E se todos os nossos pensamentos intrusivos e ansiedades irracionais fossem condensados em uma das melhores peças do ano?
É isso que o espetáculo, cujo título é emprestado à pergunta do parágrafo anterior e entrando em sua última semana de apresentações no Instituto Brasileiro de Teatro, se propõe a oferecer ao público. Ao longo de uma hora e meia de puro frenesi cênico, o elenco formado por oito talentosíssimos atores nos convida a uma jornada por todas aquelas controversas e complexas perguntas das quais fugimos – e que, eventualmente, seremos forçados a enfrentar. Estendendo-se nos moldes de um programa de esquetes e nos apresentando a diversas situações que borram as linhas entre a comédia e o drama e, por muitas vezes, tateias pelas “áreas cinzentas” da própria moral, a peça reúne os melhores elementos do que queremos ver nos palcos e os rearranja a seu bel-prazer de modo a nos envolver sem muitas dificuldades – e apoiando-se no talento insuperável de seu corpo criativo.
A peça é dirigida por Vitor Julian, a partir da dramaturgia que ele mesmo assinou ao lado de seus colegas da Cia. Tectônica, e logo de cara percebemos uma vibrante originalidade artística que não engessa o público como mero espectador, mas o convida, de maneira ativa, a participar das retóricas perguntas e das infames situações que navegam pela tênue linha entre o particular e o individual. Não é surpresa que a narrativa tenha início de fato com duas perguntas: “e se eu me jogasse nos trilhos do metrô?” e “e se eu estivesse carregando uma bomba?”.
As inusitadas situações, que não são empiricamente palpáveis e reais, pertencem a um grupo de sinapses que conhecemos como pensamentos intrusivos – ou seja, reflexões impetuosas de coisas que não aconteceram ou não estão acontecendo e que, em questão de segundos, nos envolvem em uma espiral de dúvidas que se ramificam até se transformarem em uma bola de neve de ansiedades e palpitações. Não é surpresa que essas breves duas perguntas se transformem no mote principal da narrativa, que se aventura desde a um relacionamento prestes a falir – e com menções a Marina Abramović e a Ulay em sua infame despedida na Muralha da China; à busca inescapável de encontrar alguma linha condutora na caótica psique humana; à necessidade de se impor quando preciso; e a uma constatação um tanto quanto melancólica de que a única certeza do tempo é sua brutal inexorabilidade e efemeridade.
São vários os elementos que ganham destaque no espetáculo – e que vão para além de uma honestidade narrativa pungente e sem pudor que consegue manejar a dose certa de risos e de momentos mais solenes ou derradeiros. A direção de Julian traz elementos do teatro do absurdo, mas em uma forma mais contida e mais controlada, deixando que o caos ganhe vida pelo conteúdo de que se dispõe; o texto é vibrante e não perde a mão em momento algum, garantindo um equilíbrio eCiantre um ritmo mais rompante e cenas mais densas que prezam por um melodrama certeiro e que brinca com o movimento entre o individual e o coletivo; a cenografia, assinada por Julian e Felipe Lanzas, materializa a máxima da “pedrinha no sapato” em um proposital exagero que toma proporções catastróficas à medida que os anseios se tornam mais intrincados; e o figurino de Marcos Valadão vem como a cereja do bolo desse despojado e envolvente primor técnico, colocando os atores em divertidas roupas esportivas.
O destaque maior, entretanto, destina-se ao elenco: formado pelos talentosos Anita Prades, Camila Fávero, Isabella Sabino, Jeferson Kuci, Júnior Moreira Bordalo, Lilian Alves e Victória Pozzan, o time de atores nos abraça em performances memoráveis e que, esquadrinhando uma fatia muito peculiar da comédia nonsense, garantem nossa total atenção. Mas o que mais nos encanta é a forma magnética como os atores enlaçam as múltiplas cenas que protagonizam, nos fisgando com entregas que são nada menos que inebriantes e dignas de aplauso.
‘E Se?’ encontra a maneira certa de transformar o desconfortável em confortável e o banal em uma interessante análise psíquica de tudo o que nos tira o sono e tudo que insiste em nos atormentar dia a dia – desde pensamentos corriqueiros que saltam à mente no momento mais inapropriado, até perguntas dolorosas que, uma hora ou outra, deverão ser respondidas. E é em meio a essa beleza nada convencional que a peça se torna uma das melhores de 2026, merecendo ser apreciada em toda sua completude.



