Outubro chegou e o CinePOP continua sua contagem regressiva para o Halloween com o especial 31 Dias de Terror, trazendo uma dica por dia para quem quer atravessar o mês mergulhado em sustos, monstros, assassinos, fantasmas e todas aquelas delícias que fazem do terror um dos gêneros mais apaixonantes do cinema. Depois de abrirmos a maratona com ‘A Autópsia’, nossa segunda escolha viaja diretamente para os anos 1980, quando vampiros usavam jaquetas de couro, andavam de motocicleta, ouviam rock, tinham cabelos absolutamente inacreditáveis e conseguiam ser assustadores e irresistivelmente cool ao mesmo tempo. A dica do Dia 2 é simplesmente ‘Os Garotos Perdidos’ (‘The Lost Boys’), clássico de 1987 dirigido por Joel Schumacher que envelheceu como uma cápsula perfeita de uma época — e continua sendo uma das experiências mais divertidas que o cinema de vampiros já nos deu.
A história começa quando Lucy (Dianne Wiest) decide recomeçar a vida e se muda com os filhos Michael (Jason Patric) e Sam (Corey Haim) para a aparentemente pacata Santa Carla, na Califórnia. Só existe um pequeno problema: há jovens desaparecendo por toda parte e alguma coisa definitivamente estranha acontece depois que o sol se põe. Michael logo cruza o caminho de Star (Jami Gertz) e acaba entrando no círculo de David (Kiefer Sutherland), líder de uma gangue de motoqueiros que parece ter saído de um videoclipe de rock dos anos 80. Enquanto isso, Sam conhece Edgar (Corey Feldman) e Alan Frog (Jamison Newlander), dois irmãos obcecados por histórias em quadrinhos que garantem conhecer a verdadeira explicação para tantos desaparecimentos: Santa Carla está infestada de vampiros.
E é justamente aí que mora a magia de ‘Os Garotos Perdidos’. Schumacher percebeu que não precisava tratar vampiros como criaturas presas a castelos empoeirados, capas pretas e cemitérios cobertos de neblina. Seus vampiros são jovens, bonitos, perigosos e sedutores. Eles frequentam parques de diversão, correm de motocicleta pela praia, vivem em uma espécie de esconderijo subterrâneo e carregam a rebeldia típica da juventude. O resultado parece um casamento improvável — e maravilhoso — entre filme adolescente, videoclipe da MTV, comédia e horror. O próprio Schumacher reconheceu posteriormente a influência que a linguagem dos videoclipes exerceu sobre a liberdade visual do longa, permitindo que o filme abraçasse imagens surreais e uma narrativa muito mais estilizada.
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Curiosamente, o filme quase foi bem diferente. A ideia original envolvia vampiros muito mais jovens, aproximando o projeto de uma aventura infantil à la ‘Os Goonies’. Quando Schumacher assumiu o comando, os personagens foram envelhecidos e a história ganhou a sensualidade, a rebeldia e a atmosfera adolescente que acabariam definindo o longa. Foi uma mudança fundamental: em vez de crianças enfrentando monstros, tínhamos adolescentes perigosamente atraídos por um mundo proibido. E poucos atores representaram tão bem essa ideia quanto Kiefer Sutherland. Com o cabelo loiro espetado, olhar ameaçador e um carisma absurdo, David virou um daqueles vilões que parecem dominar o filme mesmo quando não estão na tela.
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E existe uma curiosidade deliciosa envolvendo o próprio Kiefer: segundo registros dos bastidores, o ator inicialmente não estava totalmente convencido a participar do projeto. Uma das coisas que ajudaram a despertar seu interesse foi descobrir que INXS e Jimmy Barnes estariam envolvidos na trilha sonora — artistas dos quais ele já era fã. Não poderia haver combinação mais perfeita, porque falar de ‘Os Garotos Perdidos’ sem falar de música é praticamente impossível. A trilha é parte da personalidade do filme e inclui a inesquecível ‘Cry Little Sister’, composta especialmente para o longa, além de transformar aquela apresentação exageradíssima de saxofone na praia em uma das imagens mais gloriosamente oitentistas já colocadas em uma tela de cinema.
