Stephen King tem a merecida alcunha de Mestre do Terror por uma variedade de romances que ganharam destaque entre o público e a crítica, incluindo ‘IT: A Coisa’, ‘O Iluminado’, ‘A Dança da Morte’ e incontáveis outras histórias que receberam adaptações para o cinema e para os streamings através dos anos. E uma das assinaturas de King foi seu primeiro livro publicado, ‘Carrie, a Estranha’, que estreou em 1976 em um clássico longa-metragem estrelado pela incrível Sissy Spacek (indicada ao Oscar por sua impecável performance). E, depois de dois remakes que falharam em capturar a essência dos escritos de King, chegou a vez do aclamado realizador Mike Flanagan oferecer sua própria visão com a série homônima que chegou hoje, 7 de outubro, ao catálogo do Prime Video.
A trama nos leva para a cidade de Chamberlain e nos apresenta a Carietta “Carrie” White (Summer H. Howell), uma garota de quinze anos que mora com a mãe superprotetora e religiosa Margaret (Samantha Sloyan) e que passou a vida inteira sem contato com o mundo exterior. Porém, após a morte do pai, Carrie passa a frequentar o Colégio Ewen – mergulhando na caótica e predatória hierarquia escolar que logo revela a ela a verdadeira e complexa natureza do ser humano. Constantemente diminuída pelos comentários pesarosos e pessimistas da mãe, ela conhece a “rainha abelha” do colégio, Chris Hargensen (Alison Thornton), a remoída Sue Snell (Siena Agudong) e outros – e percebe que não pertence a qualquer lugar e que, talvez, Margaret estivesse certa sobre tudo.

Todavia, Carrie não é uma adolescente como as outras. Na verdade, ela é dotada de poderes telecinéticos que começam a se manifestar em momentos de estresse ou tensão, ainda mais quando se torna alvo de bullying constante de Chris e de suas “seguidoras”, percebendo que suas habilidades podem se tornar uma arma para que ela sobreviva a uma perseguição interminável – por mais que isso prenuncie uma tragédia que nos é mostrada no início do episódio piloto: um incêndio desastroso que culmina na morte de centenas de pessoas em Chamberlain e que é traçado diretamente à Carrie.
Flanagan não é nenhum estranho ao universo sobrenatural e do terror, visto que ganhou reconhecimento significativo por seu trabalho em ‘A Maldição da Residência Hill’, fomentando uma gloriosa carreira com incursões como ‘Missa da Meia-Noite’ e ‘A Queda da Casa de Usher’ – que o estabeleceram como um dos autores mais prolíficos e originais da atualidade. E, considerando que ele nos apresentou à sólida adaptação de ‘Doutor Sono’, sequência de ‘O Iluminado’, quem melhor para esquadrinhar a sórdida mente de King que ele?

O resultado é nada menos que espetacular: apoiando-se na exploração nada convencional de temas como ostracismo, amadurecimento compulsório, fundamentalismo religioso e não-conformidade às normas sociais (além do já mencionado bullying), Flanagan constrói um poderoso estudo antropológico e de personagens que é encapsulado pelo primoroso elenco protagonista e coadjuvante. Considerando que estamos lidando com um compilado de oito capítulos de quase uma hora cada, é natural esperar um ritmo mais lento, fincado no slow-burn; todavia, Flanagan e sua equipe de diretores e roteiristas, que inclui a esposa Kate Siegel, dão o pontapé inicial em uma frenética sucessão de eventos que é diluído em um poderoso drama jovem-adulto que acerta em quase todas as investidas.
O destaque principal vai para a fabulosa presença de Howell como apenas o que podemos considerar a melhor encarnação de Carrie White desde Spacek – e que, se a temporada de premiações desse mais destaque a produções de suspense e terror, com certeza garantiria à jovem atriz uma merecida indicação nas principais categorias. Engolfada em um arco de coming-of-age que presume nossa “suspensão de crença” a fim de compreender toda sua personalidade e sua capacidade psíquica, Howell divide os holofotes com a igualmente irretocável Sloyan, que já colaborou com Flanagan em outras produções e que, aqui, nos deixa embasbacados com sua versatilidade artística.

O restante do elenco também tem seu momento de brilhar, com menções a Agudong e Thornston como Sue e Chris, como supracitado, que são pinceladas com mais camadas das que vimos nas outras adaptações audiovisuais; Amber Midthunder como a Srta. Desjardin, professor de Educação Física de Carrie que se torna uma de suas principais aliadas; Matthew Lillard em uma bem-vinda performance como o Diretor Henry Grayle, navegando pelas atribulações do mundo adolescente e rendendo-se a uma covardia moral que é própria de seu personagem; e Joel Oulette como Tommy Ross, namorado de Sue e um dos poucos alunos genuinamente bondosos do Colégio Ewen – e o par de Carrie durante a famosa sequência do baile de fim de ano.
Apesar de se afastar de alguns pontos do romance original, Flanagan tem espaço de sobra para modernizar os conhecidos tropos de King à seu bel-prazer e volta a reiterar seu conhecimento cênico com construções que, mesmo trazendo alguns convencionalismos à tona, são delineados com uma identidade que já se firmou em outras obras encabeçadas pelo realizador. E, no final das contas, é esse respeito com a icônica história que eternizou uma das personagens mais populares de todos os tempos que transforma ‘Carrie, a Estranha’ em uma bem-vinda adição à sua filmografia.
Lembrando que a série já está disponível no catálogo do Prime Video.



