Tem cineastas cujos os filmes, assim que são lançados, vamos correndo assistir. Fabio Meira é um deles. Exímio contador de histórias, apresentando narrativas criativas que nos envolvem do início ao fim, esse goiano de 47 anos vem com uma sequência de filmes fabulosos, como os ótimos Tia Virgínia e Mambembe. Seu novo trabalho, A Extraordinária Vida de Vera Valdez, estreou no Festival do Rio 2026 e, em um Odeon cheio, pudemos nos deliciar com mais uma obra de impacto.
Dessa vez, Meira apresenta Vera Maria Tereza Barreto Valdez, uma personalidade artística não tão conhecida do grande público, mas que marcou presença no mundo da moda e no teatro, que viveu intensamente várias fases de uma vida repleta de histórias. Desde sua forte conexão com a estilista Coco Chanel, pra quem desfilou em seu emblemático retorno após a Segunda Guerra Mundial, em meados da década de 1950, passando pelos intensos amores, pela prisão durante a ditadura, quando sofreu tortura, e por suas participações no Teatro Oficina, de Zé Celso, vamos conhecendo a história de uma mulher que celebrou a liberdade e inspirou com sua eterna arte do viver.
Ao longo de 78 minutos de projeção, em muitos antes e depois, a narrativa investe em um dinamismo com ricos detalhes, com uma câmera que, muitas vezes, se aproxima da protagonista com close-ups que solidificam uma perspectiva íntima, expondo conflitos, um convite no envolver de sensações a partir do que é expresso. A força de ter a própria protagonista contando sua história é fundamental para viajarmos por sua trajetória no mundo artístico e conhecermos histórias pouco faladas, ao mesmo tempo que passeamos, através de fotos e imagens, pela moda e a elegância de uma mulher que sempre esteve à frente de seu tempo.

Nesse registros de memórias, produzidos nos últimos anos de sua vida, tendo um forte olhar carinhoso de Meira, sem deixar de ser bastante preciso, traduzindo em uma poética jornada de imagens e movimentos a proximidade que teve com Vera – a quem conheceu mais de perto durante as gravações de Tia Virgínia -, chegamos em uma obra que apresenta um legado inspirador para futuras gerações.

Vera faleceu em São Paulo, aos 89 anos, no início deste ano. Uma mulher de vida agitada, que abraçou o mundo artístico de uma forma que merecia um filme. Se você não a conhece, assim como eu não a conhecia, prepare-se para se apaixonar. Que grande personagem! Que ótimo filme!


