Em todo festival de cinema, assim que é divulgada a programação, sempre há aqueles filmes que mais chamam a atenção. Esse foi, pra mim, o caso de Hijo Mayor, exibido no quarto dia de sessões do Bonito CineSur 2026. Vencedor de um prêmio no Festival de Locarno no ano passado e indicado ao prêmio Horizons no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, esse era um filme que eu estava ansioso para assistir. E, para minha felicidade, superou as expectativas.
A argentina e descendente de sul-coreanos Lila (Anita B Queen) vive seu momento atual em busca de algumas respostas, buscando compreender as diferentes formas que podem moldar uma trajetória. Ela representa o presente buscando o futuro, precisando resgatar memórias do passado. Antonio, seu pai, é um imigrante que está há décadas na Argentina, e, ao longo do tempo, passou por muitas escolhas, por vezes, nômade da própria sorte. Ele representa o passado, mas também o presente.

Escrito e dirigido pela cineasta argentina Cecilia Kang, este projeto não é nada fácil. Em um ping pong de reflexões sobre identidade de uma jovem e os sonhos e decepções de um imigrante que busca se fixar na América do Sul, somos convidados a embarcar em um interessante trem geracional melancólico. Uma jornada pelo legado de integrantes de uma mesma família que nos leva a dialogar sobre os propósitos que surgem através das escolhas que tomamos.

O lugar vazio à mesa. A melancolia saltando na tela. A troca de perspectiva. A perda que não é mostrada. Em vários momentos há um convite implícito para você embarcar nesse trem. Caminhando no existencialismo, montando tijolo por tijolo a construção poética de um âmbito familiar ao longo do tempo, histórias do passado invadem o presente, deixando pelo caminho sugestões e ganchos para o público se agarrar e iniciar sua trajetória de entendimento sobre o que pulsa de forma extremamente delicada e tocante na tela.

A escolha pela narrativa contemplativa, dando um passo de cada vez pelas nossas interpretações, com montagens variadas de quebra-cabeças de entendimentos, não é nem de longe convidativa, o que pode prejudicar a experiência das pessoas mais impacientes. Entretanto, essa coragem de seguir uma linha onde a interpretação do silêncio e o sensorial com seu leque de possibilidades intensificam-se nas inúmeras pausas dramáticas se torna o grande charme desse projeto marcante que torcemos para que algum dia chegue aos cinemas brasileiros.


