No CineOP, Helena Solberg fala seu doc sobre Carmen Miranda e alerta: “Vivemos numa época muito complicada com Trump”

A 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto foi marcada por homenagem à cineasta Helena Solberg, um dos nomes fundamentais da história do cinema brasileiro.

Considerada um dos nomes mais importantes da história do audiovisual brasileiro, Solberg construiu uma carreira marcada pelo olhar político, pela sensibilidade documental e pela representação feminina no cinema.

Nascida no Rio de Janeiro, a cineasta ganhou projeção ainda nos anos 1960 com curtas que observavam transformações sociais e culturais do Brasil em um período de intensa turbulência política. Seu filme `A Entrevista` (1966) é frequentemente apontado como uma obra pioneira ao discutir expectativas e pressões impostas às mulheres brasileiras em uma época de profundas mudanças sociais.

Ao longo das décadas seguintes, Helena consolidou uma trajetória internacional, dirigindo documentários e projetos entre Brasil e Estados Unidos e abordando temas como direitos das mulheres, identidade latino-americana, política e memória histórica.

Aos 88 anos, a diretora participou de uma coletiva para falar sobre seu legado e cometou sobre um dos seus filmes mais importantes, ‘Carmen Miranda: Bananas is My Business‘, ddocumentário de 1995.
“Eu estava com muita vontade de fazer um filme sobre a Carmen Miranda. Ela é uma personagem que teve uma trajetória entre o Brasil e os Estados Unidos, e achei isso fascinante. Sempre pensei que esse era um filme que poderia estabelecer uma ponte entre as duas culturas. Eu também tinha muita curiosidade sobre a figura dela. Como eu disse, havia uma visão muito americanizada da Carmen Miranda, e eu achava que existia muito mais nela do que essa imagem difundida. Essa ideia de você se perder na tradução, de precisar se traduzir para o estrangeiro, sempre me pareceu muito forte, até dolorosa. Essa distorção que aconteceu com ela me interessava bastante. Foi um filme difícil. Houve momentos em que eu mesma, enquanto narrava a história, achava que não ia dar certo. Quem me ajudou muito nesse período foi o Antônio Calmon. Ele é um grande amigo. Eu ligava para o Brasil e dizia que estava preocupada, e ele sempre respondia: “Vai em frente. Não abandona. Continua. Vai dar certo.”, ela afirmou.

Questionada sobre como ela olha o Brasil e suas dificuldades atualmente, ela afirmou:

“Eu acho que não é apenas o Brasil. Vivemos uma época muito complicada, muito difícil. Há toda essa questão do Trump nos Estados Unidos, a situação da Palestina… São temas que fazem parte de um cenário internacional, não apenas de questões internas do Brasil. Acho que estamos vivendo um momento muito delicado e confesso que tenho bastante preocupação com o futuro. Também penso que a inteligência artificial, o mundo digital e todas essas transformações estão mudando profundamente a sociedade. Vamos precisar encontrar um caminho para que tudo isso não tome uma direção equivocada. 

Helena Solberg ao meio

Emocionada, Solberg falou sobre o significado simbólico de revisitar suas obras décadas depois.

 “Sinto um grande abraço de vocês nessa sessão com meus primeiros trabalhos, que começaram a minha carreira. Eles foram realizados há sessenta anos, no início da ditadura militar.”

A programação da 21ª CineOP segue até 30 de junho com exibições de filmes, debates, encontros, oficinas e atividades artísticas que reforçam o compromisso do evento com a valorização da memória e do futuro do audiovisual brasileiro.

Sobre a CineOP

Reconhecida como o único evento brasileiro dedicado exclusivamente ao cinema como patrimônio cultural, a Mostra de Cinema de Ouro Preto consolidou-se ao longo de 21 anos como um dos encontros mais importantes do calendário audiovisual nacional.

Realizada anualmente em Ouro Preto (MG), a iniciativa reúne realizadores, pesquisadores, educadores, estudantes e profissionais do setor em uma programação gratuita voltada para reflexão, formação de público e fortalecimento das políticas de preservação audiovisual.

Toda a programação é gratuita.

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Renato Marafon
Renato Marafon
Criador do CinePOP em 1999 e apaixonado por cinema.