Crítica | ‘DIU’ – Quando o desconforto vai bem além do prato principal [Kinoforum 2026]

O cinema é um lugar onde a criatividade pode dar as mãos às mensagens diretas, revelando a força de um chocar capaz de chacoalhar as reflexões até mesmo de quem, em um primeiro momento, não vai entender as sugestões oferecidas. É seguindo por esse caminho que um filme paulista, que eu vi no Kinoforum 2026, mostra que o desconforto pode ir muito além do prato principal.

Dando um elegante e inteligente tapa na cara do machismo, que deixa suas marcas numa mesmice de acontecimentos, e puxando o foco para uma personagem feminina que tem muito a dizer, o curta-metragem DIU essa do desconforto para chamar a atenção para situações que estão enraizadas em nossa sociedade.

Durante um jantar em um lugar chique, um homem (Johnnas Oliva) e uma mulher (Bella Camero) na faixa dos 30 anos estão à mesa, prontos para iniciar seus pedidos. O que começa como um provável início de um flerte, no qual percebemos as intenções já nas primeiras palavras, logo se transforma em uma situação repleta de tensão quando uma das partes revela um acontecimento vivido em outro país.

Selecionado para a Mostra Brasil 12 – Fantasmas In-Pertinentes, do Kinoforum 2026, esse projeto dirigido por Camila Schincaglia constrói, tijolo por tijolo, a crescente de sua narrativa rumo a um clima de tensão. Contribuem para isso uma série de impactos com seus experimentos na linguagem, como as escolhas por alguns específicos movimentos de câmera, que aprimoram o que está sendo dito e provocado, aprimorando a tensão também através de uma sonoridade marcante.

O roteiro atravessa com bastante eficiência a quebra de expectativa, algo fundamental para fisgar o público, construindo uma linha de diálogos envolventes que exploram o tema de forma acachapante, afiando seu horror social e apontando, com todos os dedos, o monstro dessa metáfora social. Tudo isso ganha ainda mais impacto com a atuação marcante de Bella Camero.

Depois de passagens em outros eventos audiovisuais, como o Festival do Rio, DIU apresenta seu terror para também se chegar a uma crítica ao descaso em nossa sociedade sobre diversos outros assuntos que, além do seu tema central, circulam de forma polêmica discussões na realidade que nos cerca, como o aborto, compondo um retrato cheio de possibilidades para quem quiser refletir.

 

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Raphael Camacho
Raphael Camachohttps://guiadocinefilo.blogspot.com.br
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.