O texto a seguir discorre sobre os dois primeiros episódios da série.
Ryan Murphy é um dos realizadores mais prolíficos do cenário televisivo atual, sendo a mente responsável por diversas produções bastante populares e aclamadas pela crítica e pelo público. Desde ‘Nip/Tuck’ até ‘Glee’, passando pelas conhecidas antologias ‘American Horror Story’, ‘American Crime Story’ e ‘Monstro’, Murphy deixou sua marca não apenas no gênero do terror, como na comédia e no drama, oferecendo uma perspectiva original a narrativas bastante familiares – ainda que nem todos os seus esforços tenham encontrado o sucesso merecido. De qualquer maneira, é inegável que o realizador é uma máquina imparável de projetos e, este ano, ele está de volta com o thriller adolescente coming-of-age ‘Estilhaços’.
A série, arquitetada em colaboração com Bret Easton Ellis – que inclusive assinou o romance que inspirou a adaptação -, nos leva para o ano de 1981 e mergulha na high society de Los Angeles ao acompanhar uma versão mais jovem de Ellis, interpretada por Igby Rigney. Aqui, Bret emerge como um narrador em primeira pessoa que logo de cara nos arremessa para a efervescente década em que a sobrevivência tinha que ser colocada em primeiro lugar à medida que os Estados Unidos se tornavam um grande palco para os serial killers mais perigosos de todos os tempos (um tema que, sem sombra de dúvida, não é novidade para Murphy e para seu time criativo).

Bret integra a “nata da nata” da Costa Oeste e, ao lado de seus grandes amigos – Susan Reynolds (Kaia Gerber), Thom Wright (Graham Campbell) e Debbie Schaffer (Hayes Warner) -, ele navega pela ostentação sem limites da elite californiana conforme demonstra um apreço significativo pela literatura e ao passo que as investidas de um assassino mortal e derradeiro trazem caos e temor à cidade. Explorando uma identidade que à época era reprimida pelo tradicionalismo entorpecente de uma sociedade em frangalhos, Bret vê sua vida ficar mais complicada com a chegada de um novo aluno ao colégio, o misterioso Robert Mallory (Homer Gere), que talvez tenha algo a ver com o homicida que assola Los Angeles.
Considerando os múltiplos gêneros de que a série se vale, Murphy entrega um trabalho sólido se não pararmos para prestar atenção nos exageros em demasia tanto do roteiro quanto da construção dos personagens. Trazendo sua conhecida estética para o episódio piloto, o realizador aposta em excessos cênicos que salpicam os arcos dos protagonistas com uma proposital suspensão da realidade, optando por infundi-los em um arco quase fantástico e que reúne praticamente todos os clássicos elementos true crime que vêm explorando nos últimos anos – e, considerando que o material de Ellis é semiautobiográfico, a ideia se mostra muito interessante e envolvente.

O problema principal talvez seja a falta de coesão de ritmo e de dinamismo: a presença do narrador em primeira pessoa é inevitável, mas não trabalhada da forma que deve para justificar a construção de cada uma das sequências; ademais, certos diálogos soam falhos demais para serem levados a sério, mesmo com a bem-vinda presença de um elenco de peso. E, voltando-se para as incursões técnicas e artísticas, Murphy volta a tecer um fio condutor entre esta e tantas outras produções de sua carreira, com o excesso de simetria e planos holandeses que nos engolfam em uma constante e inescapável luta contra uma força admirável.
Rigney, que não é nenhum novato no gênero e já participou de produções como ‘Missa da Meia-Noite’, ‘A Queda da Casa de Usher’ e ‘O Clube da Meia-Noite’, tem uma presença carismática marcante, mas que desvanece em meio a uma personalidade que, ao menos nos dois primeiros capítulos, não nos arrebate como deveria – mas isso não significa que não haja espaço para que ele cresça, visto que é o elo principal dessa intrincada corrente. O destaque, porém, vai à presença de Gerber (que já participou de outras produções de Murphy), que rouba os holofotes a todo momento, e de Gere como o intrigante e potencialmente problemático Robert, que caminha para uma construção anti-heroica que deve ser explorada nas próximas semanas.

‘Estilhaços’ pode não ter começado da melhor maneira, mas certamente nos deixa ansiosos para saber o que acontecerá nos capítulos seguintes – e, caso consigamos deixar de lado os claros erros que acompanham a produção, a atmosfera camp e teatral é firme o bastante para nos entreter como pode.
Lembrando que a série está disponível no Disney+.



