Isabelle Huppert é uma das atrizes mais prolíficas e aclamadas de todos os tempos, já tendo participado de dezenas de filmes de alto padrão, além de ter coletado vários prêmios ao longo de sua expressiva carreira. Desde a comédia criminal ‘Coup de Torchon’ até o pungente drama ‘Elle’, Huppert demonstrou uma versatilidade invejável no cenário cinematográfico e sagrou-se como uma das performers de maior prestígio da contemporaneidade – e carrega o título da artista mais indicada dos Prêmios César. E, quando paramos para celebrar sua extensa filmografia, certamente um dos emblemas que traduzem essa potência criativa é o drama psicossexual ‘A Professora de Piano’, que volta remasterizado aos cinemas de todo o Brasil para seu aniversário de 25 anos.
A trama é centrada em Erika Kohut (Huppert), uma austera professora de piano que, versada na arte que escolheu desde muito nova, tem tato inexistente para lidar com outras pessoas, sejam alunos ou colegas. Dividindo um pequeno apartamento ao lado da mãe (Annie Girardot) e constantemente relembrada de que o pai está trancafiado em um hospital psiquiátrico, Erika lida com diversas repressões e, por trás de uma fachada intransponível e quase gélida, nutre de várias parafilias que explora em segredo – incluindo voyeurismo, sadomasoquismo e autoflagelação, cujo segredo parece lhe dar um pouco de vida em meio a uma complacência inexplicável.

As coisas mudam quando, durante um árduo período de audições para novos alunos ingressarem na academia onde leciona, Erika aceita, a contragosto, a escalação do jovem Walter Klemmer (Benoît Magimel) como seu pupilo – e o charmoso jovem não desperta nela um convencional sentimento de desejo, mas a possibilidade de se deixar perder o controle e entregá-lo conscientemente a uma pessoa que pode subjugá-la como ela quer. Afinal, ela passou a vida segurando as rédeas de tudo e todos ao seu redor e, ao firmar uma fortaleza quase impenetrável, não encontra muitos momentos para se deixar levar pelos impulsos de um subconsciente marcado pela repressão.
O diretor e roteirista Michael Haneke, que é conhecido por sua frequente examinação do ser humano como objeto e personagem social, volta a se apropriar dos elementos de estranhamento e de afastamento que explorara na famosa Trilogia da Tristeza, transferindo as análises para um espectro mais constrito e que tem como fio condutor a personalidade aparentemente simples, mas na verdade muito complexa de Erika. Afinal, é possível enxergá-la como vítima de uma situação intrincada que envolve os comentários da mãe acerca da forma como deve se portar perante a sociedade, a época em que vive e a discrepante idade entre ela e seu novo fascínio – o jovem Klemmer. Não é surpresa que as coisas desandem pouco a pouco e transformem a frustração de Erika em um misto de medo, decepção e letargia.

Haneke trabalha com cortes secos, cortesia da montagem de Mona Willi e Nadine Muse, para garantir a surpresa cênica e apostar em uma crueza temática que se reflete nos próprios movimentos dos atores. E, acompanhado de uma sóbria fotografia assinada por Christian Berger, o cineasta tem todos os elementos para construir uma melodia dissonante que, de certa maneira, traz os clássicos musicistas que impactaram a jornada de Erika à tona em um compasso que singra entre a libertação e a vergonha – principalmente quando ela e Klemmer enfim se envolvem em um vórtice de sentimentos que não transparece a paixão como a conhecemos, mas a deturpação do que se entende como convencional.
De certa forma, os dois universos a que Erika pertence (um à plena luz do dia e outra confinada em uma claustrofobia cacofônica e obscura) colidem pela tênue linha que os liga – a pulsão psíquica -, com Huppert entregando talvez o melhor trabalho de sua carreira e segurando mais de duas horas de tela com sutilezas aplaudíveis (e não é nenhuma surpresa que ela tenha sido condecorada com o prêmio de Melhor Atriz em Cannes por seu formidável trabalho). Assim, Magimet e Girardot entram como catalisadores de sentimentos que irrompem em cena, amalgamando-se à quase monocromática paleta de cores e deixando que os breves tons terrosos guiem a solidão e a exploração sexuais de Erika.

É possível ver o impacto de ‘A Professora de Piano’ em diversas obras do gênero que chegaram aos cinemas nos anos seguintes, como os recentes dramas ‘Babygirl’ e ‘Pillion’, que exploraram uma temática parecida – mas trajada com uma vestimenta bem mais atual. De qualquer forma, é inegável como o longa-metragem permanece bastante ousado, ainda mais para o momento em que foi lançado, e como plataforma para reiterar o status de Isabelle Huppert em toda a sua glória.


