Outubro chegou e o CinePOP continua sua contagem regressiva para o Halloween com o especial 31 Dias de Terror, trazendo uma dica por dia para quem quer passar o mês cercado por monstros, assassinos, fantasmas, criaturas sobrenaturais e alguns dos filmes mais deliciosamente assustadores já realizados. Depois de começarmos com ‘A Autópsia’ e viajarmos diretamente para os anos 1980 com ‘Os Garotos Perdidos’, chegou a hora de voltar às origens de uma das maiores lendas do horror. E dificilmente existe maneira mais bonita, sangrenta, sensual e completamente exagerada de fazer isso do que com ‘Drácula de Bram Stoker’ (‘Bram Stoker’s Dracula’), obra-prima gótica lançada em 1992 e dirigida por Francis Ford Coppola.
Sim, o mesmo cineasta responsável por ‘O Poderoso Chefão’, ‘O Poderoso Chefão: Parte II’ e ‘Apocalypse Now’ decidiu colocar toda sua obsessão visual a serviço do vampiro mais famoso da história. E o resultado não se parece muito com nenhum outro Drácula. Aqui temos sangue escorrendo pelas paredes, sombras que ganham vida própria, vestidos gigantescos, lobos, crucifixos, armaduras vermelhas, castelos, sexo, religião, desejo e um Gary Oldman completamente possuído pelo personagem. Coppola não queria simplesmente contar novamente a história escrita por Bram Stoker em 1897. Ele queria fazer um espetáculo cinematográfico que parecesse ter sido criado em algum lugar entre um pesadelo, uma pintura e os primeiros anos do próprio cinema.
A trama acompanha Jonathan Harker (Keanu Reeves), um jovem advogado enviado para a Transilvânia com a missão aparentemente simples de auxiliar o misterioso Conde Drácula em uma negociação imobiliária. O problema começa quando Drácula vê uma fotografia da noiva de Jonathan, Mina Murray (Winona Ryder), e acredita reconhecer nela o grande amor que perdeu séculos antes. O Conde então parte para Londres, onde começa uma mistura de sedução, obsessão e carnificina que acaba colocando Jonathan, Mina e sua amiga Lucy (Sadie Frost) no caminho do excêntrico professor Abraham Van Helsing (Anthony Hopkins).
Mas esqueça por alguns minutos a história. ‘Drácula de Bram Stoker’ precisa ser visto principalmente por causa da maneira como essa história é contada. Coppola realizou o filme em uma época em que Hollywood estava começando a perceber as possibilidades dos efeitos digitais, mas decidiu seguir praticamente na direção contrária. O diretor queria recuperar técnicas utilizadas pelos pioneiros do cinema. Projeções, miniaturas, múltiplas exposições, cenários, truques de perspectiva, sombras, maquiagem e efeitos realizados diretamente diante da câmera foram empregados para criar aquele mundo. Roman Coppola, filho do diretor, teve papel fundamental nessa abordagem visual. Décadas depois, ele explicou que a equipe pesquisou profundamente antigas técnicas utilizadas por artistas e técnicos das primeiras eras de Hollywood.
É por isso que algumas imagens ainda parecem inacreditáveis. A sombra de Drácula se movimenta independentemente de seu corpo. Um trem atravessa uma paisagem enquanto olhos gigantescos surgem no céu. Uma névoa verde invade um quarto e começa a tomar forma. Nada precisa parecer completamente realista porque Coppola não está tentando criar realidade. Ele está criando cinema. Existe algo artesanal em cada quadro, como se estivéssemos vendo um mágico realizar um truque diante dos nossos olhos e, mesmo sabendo que existe alguma técnica escondida ali, ainda não conseguimos entender completamente como aquilo foi feito.
E então existe Gary Oldman. É difícil imaginar outro ator interpretando esta versão do personagem porque ele parece viver cinco personagens diferentes dentro do mesmo filme. Primeiro surge como aquele velho aristocrata de pele quase branca e penteado absolutamente inacreditável. Depois aparece rejuvenescido, elegante e sedutor pelas ruas de Londres. Em outros momentos se transforma em criatura animalesca, morcego e monstro. Mas a maior façanha de Oldman está em fazer com que, em meio a toda aquela maquiagem e teatralidade, exista alguma coisa genuinamente trágica naquele homem.
Essa talvez tenha sido uma das decisões mais importantes do filme. O Drácula de Coppola não é simplesmente uma criatura que precisa ser destruída. Ele é também um homem condenado a atravessar séculos carregando uma paixão que nunca conseguiu abandonar. O filme transforma a história em um grande romance trágico e faz da relação entre Drácula e Mina o coração da narrativa. Isso certamente altera elementos da obra de Bram Stoker, mas também cria uma identidade própria tão forte que acabou influenciando inúmeras representações posteriores do vampiro na cultura popular.
