Crítica | Lexi Minetree nos ENCANTA na desengonçada série ‘Elle’, pré-sequência de ‘Legalmente Loira’

Os anos 2000 foram marcados por alguns dos clássicos do gênero de comédia e romance que, mesmo duas décadas e meia mais tarde, continuam a ter um lugarzinho especial no coração dos fãs. Apenas a encargo de exemplificação, tivemos as icônicas rom-coms ‘10 Coisas que Eu Odeio em Você’ e ‘De Repente 30’, além das dramédias ‘O Diabo Veste Prada’ e ‘Juno’. E, sem sombra de dúvida, um dos títulos mais conhecidos da época é Legalmente Loira, uma divertida história focada nas empreitadas de Elle Woods, uma socialite que resolve entrar na Faculdade de Direito de Harvard para reconquistar seu ex-noivo – apenas para descobrir uma aptidão nata para se tornar advogada.

Carregado de mensagens de bonança e de empoderamento, com uma dose certeira de humor que apenas um nome como Reese Witherspoon poderia trazer às telonas, o filme é considerado um marco do gênero neste século e estende seu legado até os dias de hoje, reiterando seu inegável status ao lado de produções como ‘Meninas Malvadas’ e ‘As Patricinhas de Beverly Hills’. E, mais de vinte anos depois, somos convidados a retornar para esse universo e colorido universo com o lançamento da 1ª temporada da série pré-sequência ‘Elle’, que foi disponibilizada no catálogo do Prime Video no último dia 1º de julho.

A trama se passa seis anos antes da adorada protagonista resolver mudar sua vida por completo, trazendo Lexi Minetree encarnando a versão mais nova de Elle Woods, que está pronta para arrasar no Ensino Médio navegando pelas “atribulações” da adolescência. Porém, as coisas viram de cabeça para baixo quando seus pais, Wyatt (Tom Everett Scott) e Eva (June Diane Raphael), anunciam que irão sair da ensolarada e vibrante Bel-Air para a chuvosa e sombria Seattle após um problema médico envolvendo um dos pacientes de Wyatt.

A princípio relutante em se mudar para uma cidade no “auge de sua vida social”, Elle coloca suas melhores roupas e seus melhores acessórios, um sorriso no rosto e sua nata confiança para tentar conquistar seu lugar em uma escola onde tudo parece ao contrário – e a conhecida “hierarquia” escolar parece não existir. Em vez disso, a maioria dos alunos está fortemente engajada em causas sociais para melhorar um mundo que não dá espaço e voz necessários para os jovens, como a impulsiva Kimberly (Chandler Kinney), que de imediato declara seu desgosto pela novata banhada em rosa, ou a ácida Liz (Gabrielle Policano), que se torna sua improvável amiga.

Como podemos perceber, a estrutura da série bebe de diversas outras produções adolescentes que marcaram gerações – e não apenas isso, faz incontáveis menções ao filme original (o que não é nenhuma surpresa, considerando o envolvimento de Witherspoon na produção executiva). Logo de cara, percebemos que os títulos dos episódios são tirados diretamente de icônicas falas de Elle Woods em seu tempo em Harvard, como “Não, bobinho. Eu estudo aqui” e “O quê? Por que é difícil?”, e essas homenagens se estendem para a construção da personalidade da deslocada protagonista e para um trabalho excepcional de Minetree, que traz elementos da performance de Reese à medida que traz uma identidade única a um dos ícones da cultura pop contemporânea.

De certa maneira, o arco de Elle segue os passos da “jornada do herói”, mas não da forma que esperamos: claro, temos o cruzamento do limiar entre a realidade em que a personagem principal sempre conheceu e a realidade a que é arremessada, além dos inesperados aliados que a auxiliam em sua trajetória de autodescoberta e uma mentora nada convencional que a “força” a esquadrinhar seu completo potencial. Porém, não podemos deixar de encontrar várias semelhanças entre a estrutura da série e a do filme de 2001, traçando similaridades tão fortes que destituem o spin-off de caminhar com os próprios pés – ainda que essa tarefa seja mais difícil do que parece.

Em última instância, os oito episódios do projeto emergem como um guilty pleasure, um passatempo para um fim de semana calmo e despretensioso que acompanha as aventuras de Elle em seu novo colégio – e que conta também com a ótima presença cômica de Raphael, que já havia nos encantado na comédia ‘Grace e Frankie’, e de Amy Pietz como Donna, a secretária do Colégio Rainer West que se torna amiga da protagonista. Todavia, em meio a diálogos desajeitados e estereótipos teen que funcionavam muitos anos atrás, o restante do elenco não consegue brilhar como deveria e vive à sombra de um comprometimento artístico que preza mais pelo saudosismo e pelo visual do que pelo conteúdo.

Mesmo com muitos erros e demorando para encontrar seu ritmo, ‘Elle’ é uma despojada pré-sequência de Legalmente Loira que se beneficia da magnética presença de Lexi Minetree e de June Diane Raphael – e, por mais que não consiga justificar sua existência, consegue nos envolver dentro de limites claros e que não fogem muito das fórmulas do gênero.

Lembrando que a série está disponível no Prime Video.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.