Brian Duffield é o nome responsável por alguns filmes que, apesar de não terem grande expressividade no cenário mainstream, tiveram uma recepção bastante sólida por parte da crítica e do público. O realizador ganhou proeminência com o divertido slasher ‘A Babá’ em 2017, caminhando para o subestimado ‘Ameaça Profunda’ (2020), a tragicomédia apocalíptica ‘Amor e Monstros’ (2020) e o terror sci-fi ‘Ninguém Vai Te Salvar’ (2023), mostrando uma predileção significativa por temas bastante específicas e que, no final das contas, servem como interessantes estudos de personagens em vez de meros espetáculos visuais. Este ano, ele está de volta com o thriller de sobrevivência ‘Dentro da Baleia’, que chega aos cinemas nacionais amanhã, 15 de outubro.
Baseado no romance homônimo de Daniel Kraus, o longa acompanha Jay Gardiner (Austin Abrams), um jovem mergulhador que há muito tempo não põe os pés no mar por causa do recente suicídio do pai, Mitt (Josh Brolin). Voltando para a cidade natal um ano depois do enterro de Mitt, Jay sente que tem assuntos pendentes por ter se afastado dele em virtude de conflitos de personalidade – e, contrariando avisos de um traiçoeiro oceano que se estende à sua frente, ele coloca sua roupa de mergulho e utiliza todo o conhecimento que adquiriu para encontrar os restos mortais do pai e, com isso, ter paz de espírito em seguir em frente.

Todavia, em meio à exploração na obscuridade das águas geladas do Pacífico, ele é arrastado para um confronto mortal entre uma lula-gigante e uma cachalote, eventualmente engolido pela baleia. A partir daí, Jay utiliza o pouco oxigênio que ainda lhe resta para se lembrar de tudo o que aprendeu, mesmo à força, e escapar do estômago da cachalote – contrariando todas as expectativas. E, estendendo-se por pouco mais de uma hora e quarenta, Duffield entrega exatamente o que promete e constrói uma experiência sensorial angustiante e que cumpre com o que imaginamos – por mais que certos deslizes técnicos falem mais alto aqui e ali.
A história assinada por Kraus, que coassina o roteiro ao lado de Duffield, é uma clara alusão à alegoria bíblica envolvendo Jonas, que é engolido por um grande peixe (muitas vezes associado a uma baleia). Porém, o teor religioso não tem muito peso dentro da estrutura fílmica e literária, deixando que as metáforas falem mais alto a fim de garantir dinamismo e credibilidade aos arcos de cada um dos personagens. Jay está mergulhado em uma culpa que o consome minuto a minuto e, sentindo que falhou mais uma vez com o legado que o pai lhe queria deixar, ele começa a se remoer em um ressentimento destrutivo e que, muitas vezes, premedita uma desistência compulsória – arrependendo-se ao passo que sobreviver se torna seu principal objetivo.

O diretor sabe como construir tensão ao nos confinar, em boa parte do projeto, ao interior da baleia – como aponta o próprio título do longa-metragem. Aliando-se ao diretor de fotografia Aaron Morton, Duffield arquiteta um claustrofóbico tour-de-force que engolfa o personagem principal em um sufocante labirinto vivo que comprime seus ossos e destrói seu espírito cena a cena – apoiando-se em um suspense corporal que não poupa o protagonista em momento algum e que aumenta nossa angústia e nossa crença de que ele, eventualmente, conseguirá escapar da cachalote. Apesar de trazer cenas em flashback para explorar a relação entre Jay e Mitt, boa parte dos planos é fechado para reiterar a brutalidade do que está acontecendo.
Abrams, que ganhou fama mundial com seu impecável trabalho no terror ‘Resident Evil’ há alguns meses, volta a roubar os holofotes com mais uma performance sólida e que traduz toda a aflição e até mesmo a melancolia que pincela sua trajetória. Brolin também encontra seu momento de brilhar como o ambivalente Mitt, transformando-se em um improvável mentor que nunca soube como agir como pai, mas que deixou sua marca em Jay de forma inesperada – ambos explorando conceitos de família e de perdão que funcionam dentro de limites autoimpostos. E, completando esse time, temos a presença de nomes como Elisabeth Shue, Jane Levy e Emily Rudd como os membros restantes dos Gardiner.

O longa não é livre de erros, incluindo convencionalismos estéticos como a melodramática trilha sonora assinada por Joseph Trapanese, que mais soa como uma escolha redundante do que um acréscimo à atmosfera do projeto; e escolhas novelescas demais que levam a ideia de “suspensão de descrença” a um nível exagerado de incredulidade que nos tira, em parte, do sinestésico cosmos que Duffield e Kraus criam.
‘Dentro da Baleia’ pode não trazer elementos novos ao gênero, mas é prático e funcional no que se propõe a entregar para o público, criando uma ambientação que nos deixa à beira do assento e torna impossível a tarefa de desviar o olhar – mesmo em sequências de aflição corporal. E, enquanto a equipe faz um ótimo trabalho, é Abrams quem nos guia por esse thriller de sobrevivência com um comprometimento indesculpavelmente derradeiro.



