Crítica | ‘Feito Pipa’ – O indicado do Brasil ao próximo Oscar vai conquistar seu coração (Festival do Rio 2026)

Depois de conquistar alguns prêmios no prestigiado Festival de Berlim deste ano e levar pra casa alguns kikitos no último Festival de Gramado, pousou no Festival do Rio 2026 o escolhido para ser nosso representante no Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional: Feito Pipa.

Ambientado no sertão cearense, esse é um filme que possui uma delicadeza em cada linha do roteiro, que transforma a jornada de um carismático protagonista mirim em um tornado de emoções, impulsionado por uma narrativa cativante, onde a sensibilidade encontra os confrontos, indo da ternura ao rasgar o coração.

Cena do filme 'Feito Pipa', exibido no Festival do Rio 2026
Cena do filme ‘Feito Pipa’, exibido no Festival do Rio 2026

Gugu (Yuri Gomes) é um jovem querido por grande parte dos amigos, mesmo sofrendo bullying de alguns. Ele vive intensamente sua infância, não se escondendo de ninguém, sendo quem ele é. Adora jogar futebol e vive com a vó, Dilma (Teca Pereira), em uma casa humilde no sertão cearense. Sua mãe foi vítima de violência e morreu tempos atrás, algo que ainda deixa marcas na família. Seu pai, Batista (Lázaro Ramos), dirige caminhões-pipa e mantém uma relação distante com ele, muito por conta do preconceito enraizado em suas ações. Quando sua avó começa a dar sinais de perda de memória, Gugu precisará lidar com a possibilidade de ter que ir morar com o pai de forma definitiva.

Cena do filme 'Feito Pipa', exibido no Festival do Rio 2026
Cena do filme ‘Feito Pipa’, exibido no Festival do Rio 2026

Esse é um filme sobre identidade, relações e como o ‘tempo depois do tempo’ pode trazer aprendizados, mas sem nunca esquecer das memórias que ficam. De fácil identificação, afinal, há muitas relações familiares deterioradas em todos os lugares, a jornada de Gugu simboliza uma estrada que muitas pessoas atravessam, entre a dor e o preconceito, sem perder os cantinhos de esperança que começam a brotar a partir dos afetos que o cercam.

Cena do filme 'Feito Pipa', exibido no Festival do Rio 2026
Cena do filme ‘Feito Pipa’, exibido no Festival do Rio 2026

A relação de Gugu com sua avó é o start de uma pré-despedida, de um amadurecimento precoce que se mostra necessário. E, mesmo na iminência de cortar qualquer coração, como é lindo ver o desenvolvimento dessa relação. A obra convida o público a sentir de perto o que vemos, como se puxássemos uma cadeira na casa de Dona Dilma e parássemos ali, entre memórias e sentimentos variados, como observadores dessa história.

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Já a relação com o pai é o contraponto, o lado mais cruel de laços cheios de frágeis remendos. Sem saber lidar com o filho, fruto de um preconceito exposto, Batista se acomoda no não dito, no silêncio que não estanca as dores caladas que Gugu sofre a cada vez que o encontra. Nesse olhar desconfiado do próprio pai, cria-se uma barreira difícil de se quebrar, na qual as marcas do passado ganham novos olhares. A relação estabelecida entre pai e filho diz muito pelas entrelinhas.

Cena do filme 'Feito Pipa', exibido no Festival do Rio 2026
Cena do filme ‘Feito Pipa’, exibido no Festival do Rio 2026

Rodado em Quixadá, no Ceará, a obra dirigida por Allan Deberton parece nos guiar para uma jornada de reconstrução de uma relação, mas é muito mais que isso. Nessa complexidade das interações humanas, entre frustrações, dores e diferenças, o filme raspa até o último pingo de tristeza e transforma suas reflexões em um livro de páginas a serem completadas.

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O roteiro é muito bem definido e organizado, segue na linha do convencional, sem inovar, mas chacoalhado as emoções a toda hora, algo que pulsa através da tela. Nem sentimos os cerca de 90 minutos passarem. Além disso, o projeto conta com um elenco harmônico, que transmite, em cada espaço em cena, os mais diversos sentimentos, somado a diálogos que envolvem o público, nos convidando, desde o primeiro minuto, a se emocionar com essa história.

Cena do filme 'Feito Pipa', exibido no Festival do Rio 2026
Cena do filme ‘Feito Pipa’, exibido no Festival do Rio 2026

Feito Pipa não é um daqueles filmes para se decifrar, é um daqueles filmes feitos para se sentir. Um belíssimo trabalho que vai conquistar muitos corações.

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Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.