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O longa também marcou um encontro importantíssimo da cultura pop dos anos 80. Foi aqui que Corey Haim e Corey Feldman trabalharam juntos pela primeira vez, dando início à dupla que ficaria conhecida como ‘The Two Coreys’ e voltaria a dividir a tela em vários outros projetos. Em ‘Os Garotos Perdidos’, Haim está absolutamente adorável como Sam, enquanto Feldman transforma Edgar Frog em uma caricatura hilária de herói de ação. E isso não aconteceu por acaso: Feldman contou que Schumacher pediu que ele assistisse a filmes de Sylvester Stallone e Chuck Norris para construir o personagem. Basta rever sua voz exageradamente grave e sua postura de exterminador profissional de vampiros para perceber que ele levou a tarefa muito a sério.
Outro ingrediente fundamental é Santa Carla. A cidade do filme é fictícia, mas boa parte das filmagens aconteceu em Santa Cruz, na Califórnia, incluindo seu famoso Beach Boardwalk. O lugar se tornou tão associado ao clássico que o filme continua sendo exibido por lá em sessões especiais de verão. E há outro pedacinho maravilhoso do longa que sobreviveu ao tempo: o gibi ‘Vampires Everywhere!’, consultado por Sam na história, foi criado especificamente para a produção, e um exemplar original permaneceu ligado à loja de quadrinhos Atlantis Fantasyworld, em Santa Cruz. É uma daquelas situações em que filme e cidade acabaram se misturando de tal maneira que fica difícil imaginar um sem o outro.
E pensar que tudo isso custou relativamente pouco para os padrões de Hollywood. O orçamento estimado foi de cerca de US$ 8,5 milhões, enquanto a arrecadação nos Estados Unidos e Canadá chegou a aproximadamente US$ 32,3 milhões. Mais importante do que os números, porém, foi o que aconteceu depois. ‘Os Garotos Perdidos’ atravessou gerações, tornou-se um clássico cult e ajudou a consolidar uma imagem muito diferente do vampiro cinematográfico. Atualmente, o longa mantém 75% de aprovação da crítica e 85% do público no Rotten Tomatoes, um ótimo sinal de como aquela maluquice oitentista continua funcionando décadas depois.
Também é fascinante perceber o quanto o filme não tem vergonha de ser extravagante. Há néon, fumaça, cabelos gigantescos, jaquetas de couro, sangue, motocicletas, quadrinhos, taxidermia, romance adolescente e vampiros pendurados por todos os lados. Schumacher não tenta transformar esse universo em algo sisudo ou excessivamente sério. Pelo contrário: ele entende que terror também pode ser divertido, sensual, colorido e deliciosamente exagerado. Talvez seja exatamente por isso que o longa tenha preservado tão bem sua personalidade. Muitos filmes daquela década envelheceram tentando desesperadamente parecer modernos; ‘Os Garotos Perdidos’ envelheceu justamente porque nunca tentou esconder aquilo que era.
E existe ainda uma camada especialmente bonita quando revisitamos o longa hoje. Corey Haim, morto em 2010 aos 38 anos, permanece eternizado naquela versão jovem, engraçada e cheia de energia de Sam. Joel Schumacher, que morreu em 2020, deixou aqui uma de suas obras mais queridas. E aquele elenco que parecia representar o futuro de Hollywood virou uma fotografia muito particular de uma geração. Assistir ao filme quase quatro décadas depois traz uma nostalgia curiosa até para quem não viveu os anos 80: é como visitar um verão que talvez nunca tenha existido de verdade, mas do qual inexplicavelmente sentimos saudade.
Por isso, nossa segunda dica dos 31 Dias de Terror do CinePOP é perfeita para quem não está procurando apenas sustos. ‘Os Garotos Perdidos’ é terror para assistir sorrindo, aumentar o volume da televisão e desejar secretamente passar uma noite naquele parque de diversões — desde que você não aceite beber nada oferecido por Kiefer Sutherland. É estiloso, engraçado, estranho, romântico, cafona na medida certa e absolutamente apaixonante. Quase 40 anos depois, aqueles garotos continuam perdidos. E nós continuamos querendo encontrá-los.
31 DIAS DE TERROR – CINEPOP
Dia 1: ‘A Autópsia’
Dia 2: ‘Os Garotos Perdidos’
Amanhã tem mais uma indicação para continuar nossa maratona até o Halloween.

