Alguns filmes não precisam mostrar a violência de maneira explícita para nos destruir por dentro. Basta um olhar, um silêncio prolongado ou uma criança tentando entender por que o mundo ao seu redor é tão cruel. Em ‘Naira’, acompanhamos uma menina de nove anos que vive em um povoado nos Andes peruanos e tenta salvar a mãe dos abusos e da miséria. Sem encontrar outra saída, ela decide construir um par de asas para se transformar em condor e voar em busca de uma vida melhor para as duas.
Gabriela Quiroz entrega uma direção primorosa, encontrando o equilíbrio perfeito entre a sutileza e o impacto visual que essa história tão forte exige. A cineasta sabe quando aproximar a câmera do rosto de Naira e quando utilizar a imensidão das paisagens andinas para mostrar o quanto aquela menina se sente pequena e aprisionada. Sua experiência na equipe criativa de J.J. Abrams em produções como ‘Star Wars: O Despertar da Força’, ‘Star Trek: Sem Fronteiras’, ‘Missão: Impossível – Nação Secreta’, ‘Rua Cloverfield, 10’ e ‘Westworld’ fica evidente na segurança com que ela controla o ritmo e constrói imagens belíssimas.

Um dos grandes acertos do filme está na mistura entre realidade e fantasia. As asas representam liberdade, esperança e a possibilidade de romper um ciclo de violência que parece não ter fim. O roteiro também explora famosos contos e tradições peruanas por meio de subtramas criativas, abordando racismo, desigualdade social, intolerância religiosa e violência contra a mulher sem transformar a história em um discurso artificial. Tudo surge naturalmente através da maneira como Naira enxerga o mundo: para ela, a fantasia não é apenas uma fuga, mas uma forma de sobrevivência.
No centro de tudo está Yaneth Calla Supo, que entrega uma atuação irretocável. É impressionante como a jovem atriz consegue transmitir toda a dor, o medo e a intensidade da personagem apenas com a força do olhar. Ao mesmo tempo, preserva sua inocência e faz de Naira uma menina curiosa, teimosa e sonhadora, e não apenas uma vítima. Quiroz confia plenamente no talento da garotinha, mantendo a câmera próxima ao seu rosto em momentos nos quais nenhuma palavra é necessária para partir nosso coração.
Ah sim, e ela é acompanhada pela alpaca Oso, que também brilha toda vez que aparece em tela com a garotinha e se torna um coadjuvante louvável e cheio de química com Yaneth.
‘Naira’ é triste, emocionante e dolorosamente humano. É um filme que cativa com sua beleza, faz chorar com a realidade de seus personagens e nos deixa torcendo para que aquela menina finalmente consiga voar. Sem entregar spoilers, o desfecho é simplesmente um soco no estômago, daqueles que nos deixam paralisados diante da tela enquanto os créditos começam a subir. Gabriela Quiroz confirma seu enorme talento como cineasta, enquanto Yaneth Calla Supo entrega uma das atuações infantis mais marcantes dos últimos anos.



