À beira-mar, histórias do litoral norte chegam às telas no 6º Citronela DOC

Banhada pelo frescor do mar e pelo som de suas águas, a 6ª edição do Citronela Doc faz da paisagem paradisíaca de Ilhabela um personagem especial em meio às inúmeras histórias que se projetam nas telas. O silêncio de uma sala cheia é perfurado pelo romper das ondas e as trilhas sonoras dos curtas que aqui se entregam aos braços da audiência ganham o eco extra dos pássaros que insistem em voar por entre as árvores, nos lembrando que tudo o que alcança os olhos de fato lhes pertence.

Essa mistura entre poesia e realismo é o que dita o ritmo singular desse festival de documentários que celebra o litoral norte e suas miudezas escondidas em comunidades desconhecidas e relatos fascinantes. Uma celebração da cultura local, o 6º Citronela Doc é como um presente raro em meio às banalidades da vida cotidiana nas grandes metrópoles. A cidade turística se transforma em palco de cinema. E o festival materializa a conhecida frase de Christopher McCandless: “A felicidade só é real quando compartilhada”. Isoladas, as histórias exibidas nas telas poderiam ser apenas memórias e experiências individuais. Quando a luz do projetor se acende, porém, elas passam a pertencer a todos.

E essa é a bússola que nos leva pelas lembranças dos moradores de São Luiz do Paraitinga, após a enchente de 2010, no curta Janelas da Memória. A mesma que também nos apresenta às irmãs Gilda e Simone Godoy, que conduzem a cooperativa Coco & Cia, em Ubatuba. Em Resíduos de Esperança, elas compartilham sua trajetória admirável na gestão de resíduos sólidos e o impacto socioambiental que esse trabalho gera na comunidade.

Compartilhar experiências como essas vai além de um registro em vídeo. Como personagens reais fascinantes que constroem seus pequenos universos distantes dos holofotes, o Citronela Doc também expande nossa compreensão sobre a contação de histórias. Transformando as rodas de conversa em experiências sinestésicas sobre microrealidades tão poderosas, o festival é um convite para os de dentro para se enxergarem como os genuínos protagonistas que são, à medida que atrai turistas de fora para se aventurarem pelo desconhecido que chega às telas de cinema – estrategicamente localizadas o mais próximo do oceano.

“Kaeté”, de Pedro Ciampolini

Essa intencionalidade fala conosco a todo momento. Ela está lá em “Kaeté”, aclamado curta de Pedro Ciampolini. Após passar por festivais ao redor do mundo, chega a Ilhabela para coroar o litoral norte de São Paulo, com uma narrativa fascinante sobre um obstinado observador de pássaros em busca de uma ave rara. A jornada deste homem ainda se cruza com a de um surfista que segue atrás da onda que desafie seus sentidos e habilidades, enquanto reflete sobre sua conexão com Ubatuba. Isso ainda é elevado pelas habilidosas mãos de um homem, que transforma o bambu em construções inteiras. Tudo está conectado pelo viver na natureza. E tudo isso está entrelaçado nas fibras que formam os fundamentos da Associação Cultural Citronela, que desde 2018 tem trabalhado para levar arte, entretenimento e legado por meio do cinema.

A natureza das coisas

Resíduos de Esperança”, Roseane Moura

Entre aldeias, quintais e margens de rio, os curtas regionais do 6º Citronela DOC revelam que a natureza nunca está apenas ao redor. Ela também habita nos gestos, nas histórias e na quietude de quem aprendeu a escutá-la. Em Menina Moça e a Cobra de Duas Cabeças, na aldeia Guajajara, uma antiga advertência acompanha as meninas depois da primeira menstruação: a cobra de duas cabeças permanece à espreita, como uma lembrança viva de que certos mistérios não desaparecem — apenas aguardam o momento de serem vistos. Para contar essas histórias, os filmes também escapam dos formatos tradicionais. Misturam stop motion, montagens e técnicas de animação que fazem o real ganhar novos contornos diante dos olhos.

Em “Renato Canoeiro Caiçara”, troncos se transformam em canoas pelas mãos de um artesão. A madeira ganha se torna uma conexão entre gerações, carregando consigo a memória de um ofício e as águas que o mantêm vivo. Mais adiante, em A Força da Raiz”, duas mulheres idosas conduzem o público pela mata, seu laboratório a céu aberto. Entre folhas, raízes e crenças, elas guardam uma sabedoria ancestral sobre a cura e devolvem às plantas o lugar de onde nunca deveriam ter saído. E cada escolha estética amplia essas narrativas. O que poderia ser apenas um registro torna-se uma aventura hipnotizante, capaz de transformar a passagem do tempo em encantamento.

Em Narrativas ao Sol, nos quintais de Ilhabela, a fotografia se aproxima das mulheres como quem chega devagar, com cuidado. Ali, memória, território e ancestralidade brotam entre ervas cultivadas e saberes passados ao longo de décadas. São registros históricos que não se acha nos livros. Relatos que, projetados à beira-mar, lembram que assistir a um documentário não precisa ser monótono ou cansativo — sobretudo para quem não está acostumado ao gênero. Pode ser uma redescoberta da vida real por uma ótica muito mais fascinante: a terra sob os pés, o sal na pele, a luz na tela e a vida que insiste em florescer.

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