Toda guerra implica em consequências que ecoam por muito mais tempo do que a duração de um conflito. Dezenas de milhares (às vezes, milhões) de pessoas são impactadas direta e indiretamente quando dois lados entram em disputa, e, não importa o lado vencedor: no fim, ambos perdem. Agora, imaginem um filme que, diante de um cenário tão desolador, se dedicasse a entender, de uma maneira muito sutil, as reverberações da guerra no período da infância de um país? Esse é o foco de ‘Uma Infância Alemã’, impactante filme alemão exibido no Festival de Cannes em 2025 e que está atualmente em cartaz nos cinemas.

Na pequena Ilha de Amrum, ao norte da costa alemã, durante a primavera de 1945, um grupo de moradores tenta seguir seu cotidiano apesar dos duros impactos da II Guerra Mundial. Aí conhecemos Nanning (Jasper Billerbeck), um menino de cerca de doze anos de idade, o mais velho dentre seus irmãos, que, para ajudar em casa (onde mora com a mãe grávida e a tia), trabalha na colheita na horta de uma vizinha. Com a falta de recursos e de alimentos, os moradores começam a ser impactados pela queda da qualidade, atritos nas relações, furtos, pequenos delitos que fazem com que a enxuta comunidade, outrora tão unida, se veja com desconfiança. Quando a mãe de Nanning tem o bebê e fica com o desejo de comer um pão de sal, o menino literalmente atravessará uma jornada para conseguir os ingredientes para a feitura do alimento, certo de que, com isso, a paz na sua família e na sua vida voltará.
Em um primeiro momento não parece que ‘Uma Infância Alemã’ seria aquele tipo de filme que fica na memória, mas isso é apenas uma ilusão. Com seu jeitinho devagar e ares inocente, o longa alemão vai traspondo uma realidade de crueldade e dificuldade para o espectador, uma perspectiva diferenciada dos horrores vividos durante a II Guerra Mundial que talvez muitos de nós não tenhamos pensado, afinal, quando o foco das narrativas geralmente recai nos centros de disputa, ‘Uma Infância Alemã’ propõe pensar nos reflexos desse evento em um vilarejo distante, quase esquecido moralmente pelo próprio país, mas que se acha importante o suficiente para, dentro de si mesmo, dividir os moradores em lados opostos. Essa é a magia do roteiro de Fatih Akin e Hark Bohm, que de maneira equilibrada em nenhum momento pesa no drama.

Agora, se por um lado temos a inocência juvenil de não entender a dimensão dos acontecimentos, também temos a irritante inocência infantil de se meter a fazer as coisas sem pensar nas consequências. Em outras palavras, para o bem e para o mal o filme de Fatih Akin mostra, através de seu protagonista Nanning, como a criança, o jovem é impelido a fazer as coisas muitas vezes sem nem pensar no que exatamente está fazendo, e em como a maturidade dos adultos também ajuda a corromper e a acelerar o fim dessa mesma ingenuidade a partir do momento em que a frequência de choques de realidade passa a acompanhar o cotidiano do protagonista. Jasper Billerbeck faz um ótimo trabalho interpretativo, de modo que o espectador vai acompanhando a assimilação de cada evento no rosto do jovem, que transparece com muita evidência as muitas camadas de entendimento, sem deixar a peteca cair.
É preciso avisar, entretanto, que há cenas de caça de animais e elas são mostradas em close. Mesmo que o filme coloque uma cartela dizendo que não houve maus tratos, o impacto visual dessas cenas pode incomodar aos mais sensíveis.
Impactante, ‘Uma Infância Alemã’ é o tipo de filme que não parece, mas fica na memória de quem o assiste devido à reflexão que consegue levantar em noventa e três minutos de duração. Pra ver antes que saia de cartaz!



