Will Gluck tem tido um sucesso considerável no cenário das comédias adolescentes e românticas, tendo encontrado aclame e popularidade após comandar a clássica ‘A Mentira’, que apresentou aos cinéfilos uma releitura muito bem-vinda e inteligentemente metalinguística de ‘A Letra Escarlate’ – além de ter catapultado Emma Stone a um estrelato mundial. Pouco depois, ele encabeçou a subestimada rom-com ‘Amizade Colorida’, com Justin Timberlake e Mila Kunis, retornando ao gênero três anos atrás com a divertida ‘Todos Menos Você’, que se beneficiou do carisma de Glen Powell e Sydney Sweeney. Agora, Gluck reafirma sua predileção pelas comédias românticas com ‘Só Por Uma Noite’, que chega aos cinemas no próximo dia 20 de agosto.
O longa-metragem parte de uma premissa pouco vista dentro desse cenário e nos transporta para um futuro não muito distante onde um decreto do governo dos EUA impede as pessoas a terem relações pré-maritais, com exceção de uma noite ao ano – sim, uma espécie de ‘Uma Noite de Crime’, mas sem todo o sangue e a violência que vimos na conhecida franquia de terror. Imbuídos com um biochip que alerta as autoridades quando os momentos íntimos entre duas ou mais pessoas caminham para uma possível relação sexual, os solteiros têm uma chance de se divertir ao longo de doze horas.

E é aí que conhecemos nossos dois protagonistas: de um lado, temos Owen (Callum Turner), dono de uma pizzaria em Nova York que, no dia em que as celebrações irão começar, descobre que a namorada Malika (Maya Hawke) prefere transar com um dos vizinhos do prédio onde moram a fim de explorar coisas novas – deixando-o sozinho na única noite do ano em que o sexo é permitido. De outro, Allie (Monica Barbaro), uma aspirante à música que empresta sua voz para diversos jingles comerciais, ainda sonha em encontrar alguém com quem tenha uma conexão, percebendo que a tarefa é muito mais difícil do que imagina.
Como poderíamos imaginar, o caminho dos dois se cruza da maneira mais inesperada possível e, a princípio, somos engolfados em uma espécie de trama que se desenrola para um enemies-to-friends-to-lovers que traz elementos a emblemas como ‘10 Coisas que Eu Odeio em Você’ e ‘O Jogo do Amor’ – mas diluídos em uma comedida narrativa que tem mais enfoque na construção de dois personagens distintos e, ao mesmo tempo, complementares. O encontro entre os dois não é um dos melhores, mas, navegando pelas atribulações e pelas burocracias de ter alguém com quem compartilhar aquela noite, os dois continuam a se esbarrar até perceberem que, talvez, o destino esteja agindo sobre eles.

Gluck encontra terreno de sobra para construir um enredo que seja bastante emulativo, mas que traga um certo tempo de originalidade, principalmente por oferecer uma cândida e sutil crítica à ideia de obediência cega ao governo e à forma como aqueles no poder querem controlar os outros. À medida que o filme se desenrola, comentários breves sobre uma situação que não está longe de ser verdade nos EUA, principalmente com a administração Trump, ajudam a trazer ritmo e dinamismo para tropos bastante conhecidos das rom-coms e tentam mostrar que o sexo é algo natural e não deve ser demonizado.
Por mais que algumas escolhas não surtam o efeito desejado, o coração do projeto está no lugar, com o diretor apresentando algumas incursões interessantes na parte estética, ainda mais quando se alia com uma paleta de cores movida a luzes neon, que reflete o caráter vibrante e efervescente de uma cidade que tem muito a oferecer. É claro que o roteiro, assinado por Travis Braun, se vale de clichês inescapáveis, mas mesmo os diálogos mais superficiais ganham uma cadência diferente com o ótimo trabalho de Turner e Barbaro – que funcionam tanto dentro de seus arcos quanto quando estão juntos, desfrutando de uma química que explode em cena e que torna impossível desviar os olhos das empreitadas em que se veem.

Conforme os atos vão se desenrolando, a comicidade vai se transformando em uma escolha bastante concisa e reduzida – um fato que, talvez, não agrade a todos os cinéfilos. Porém, Gluck e Braun tem uma ideia muito clara em mente: garantir que a comédia dê lugar a um romance simples e efetivo que se beneficia da presença dos protagonistas e de coadjuvantes que, apesar de restritos às fórmulas do gênero, cumprem com o que lhes é designado.
‘Só Por Uma Noite’ é uma grata adição à filmografia de Will Gluck, que cada vez mais se sagra um dos nomes sobressalentes das rom-coms – e, apesar de não carregar a genialidade de ‘A Mentira’, alcança um sucesso aprazível ao garantir que Callum Turner e Monica Barbaro sejam os regentes dessa irrefreável e despojada epopeia sexual distópica.



