Entrevista | Christy – Um Novo Round: a transformação de Sydney Sweeney não convenceu Hollywood (Exclusivo)

“Eu me lembro que, quando li o roteiro pela primeira vez, fiquei completamente surpresa por não saber quem ela era. E soube naquele momento que a sua história precisava ser contada.” Foi assim que Sydney Sweeney começou o nosso bate-papo em novembro de 2025, durante o lançamento de Christy – Um Novo Round nos Estados Unidos. O projeto mais ambicioso da carreira da atriz chega somente agora em julho direto no catálogo da HBO Max Brasil. O motivo? O longa se tornou um grande tropeço comercial de Hollywood. 

Lançado no Festival de Toronto e dirigido por David Michôd, Christy – Um Novo Round abriu muito abaixo das expectativas. Distribuído pela Black Bear Pictures em cerca de duas mil salas americanas, arrecadou apenas US$1,3 milhão em seu primeiro fim de semana, ocupando uma amarga 11ª posição nas bilheterias, de acordo com o Box Office Mojo. O resultado levou a distribuidora a cancelar os planos de exibição nas salas internacionais.

Entrevista Sydney Sweeny com Leticia Alassë
Sydney Sweeny em entrevisya com Leticia Alassë (Foto: reprodução YouTube)

Longe dos debates políticos

Quando surgiu para nossa entrevista, Sydney escolheu um caminho diferente daquele a que acostumou os olhos do público. Nada dos decotes que frequentemente dominam os tapetes vermelhos ou das campanhas publicitárias que ajudam a construir sua imagem de sex symbol. Vestida em discretos tons de branco e cinza, em um ambiente adornado por plantas e decoração natalina, a atriz parecia transmitir exatamente a mensagem de Christy: serenidade, força e uma mudança de rota. Em meio ao turbilhão da divulgação do filme, era palpável a tentativa de apresentar uma nova versão de Sydney Sweeney

Paralelamente à promoção do longa, sua imagem pública era consumida por campanhas publicitárias controversas, debates sobre sua sexualização na indústria e entrevistas que, muitas vezes, procuravam trazê-la para discussões ideológicas. A atriz, no entanto, nunca demonstrou grande interesse em transformar seu trabalho em manifesto social. Pelo contrário: prefere falar sobre preparação, disciplina e sonhos profissionais, algo que fica evidente ao longo da nossa conversa.

Christy Martin e Sydney Sweeney no lançamento do filme em novembro de 2025 (Foto: divulgação/People)

Para ela, o filme não levanta a bandeira da violência doméstica. “Christy sempre diz que aquilo que aconteceu com ela não define quem ela é. Não foi o fim da vida dela. Na verdade, foi o começo”, afirma. “Ela era uma lutadora, não importa se estava batalhando dentro ou fora do ringue. Acho que ela é um exemplo incrível de como assumir novamente o controle da própria vida.”

Tentativa de mudança de rota

Desde que conseguiu os holofotes da imprensa com a intensa Cassie, na segunda temporada de Euphoria, a atriz construiu uma trajetória veloz. Vieram as comédias românticas, os suspenses psicológicos e a adaptação de um grande best-seller. Em pouco tempo, transformou-se em um dos nomes mais requisitados de sua geração. Christy, porém, representava algo diferente: era a tentativa de mudar a maneira como a indústria a enxerga.

Sydney Sweeney como Christy Martin em Christy – Um Novo Round (Foto: divulgação)

O caminho escolhido não era exatamente novo. Charlize Theron ganhou o Oscar ao desaparecer sob a pele da serial killer de Monster (2003), enquanto Margot Robbie conquistou sua primeira indicação à estatueta ao abandonar a imagem construída em O Lobo de Wall Street (2013) para viver Tonya Harding em Eu, Tonya (2017). Em comum, ambas precisaram convencer Hollywood de que havia muito mais por trás do rótulo de símbolo sexual que as acompanhava. Sydney Sweeney parecia seguir exatamente a mesma cartilha.

Além de protagonizar, assumiu também a produção do projeto. Ganhou cerca de 14 quilos, passou meses treinando boxe e transformou completamente sua rotina para viver Christy Martin. “Eu tive três meses de preparação intensa. Treinava e lutava boxe todos os dias. Quando começaram as filmagens, ainda precisava manter o ritmo para não perder a memória muscular e os ganhos físicos”, contou. “Meu horário de chamada era às cinco da manhã, então eu acordava às três e meia para treinar. Filmava até as sete ou oito da noite e depois ainda fazia uma ou duas horas de coreografia das lutas.”

“Meu horário de chamada era às cinco da manhã, então eu acordava às três e meia para treinar. Filmava até as sete ou oito da noite e depois ainda fazia uma ou duas horas de coreografia das lutas.”

Quando a transformação física não basta

Cinebiografias costumam ser queridinhas das premiações. Mesmo obras medianas já encontraram espaço no Oscar, como Bohemian Rhapsody, que, apesar das inúmeras críticas, acumulou importantes vitórias. O projeto Christy parecia desenhado para a temporada de prêmios, mas o cinema não é uma ciência exata. 

Christy Martin no ringue e Sydney Sweeney no filme (Foto: montagem)
Christy Martin no ringue e Sydney Sweeney no filme (Foto: montagem)

O grande entrave do longa não está em Sydney Sweeney. A mudança física existe e impressiona. A Christy Martin construída pelo roteiro e pela direção de David Michôd, no entanto, é contida demais, impedindo a atriz de utilizar aquilo que se tornou sua principal assinatura dramática desde Euphoria: a explosão emocional. Nenhuma transformação externa é suficiente para convencer completamente o público de que aquela mulher endurecida pela vida não é apenas Sydney Sweeney na tela. 

O peso da própria imagem

A figura de sex symbol da atriz continua profundamente atrelada à percepção do público. No momento do lançamento, a força de uma lutadora de boxe bissexual, marcada muito mais pela crueza do que pelo glamour, não convenceu as audiências de massa. Sweeney ainda enfrenta dificuldades para se desvencilhar dos estigmas que a consagraram.

Sydney Sweeney em Christy (Foto: divulgação)

De lá para cá, ela recuperou parte de seu prestígio comercial graças à bem-sucedida adaptação de A Empregada e ao seu retorno para a conturbada terceira temporada de Euphoria, cuja fragilidade recente reside muito mais na pobreza dramática do roteiro de Sam Levinson do que em suas atuações.

Leia também: Crítica | Amanda Seyfried e Sydney Sweeney brilham na DELICIOSA e despojada adaptação de ‘A Empregada’

“Se existem histórias que me desafiam ou me impactam de maneiras diferentes, eu sempre vou querer persegui-las e tentar trazê-las à vida”, confessa a atriz no encerramento da nossa entrevista. Hollywood é uma indústria construída sobre expectativas e projeções públicas — e o timing do lançamento acabou sendo o adversário mais implacável da atriz e do filme. 

Veja a entrevista em vídeo no YouTube

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Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.