Ariana Grande tornou-se uma das estrelas da música mais populares do século por uma série de razões – e um desses motivos é sua contínua capacidade de reinvenção. Todavia, é inegável dizer que a artista, que já conquistou duas estatuetas do Grammy e uma indicação ao Oscar, é um dos principais nomes a sempre estar sob constante escrutínio, principalmente depois da extensa turnê promocional da duologia ‘Wicked’, onde interpretou Glinda e conquistou aclame por sua performance. Desde então, a vida pessoal e profissional da performer se engalfinhou em comentários extensos sobre cada um de seus passos – e seu cansaço em relação ao sabor agridoce da fama culminaram no lançamento de seu oitavo álbum de estúdio.
Intitulado ‘Petal’, o compilado de originais foi lançado recentemente em todas as plataformas de streamings e representou um afastamento quase completo da era ‘eternal sunshine’, de 2024. Contando com doze faixas que se estendem por breves 36 minutos, o disco emerge como seu projeto mais ambicioso e ambíguo, narrando os corolários do estrelato de maneira nada óbvia e que, ao trazer a conhecida amálgama de pop e R&B que já explorou em outros álbuns de sua discografia, causou uma certa comoção generalizada entre a crítica internacional e o público. Todavia, mesmo carregado de polêmicas inexplicáveis, o resultado é bastante positivo e representa mais uma sólida iteração à carreira da cantora e compositora.
‘Petal’ começou a ser promovido em maio deste ano com o lançamento do lead single “hate that i made you love”, que trouxe explorações do synth-pop e do alt-pop movido a vocais cristalinos e que, apesar dos convencionalismos, promoveu uma dupla interpretação muito interessante: a primeira, sendo a mais óbvia, discorre sobre um relacionamento amoroso que terminou com um tom pesaroso; a segunda funciona como uma espécie de denúncia aos laços tóxicos e destrutivos com os fãs (não apenas dela, mas de todas as celebridade que são endeusadas a um plano intocável e que sempre preza pela perfeição). Não é surpresa que esse duplo sentido tenha aparecido nas outras faixas, dando o mote principal que envolve o projeto como um todo.
De certa forma, é possível encarar o álbum como um reflexo da fragilidade individual e artística pela qual Ariana passa – o que não é nenhuma surpresa, considerando sua recente declaração de que se afastaria dos holofotes e do show business por tempo considerável, ao menos até estar saudável o suficiente para fazer um glorioso retorno. “kiss me”, abrindo essa pungente e ácida jornada, irrompe como um grito desesperado de um último suspiro de amor, seja romântico, seja interpessoal (“me beije como se você soubesse que isso é um adeus”), em que os vibrantes sintetizadores puxam elementos da identidade de Charli XCX e A.G. Cook para se afastar das conhecidas convenções das baladas.
O segundo single oficial, que empresta seu nome ao título do disco, mantém-se fiel à identidade de “hate that i made you love me” ao abrir espaço para o synthtrap. Acompanhado de um videoclipe controverso que gerou burburinhos nas redes sociais sobre o que a artista queria dizer, a track pode ser entendida como uma crítica à autofagia e ao caráter derradeiro da fama (“cansada de pintar infinitos quadros de uma vida que não é minha”), onde as máscaras que é forçada a usar a transformam não como uma “flor brotando do pavimento”, mas sim uma frágil “pétala”.
É notável como a primeira parte do álbum é carregada de sutilezas que escondem uma declamação confessional e mais obscura que vimos nos álbuns anteriores. Temos, por exemplo, a mistura de synth e R&B de “stay”, cuja urgência é mascarada pela sutileza dos vocais e a sagra uma das melhores entradas do álbum. Em “oh well”, somos arremessados a uma atmosfera que nos leva à popularização da música eletrônica dos anos 2000, apoiando-se em uma letra que preza por uma possível “ressurreição” – passível ou não de ser concretizada (“vamos ver quem eu consigo ser sem você”. “like i do”, por sua vez, se vale das pulsões do trap para potente e densa crítica à fama e ao fato de artistas como ela estarem sob constante observação pública e sujeitos a uma doentia adoração que nunca quiseram – e pela qual não podem se sentir responsabilizados.
Em meio a escolhas certeiras e a outras que, apesar de refletirem a inescapável ambição da artista, não funcionam como deveriam, Grande encontra sucesso ao explorar o que já sabe. Em “big feelings”, facilmente uma das iterações mais coesas do álbum, temos a reverberação do piano clássico que casa perfeitamente com a ambientação R&B e soft-trap, que busca por um empoderamento ainda em processo de gestação através de uma lírica mais explícita e sensual, acompanhada de um tempero sarcástico e quase profético (“há coisas piores que eu poderia fazer”). Já “freak” é um dos emblemas conceituais do projeto, apostando em uma atmosfera mais anos 80 do pop-rock e em uma estruturação fantasiosa e sombria, quase teatral, reiterada pela cadência e pela entrega dos versos.
À medida que nos aproximamos da conclusão do álbum, mais referências começam a vir à tona: “never get over me” se apoia no R&B dos anos 2000, com referências ao grupo britânico Mis-teeq e a Jennifer Lopez, construindo uma viagem no tempo inebriante e sinestésica; “bad thing (bunny hop)” apoia-se numa saborosa mistura de synth-pop, new wave, synthwave e eletrônica; e, encerrando essa dolorosa e envolvente aventura fonográfica, “nowhere, nobody” parece prestar homenagem à faixa “breathin’”, do álbum ‘Sweetener’, ao trazer uma temática similar sobre autocuidado e sobre viver o aqui e o agora numa defesa da clássica máxima carpe diem.
‘Petal’ é mais uma bem-vinda entrada a uma das discografias mais interessantes do século XXI e mostra que Ariana Grande não tem medo de se arriscar – por mais que, às vezes, essas ousadias deem um passo maior que a perna e nos deixem com um gostinho de “quero mais”.


