Depois de conquistar alguns prêmios no prestigiado Festival de Berlim deste ano e levar pra casa alguns kikitos no último Festival de Gramado, pousou no Festival do Rio 2026 o escolhido para ser nosso representante no Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional: Feito Pipa.
Ambientado no sertão cearense, esse é um filme que possui uma delicadeza em cada linha do roteiro, que transforma a jornada de um carismático protagonista mirim em um tornado de emoções, impulsionado por uma narrativa cativante, onde a sensibilidade encontra os confrontos, indo da ternura ao rasgar o coração.

Gugu (Yuri Gomes) é um jovem querido por grande parte dos amigos, mesmo sofrendo bullying de alguns. Ele vive intensamente sua infância, não se escondendo de ninguém, sendo quem ele é. Adora jogar futebol e vive com a vó, Dilma (Teca Pereira), em uma casa humilde no sertão cearense. Sua mãe foi vítima de violência e morreu tempos atrás, algo que ainda deixa marcas na família. Seu pai, Batista (Lázaro Ramos), dirige caminhões-pipa e mantém uma relação distante com ele, muito por conta do preconceito enraizado em suas ações. Quando sua avó começa a dar sinais de perda de memória, Gugu precisará lidar com a possibilidade de ter que ir morar com o pai de forma definitiva.

Esse é um filme sobre identidade, relações e como o ‘tempo depois do tempo’ pode trazer aprendizados, mas sem nunca esquecer das memórias que ficam. De fácil identificação, afinal, há muitas relações familiares deterioradas em todos os lugares, a jornada de Gugu simboliza uma estrada que muitas pessoas atravessam, entre a dor e o preconceito, sem perder os cantinhos de esperança que começam a brotar a partir dos afetos que o cercam.

A relação de Gugu com sua avó é o start de uma pré-despedida, de um amadurecimento precoce que se mostra necessário. E, mesmo na iminência de cortar qualquer coração, como é lindo ver o desenvolvimento dessa relação. A obra convida o público a sentir de perto o que vemos, como se puxássemos uma cadeira na casa de Dona Dilma e parássemos ali, entre memórias e sentimentos variados, como observadores dessa história.
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Já a relação com o pai é o contraponto, o lado mais cruel de laços cheios de frágeis remendos. Sem saber lidar com o filho, fruto de um preconceito exposto, Batista se acomoda no não dito, no silêncio que não estanca as dores caladas que Gugu sofre a cada vez que o encontra. Nesse olhar desconfiado do próprio pai, cria-se uma barreira difícil de se quebrar, na qual as marcas do passado ganham novos olhares. A relação estabelecida entre pai e filho diz muito pelas entrelinhas.

Rodado em Quixadá, no Ceará, a obra dirigida por Allan Deberton parece nos guiar para uma jornada de reconstrução de uma relação, mas é muito mais que isso. Nessa complexidade das interações humanas, entre frustrações, dores e diferenças, o filme raspa até o último pingo de tristeza e transforma suas reflexões em um livro de páginas a serem completadas.
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O roteiro é muito bem definido e organizado, segue na linha do convencional, sem inovar, mas chacoalhado as emoções a toda hora, algo que pulsa através da tela. Nem sentimos os cerca de 90 minutos passarem. Além disso, o projeto conta com um elenco harmônico, que transmite, em cada espaço em cena, os mais diversos sentimentos, somado a diálogos que envolvem o público, nos convidando, desde o primeiro minuto, a se emocionar com essa história.

Feito Pipa não é um daqueles filmes para se decifrar, é um daqueles filmes feitos para se sentir. Um belíssimo trabalho que vai conquistar muitos corações.