E se Gary Oldman é o coração sombrio do filme, Anthony Hopkins simplesmente decide se divertir. Seu Van Helsing é excêntrico, imprevisível, inteligente e às vezes completamente insano. Já Winona Ryder dá a Mina uma mistura de inocência e desejo que funciona perfeitamente dentro daquele universo. E sim, temos Keanu Reeves, cuja tentativa de sotaque britânico acabou virando uma das partes mais discutidas do filme ao longo dos anos. Curiosamente, isso hoje quase faz parte do charme da experiência. ‘Drácula’ é tão exagerado em absolutamente tudo que até seus elementos mais estranhos parecem combinar com a proposta.
Mas talvez ninguém tenha entendido melhor essa extravagância do que Eiko Ishioka. Coppola queria que os figurinos tivessem tanta importância que, segundo a própria Academia de Hollywood, chegou a imaginar que as roupas deveriam funcionar praticamente como os cenários do filme. Ishioka respondeu criando algumas das peças mais extraordinárias da história recente do cinema. A armadura vermelha de Drácula parece formada por músculos expostos. O enorme traje vermelho utilizado pelo Conde envelhecido quase transforma o personagem em uma entidade religiosa. Vestidos e acessórios carregam símbolos que ajudam a contar a história antes mesmo que alguém abra a boca.
Hollywood percebeu. Na cerimônia do Oscar de 1993, ‘Drácula de Bram Stoker’ recebeu quatro indicações e venceu três: Melhor Figurino, para Eiko Ishioka, Melhor Maquiagem e Melhor Edição de Efeitos Sonoros. Também foi indicado por sua direção de arte. Três Oscars para um filme de terror gótico extremamente sangrento e sexual lançado por um grande estúdio já seriam impressionantes hoje. No início dos anos 1990, era ainda mais.
O público também comprou a loucura de Coppola. Produzido por cerca de US$ 40 milhões, o filme estreou nos Estados Unidos em 13 de novembro de 1992 e arrecadou aproximadamente US$ 30,5 milhões somente em seu primeiro fim de semana. Terminou sua passagem pelos cinemas com cerca de US$ 82,5 milhões nos EUA e Canadá e impressionantes US$ 215,8 milhões mundialmente, mais de cinco vezes seu orçamento de produção. Para um romance gótico de mais de duas horas sobre um vampiro condenado pelo amor, não foi exatamente pouca coisa.
E existe algo especialmente interessante quando voltamos ao filme hoje. Em uma época em que praticamente qualquer criatura, cenário fantástico ou transformação pode ser criada digitalmente, ‘Drácula de Bram Stoker’ parece ainda mais bonito justamente por carregar pequenas imperfeições. Você sente que existem objetos diante da câmera. Você percebe tecidos, fumaça, maquiagem, luz e sombras. Aquilo possui peso. Existe textura. Existe cor. E existe uma sensação quase esquecida de que estamos diante de pessoas inventando soluções visuais em vez de simplesmente procurando a maneira mais realista de representar alguma coisa.
Talvez por isso o longa tenha envelhecido tão bem. Atualmente, mantém 69% de aprovação entre os críticos e 79% entre o público no Rotten Tomatoes. Mais interessante ainda é perceber como sua reputação cresceu ao longo das décadas. Aquilo que em 1992 poderia parecer excessivo hoje é justamente o que torna o filme tão especial. ‘Drácula’ não tem vergonha de ser romântico. Não tem vergonha de ser erótico. Não tem vergonha de ser sangrento. E definitivamente não tem vergonha de ser bonito.
A trilha composta por Wojciech Kilar completa a experiência. Poucas músicas conseguem anunciar tão rapidamente que alguma coisa terrível está chegando. Os corais, os metais e aquele tema gigantesco de Drácula fazem cada aparição do personagem parecer o início do fim do mundo. E quando os créditos chegam, ainda temos Annie Lennox cantando ‘Love Song for a Vampire’, encerrando tudo como se tivéssemos acabado de assistir a uma história de amor condenada desde o primeiro minuto.
E talvez essa seja a melhor definição possível para o filme. ‘Drácula de Bram Stoker’ é um romance monstruoso. É uma história em que amor, sexo, religião, morte e sangue existem praticamente no mesmo lugar. Coppola pegou um personagem que o cinema já havia mostrado incontáveis vezes e encontrou uma maneira de fazê-lo parecer novamente perigoso, sensual e profundamente triste.
Por isso, nossa terceira dica dos 31 Dias de Terror do CinePOP é para quem sente falta de filmes que não tenham medo de serem grandes, estranhos e visualmente apaixonantes. Apague as luzes, aumente o volume e permita que Gary Oldman entre na sua casa. Apenas tome cuidado se ele disser que nunca bebe… vinho.
31 DIAS DE TERROR – CINEPOP
Dia 1: ‘A Autópsia’
Dia 2: ‘Os Garotos Perdidos’
Dia 3: ‘Drácula de Bram Stoker’
Amanhã tem mais uma indicação para continuar nossa maratona até o Halloween.


