquilo precisava estar acontecendo para justificar as ações da personagem.

Dirigido por Gabe Ibáñez (que comandou quatro episódios da série ‘Express’), ‘A Desconhecida’ equilibra o suspense psicológico com elementos de trama policial e um quê de filme de ação, resultando num filme que prende a atenção sem exigir grandes investidas por parte do público. As locações escolhidas, acima de tudo, transmitem a ambientação certa de acordo com a sensação que cada acontecimento pede, o que afirma as boas escolhas feitas pelo diretor ao seu projeto.
Mesmo sem ser um suspensão, ‘A Desconhecida’ entrega o que se espera e não decepciona, comprovando que a indústria cinematográfica espanhola continua investindo em suas histórias tempos depois do sucesso de ‘La Casa de Papel’. Que continuem assim!




