Crítica | ‘A Vida de Jerônimo dentro e fora da casca’ – A força da resiliência em um mundo que não alivia [Bonito CineSur 2026]

Tem alguns filmes cuja a assimilação é rápida pois vão direto ao ponto na conversa sobre muitas realidades. Esse é o caso do curta-metragem A Vida de Jerônimo dentro e fora da Casca, exibido no terceiro dia de Bonito CineSur 2026. Um projeto que é fácil se identificar, pois circula assuntos importantes de nossa sociedade, como as duras batalhas pelo ganha-pão de cada dia, as dificuldades financeiras e a violência, um triângulo de questões que mostram a necessidade de ser resiliente em um mundo que não alivia.

Jorjão (Daniel de Almeida) é um batalhador que acorda cedo e percorre algumas vizinhanças com seu carro antigo vendendo ovos. Ele vive na periferia de Santo André junto a seu filho, Jerônimo (Victor Salomão), um jovem gente boa e que tem o sonho de se tornar um cantor de funk de sucesso. A relação entre os dois vivia em certo conflito, até o dia em que Jerônimo conquista a confiança de seu pai rimando frases criativas que aumentando a venda do ovos. Só que o sucesso chama a atenção de um miliciano (Alessandro Imperador), que começa a colocar obstáculos no caminho dos dois.

Batendo na tecla de que o ato de sobreviver é ser resiliente, chegamos numa explosão de reflexões, até um desfecho emblemático e repleto de significado através de carismáticos personagens. E como não falar de Victor Salomão e Daniel de Almeida, maravilhosos artistas que emprestam suas habilidades aos protagonistas, fazendo nascer um forte vínculo entre pai e filho. Essa relação, estabelecida desde o início com a menção ao conflito, é por onde navega toda a trama, a alma dessa história.

A narrativa consegue apresentar alguns pontos criativos importantes, experimentando novas formas de contar uma história. Em muitos momentos, parece que estamos vendo um clipe musical, em que as letras, ou jogo de palavras, dialogam demais com o que se ilustra na ficção apresentada. É o mesmo efeito que acontece com várias letras de funk, que podem ser interpretadas como uma conversa com o público sobre o que acontece de verdade nas realidades das periferias.

Costurando, de forma carismática, a estrada entre uma dura realidade e a esperança no sonhar, sem deixar de apresentar, por meio de ações contundentes, um mundo hostil marcado pela violência e sem enfraquecer a força do importante debate social, esse curta-metragem, dirigido por Andrews Nascimento, consegue, em poucos minutos, envolver o público com um roteiro que acerta na fluidez, seguindo por coerências narrativas. Interessante projeto.

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Raphael Camacho
Raphael Camachohttps://guiadocinefilo.blogspot.com.br
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.