Exibido em um dos primeiros dias de Festival do Rio 2026, o documentário O Sertão das Nossas Memórias nos convida a abrir um baú de memórias de alguns ex-militantes que vão do Rio de Janeiro à Bahia para reconstruir, através de seus próprios depoimentos, a história de um massacre que se consolidou com uma das diversas páginas sangrentas dos tempos da ditadura no Brasil. Entre esses personagens, está a própria diretora da obra, a cineasta Lucia Murat.
Em todo documentário, é sempre importante nossa sensação do que é induzido e o que surge de forma espontânea, uma linha que pode influenciar nossas reflexões. Seguindo pela segunda via, essa narrativa monta um raio-x, por meio de relatos íntimos, dos contextos que cercam um massacre ocorrido na década de 1970: a morte de Carlos Lamarca, um famoso ex-militar que desertou e lutou contra a ditadura, e José Barreto, o Zequinha, seu fiel companheiro de luta.
Ao longo de 100 minutos de projeção, embarcamos em um road movie que se mistura com reportagens de jornais e vídeos antigos, posicionando o público diante do amplo contexto sugerido conectando o passado ao presente. A luta pela liberdade democrática e as histórias marcantes de momentos de tensão vividos se juntam ao legado deixado após os assassinatos, mais precisamente nos municípios de Pintada e de Brotas de Macaúbas, onde, até hoje, é lembrado, inclusive com uma peregrinação realizada por moradores da região na data do ocorrido, consolidando um antes e depois em que a memória se mostra presente.

Em mais um capítulo sobre a resistência à ditadura em sua importante e vasta filmografia, Lucia Murat apresenta mais uma história fundamental para entendermos uma época e seus desenrolares na vida das pessoas que lutaram pela liberdade de nosso país.
Na disputa pelo Troféu Redentor na mostra da Première Brasil de longas-metragens documentais, O Sertão das Nossas Memórias se consolida como um dos filmes mais importantes exibidos no Festival do Rio deste ano, ainda mais nos tempos atuais, em que o avanço mundial da extrema direita nos faz viver dias apreensivos.


