Primeiras Impressões | ‘Presidente Curtis’ expande o universo de ‘Rick e Morty’ de maneira despojada e nostálgica

‘Rick e Morty’ fez sua estreia oficial no Adult Swim em 2013 e, desde seu lançamento, se tornou um dos emblemas da plataforma de streaming e conquistou inúmeros fãs ao redor do mundo por apresentar uma narrativa ao mesmo tempo hilária e reflexiva – acompanhando as desventuras de um velho cientista bêbado e cínico chamado Rick (dublado inicialmente por Justin Roiland e depois substituído por Ian Cardoni) e seu neto ansioso e idealista Morty (também interpretado por Roiland e substituído por Harry Belden). Mergulhando de cabeça em um explosivo universo sci-fi, a produção nos chamou a atenção pelas incursões niilistas e existencialistas sobre a vida e conquistou a crítica e o público através de episódios irretocáveis.

Treze anos depois de seu lançamento, Harmon se aliou a James Siciliano para um spin-off anunciado em 2025 durante a San Diego Comic-Con: Presidente Curtis, que é centrado em um dos personagens mais conhecidos do panteão, o presidente dos Estados Unidos André Curtis (vivido por Keith David). O personagem foi introduzido na série original no episódio “Get Schwifty”, na 2ª temporada, e desde então começou a marcar mais presença em uma relação de amor e ódio com Rick e Morty – sendo delineado como uma crítica contundente e muito ácida aos chefes de Estado que o transformaram em uma das construções mais interessantes e memoráveis da produção.

O primeiro episódio da série derivada chegou ao catálogo da HBO Max neste último dia 27 de julho, dando início a uma leva de dez capítulos que serão lançados semanalmente e que expandem esse cosmos de maneira a explorar uma perspectiva diferente das empreitadas de Rick e Morty. Aqui, há uma óbvia predileção para as produções de ficção científica antológicas dos anos 1990 que colocam os protagonistas frente a frente com crises sobrenaturais ou extraterrestres em vez de casos multidimensionais e interpessoais. Não é surpresa que o resultado seja bastante positivo e represente mais uma ótima entrada dessa franquia multimidiática que ainda tem muitas histórias a nos contar.

O piloto se inicia com Curtis participando de uma conferência de imprensa onde é bombardeado com diversas perguntas não só sobre suas controversas ações de ter abatido um “herói nacional” que escondia um lado psicótico e canibal, mas sobre assuntos frívolos – relembrando o público de sua conflitante personalidade egocêntrica e desesperada por atenção e validação (uma referência a “Air Force Wong”, da sétima temporada). Após responder de maneira vaga às questões, somos apresentados aos braços-direitos do presidente, a recém-contratada chefe de gabinete Roe Banks (Stephanie Beatriz), uma ciborgue muito habilidosa; e o agente especial do Serviço Secreto Francis O’Doyle (Jim Rash), um leprechaun cujo principal objetivo é seguir as regras à risca.

A partir daí, a narrativa dá uma guinada e deixa bem claro com qual tipo de tom lidaremos nas próximas semanas. Afinal, Curtis, Banks e O’Doyle logo são arrastados para uma tentativa da CIA em colocar as mãos nas gravações do famoso pouso na Lua de 1969 para apagar informações escondidas no próprio vídeo – e que envolvem um bebê chamado Adam, filho de John F. Kennedy, e que foi mandado para o satélite até estar pronto para se tornar o novo presidente dos Estados Unidos. De maneira quase irônica, Curtis vê nessa conspiração uma oportunidade não só de reiterar sua presença quase onisciente dentro de um complexo de salvador que ele próprio inventou, mas de, alguma forma, se mostrar disposto a entender quando e como errou.

Diferente de ‘Rick e Morty’, que ganhou notoriedade por esquadrinhar as “áreas cinzentas da moral” sem quaisquer escrúpulos e com um sarcasmo pungente, o spin-off se afasta desses comentários críticos e nos leva de volta aos clássicos sci-fi noventistas que sempre divertiram o público – em uma história marcada por ironias e quebras de expectativa próprias desse expansivo universo animado que trazem ritmo e uma autoconsciência hilária. É claro que é quase impossível não traçar paralelos entre as duas produções, porém, à medida que a narrativa se desenrola, fica óbvio que a proposta de ambas trilha caminhos distintos e, ao mesmo tempo, complementares.

Presidente Curtis tem um sólido início ao se apropriar do frenético dinamismo da série original – e até mesmo ao integrar uma breve cena metarreferencial que reitera a junção desses cosmos em uma única redoma. Entretanto, em vez de mostrar apaixonada demais para ter uma identidade própria, a produção derivada vem à tona com uma instigante jornada que já nos prepara para as próximas semanas.

Lembrando que o próximo episódio será exibido em 2 de agosto.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.