Crítica de Temporada | ‘Lanternas’ aposta em um thriller de mistério e entrega uma das melhores séries do ano

Cuidado: muitos spoilers à frente.

Depois de uma série de fracassos críticos e comerciais, o DCEU foi oficialmente encerrado na Warner Bros.. Não levou muito tempo até que James Gunn e Peter Safran fossem escalados como co-CEOs do estúdio, dando início a uma nova era de super-heróis que teve início com a aclamada animação ‘Comando das Criaturas’ e que se consolidou no ano passado nos cinemas com o lançamento do aguardado ‘Superman’. Com uma sólida arrecadação de bilheteria e críticas bastante positivas, o longa estrelado por David Corenswet trouxe uma centelha de esperança ao recém-fundado DCU – apenas para encontrar o primeiro percalço com ‘Supergirl’, que dividiu a crítica ao redor do mundo e que se tornou um fracasso financeiro.

Enfrentando um considerável obstáculo logo de cara, o panteão super-heroico começou a deixar os fãs preocupados com a recepção da série ‘Lanternas’, da HBO, imaginando qual seria o destino de uma das produções seriadas mais aguardadas de 2026. E, ainda que tenha atraído comentários inexplicavelmente negativos pelos internautas por “não funcionar como uma boa adaptação da mitologia dos Lanternas Verdes”, a atração criada por Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King é uma gema televisiva contemporânea que une o melhor dos thriller detetivescos às histórias de suspense em uma amálgama de ‘Slow Horses’ e ‘True Detective’ que nos mantém vidrados do começo ao fim.

A temporada de estreia estende-se por oito gloriosos episódios que sabem exatamente o que querem nos contar – e nos apresentam a dois momentos diferentes de uma cíclica narrativa de mentiras, traições e uma exploração da “área cinzenta” da moral. Um deles nos leva para 2016 e é centrado no conturbado relacionamento entre Hal Jordan (Kyle Chandler), o atual Lanterna Verde que, escolhido por um poderoso anel, se tornou o primeiro pacificador interestelar terráqueo; e John Stewart (Aaron Pierre), que desponta como uma anomalia ao ter sido escolhido pelos Guardiões do Universo em vez do anel para ser o próximo Lanterna Verde a proteger a Terra. Em constante conflito por causa de personalidades tão distintas, Hal e John viajam até Rushville, Nebraska, para investigar uma possível aparição alienígena que se transforma em uma luta pela sobrevivência e em uma conspiração que envolve cada um dos habitantes da peculiar cidade.

A dupla, então, descobre que Rushville é lar de uma Caçadora Cósmica que adotou o alter-ego de Zoe Macon (Poorna Jagannathan), aliando-se ao magnata Will Macon (Garret Dillahunt) e à xerife Kerry Kane (Kelly Macdonald) para transformar o lugar em uma espécie de refúgio, protegendo-os de qualquer mal e garantindo a prosperidade de todos ali – isto é, até a chegada do Lanterna Verde e de seu discípulo. Em meio a reviravoltas inesperadas, o confronto inevitável entre os dois lados do tabuleiro transforma Rushville em um cenário de guerra que estende seus corolários mesmo uma década mais tarde – ou seja, quando a segunda parte do enredo se desenrola.

Enxergado como personas non gratas em virtude de toda a destruição pela qual foi responsável, John é chamado por Kerry de volta para investigar o assassinato de Hal, cujo corpo foi encontrado imóvel numa arquibancada, alvejado no crânio e despossuído do anel que lhe confere os poderes do Lanterna Verde. Ele, então, é compelido a investigar o que aconteceu e descobre que a história tende a se repetir à medida que novos segredos vêm à tona e que todo o duro treinamento pelo qual passou o levou àquele exato momento.

Desde a estreia da série, Mundy, Lindelof e King deixaram bem claro que não tinham qualquer intenção de construir uma história essencialmente de super-heróis – e sim incorporar as clássicas incursões do gênero a um complexo estudo de personagens e a uma análise do intrincado funcionamento da humanidade em seu âmago. Em outras palavras, os protagonistas e coadjuvantes não funcionam como arquétipos convencionais, mas construções multifacetadas que tentam encontrar um equilíbrio entre o que é certo e o que é fácil – seja na problemática e egoística jornada de Hal até uma quase redenção espiritual, seja na derradeira sisudez com que John foi pintado. Assim, trabalhar os componentes cênicos para isolá-los em seus respectivos arcos foi uma jogada sagaz para colocá-los em rota inescapável de colisão com a realidade à sua volta.

Para além de um comprometimento artístico e técnico de tirar o fôlego, o trio de realizadores escala um elenco de peso que se entrega de corpo e alma aos respectivos papéis que encarnam. O destaque maior, como ficou claro, vai a Chandler e Pierre em uma química fabulosa que não tem medo de se arriscar onde pode e que, mesmo em meio a alguns diálogos esquecíveis e certas sequências que poderiam ter sido mais polidas, brilham em sólidas atuações. Jagannathan esconde sua conhecida veia cômica para uma interpretação esplendorosa como Zoe/Caçadora Cósmica, roubando os holofotes com uma rendição sutil e, ao mesmo tempo, recheada de camadas – dividindo a carga dramática que existe em Rushville ao lado da igualmente impecável Macdonald, que ganha maior palanque na segunda metade da temporada.

‘Lanternas’ alcança um nível de qualidade que há muito não víamos em produções super-heroicas e, para o DCU, encontra uma merecida posição no ainda recente pódio que Gunn e Safran vem alimentando. Guiada pela força incomparável de mentes extraordinárias do cenário contemporâneo do entretenimento, o ciclo de estreia da série tangencia a perfeição ao buscar originalidade em território bastante conhecido.

Lembrando que ‘Lanternas’ está disponível na HBO Max.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.