Crítica | Marsupilami: Confusão a Bordo – Filme Infantil com Pegada Adulta é a Maior Doidera

Talvez você tenha visto o trailer ou o pôster desse filme. É um bichano amarelado, com uma cara/vibe de Pokémon (ou Digimon, a referência dependendo da sua idade), um monte de ator ali no meio e um ar de confusões no meio das férias, bem ao estilo Sessão da Tarde. E até poderia ser, porque tem tudo isso também. Mas em se tratando do longa-metragem ‘Marsupilami: Confusão a Bordo’, em cartaz nos cinemas, a coisa toda vai muito além do filme infantil e, no final das contas, é uma doideira só. E está em exibição no circuito nacional.

Cartoon leopard cub peeking from behind a large rock in a lush jungle, with a curious, friendly expression.

David (Philippe Lacheau) é funcionário de um zoológico muito prestigiado, mas, certa vez, tarde da noite, ele voltada de uma festa, já bêbado, e, em vez de ir para casa, acabou indo para o trabalho. Pior: por conta disso, acabou abrindo diversas porteiras de contenção e, no dia seguinte, a cidade acordou com diversos animais silvestres espalhados tocando o terror. Como punição, seu chefe (Jean Reno, de ‘O Profissional‘), dono do lugar, o coloca de castigo e o obriga a realizar uma missão: viajar até a América do Sul e trazer para ele um objeto, com o compromisso de sequer abrir o embrulho. Só que essa missão coincide com o aniversário de seu filho, e, por causa disso, David decide levar sua ex-esposa, Tess (Élodie Fontan) e o filho deles para a viagem – que, claro, foge do controle a partir do momento em que a tal carga passa a ser procurada por diversas pessoas e se revela ser um marsupilami, o animal mais raro das Américas.

Inspirado no desenho homônimo dos anos 1990, que fez muito sucesso nos Estados Unidos, e nos quadrinhos de igual nome de autoria do artista belga André Franquin, o longa-metragem ‘Marsupilami: Confusão a Bordo’ começa com uma inocência infantil de férias em apuros, mas, rapidamente o expectador é surpreendido não por uma, mas por várias inserções um pouco mais adultas que ao mesmo tempo que choca (uma vez que não esperamos isso) acaba meio que divertindo, dado o inusitado das situações.

Man in an orange shirt leans in with a warm smile toward a boy hugging a plush tiger in a bright living room.

Escrito, dirigido e estrelado por Philippe Lacheau, o filme diverte, ao mesmo tempo que confunde o público. Por um lado, somos obrigados a pensar qual a faixa etária do filme, uma vez que temos cenas bem fofinhas entre o animal protagonista e a criança, cujo antagonismo gira em torno. Por outro lado, a mesma criaturinha fofinha se mete em situações em que a vemos se comportando como adulto (seja com modificações, digamos assim, em seu corpo, seja com sinais de embriaguez). É como se a produção fosse algo entre os clássicos filmes híbridos da Disney (que misturavam animação e live-action) com ‘A Festa da Salsicha’ e similares, só que com gente real protagonizando as cenas, inclusive o renomado Jean Reno.

E tudo isso ocorre dentro de um cenário fictício de uma América Latina caricata meio Didi Mocó , onde o país se assemelha à Colômbia e os locais são tratados com paternalismo em prol do riso. No fim das contas, é um humor que não sabemos se devemos estar rindo do que efetivamente estamos rindo, embora a tradução e a dublagem brasileiras uma vez mais se destaquem com um bom trabalho de adaptação de texto, incluindo um trocadilho com os nomes dos personagens.

Fofo, bem realizado, com elenco conhecido e uma história um tanto quanto incorreta, ‘Marsupilami: Confusão a Bordo entrega o que o título promete e surpreende por ser muito mais do que apresenta – para o bem e para o mal.

Six adults and a child stand in a lush jungle, all looking upward with expressions of awe or concern, the child holding a yellow plush toy.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.